CECIL, O HOMEM E A NATUREZA

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Autoria de Edward Chaddad

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Não sou agnóstico, sou deísta, mas penso que nós podemos, todos unidos, fazer a diferença, com nossa atuação no seio da sociedade. Pelo que sei “maktub” é uma expressão do fatalismo muçulmano, que acredita que tudo o que está acontecendo já estava escrito, ou seja, iria acontecer. Porém, eu não acredito que assim seja. Na vida,  há o nascer, o viver e o morrer. É a lei da vida, com seus desígnios. Jamais existe uma posição preconcebida, premeditada e construída por Deus, ou seja, Ele não dirige nossos destinos, longe disto. O  fatalismo existe no sentido de que não podemos nos afastar de nossa natureza humana, como por exemplo, o fato de que um dia iremos morrer.  Assim, “maktub” para mim, é a expressão resultante apenas de nossa resignação diante dos ditames da própria vida.

Penso que o fatalismo está presente na vida, pois é uma determinante dela, porém, jamais estará no plano superior de Deus. Seria “maktub” as duas bombas atômicas jogadas em Hiroshima e Nagasaki? Com certeza, Deus criou o universo – a vida é o dom de Deus – e não iria escrever uma página tão cruel e odiosa como esta, onde milhares de seres humanos, inocentes, morreram. E é claro que houve culpados, seres desumanos que planejaram a feitura das armas e dos ataques nucleares aos japoneses. Esses ataques foram planejados, arquitetados por seres humanos e não podemos colocar Deus nisto. A vida é sempre um paradoxo. Ela contraria, pelos acontecimentos, toda a lógica que orienta nossos pensamentos, ou seja, tudo em que acreditamos. Diante desta contradição, podemos enfrentá-la ou deixar tudo nas costas largas do Criador, o que é muito fácil. Ah, o Leão um dia iria morrer. Que fazer? Vamos nos resignar e pronto: “maktub”, estava escrito! É claro que não! Se assim fosse, não haveria crescimento para nosso espírito.

A morte do Leão – na forma que ocorreu – deixou grande parte da humanidade totalmente consternada e revoltada, diante da agressão perpetrada por um ser humano, que se diz inteligente e civilizado. O animal foi atraído para fora da área de proteção, por guias locais, que ajudaram o caçador. E lá ele o matou. Fez isso apenas para se divertir, por prazer, por um passatempo. Era um caçador viciado em matar animais raros. O leão Cecil foi degolado e teve a pele arrancada, depois de ferido por uma flechada. O caçador norte-americano deve ter levado a cabeça do Leão para colocá-la na sala de troféus, por orgulho. Ah, isto estava escrito. Iria acontecer, pois tudo que acontece é vontade de Deus. Renito: é claro que não.

A morte de Cecil foi vontade de Deus? Não! Foi obra e vontade de uma pessoa, ajudada por outras, seus guias locais, que gastou muito dinheiro – mais de 50 mil dólares – para contar ao mundo, como símbolo de sua aventura e vaidade, como matara um animal, o leão Cecil, símbolo do Zimbábue. Foi uma maldade imperdoável, praticada por uma pessoa totalmente desprovida de valores humanos. É de todo evidente que a comoção pela qual passa o mundo, com este caso, não está ligada apenas à morte de Cecil, mas à caça irracional de animais, muitos deles em extinção, colocando em risco a existência das espécies. E o extermínio é para todo o sempre.

Aí está, no caso, um dos exemplos da fúria com que seres humanos agridem a natureza – representada aqui pelo leão Cecil. No caso, nem foi motivada por ganância e certamente por ignorância. Foi mesmo um ato de crueldade, a pretexto de diversão e vaidade. E, é claro, cabe a todos nós, onde o mal estiver acontecendo, combatê-lo, com todas as forças de nossos ideais de vida. O homem é uma das espécies de animal que habita o planeta, mas talvez a única que pode romper o equilíbrio delicado deste.

No pensamento do filósofo Martin Heidegger, é importante refletirmos que não é muito claro o entendimento que coloca o homem como sujeito e a natureza como objeto. Se compreendermos que todos nós somos frutos da natureza, portanto, parte integrante dela, não não podemos levar o mundo ao desequilíbrio. É a nossa racionalidade que deve buscar manter a fusão entre a natureza e nós, seres humanos. Se ela não existir, todos iremos perecer. Temos que preservá-la, mantendo equilibradas a vida vegetal e animal, para que possamos tornar a vida possível, usando corretamente os recursos de nosso planeta.

Lembro-me de ter assistido a um filme, relativo à vida de Noé, onde ele chama a atenção de seu filho, ainda menino, que estava arrancando flores em um campo. Ele lhe perguntou sobre o que faria com as flores, sabendo que as iria jogar fora. E aí emendou: Sirva-se da natureza apenas para as suas necessidades. As flores são vida. Elas irão se espalhar por todo o mundo. Quem ama a vida, ama a natureza. Como parte do mundo – criação divina – ela deve ser venerada pelo homem e, certamente, defendida com unhas e dentes. E é claro que os esforços de todos nós, unidos, tendo como suporte o amor, podem fazer a diferença em prol de uma humanidade muito mais feliz.

Nota: imagem copiada de www.jornalnh.com.br

6 comentários sobre “CECIL, O HOMEM E A NATUREZA

  1. Carlos Alberto Pimentel

    Primo Edward,
    O seu artigo nos leva à reflexão profunda sobre a natureza humana. O leão Cecil foi atingido por uma flecha e agonizou por 40 horas, antes de receber um tiro que acabou com o seu sofrimento. Você menciona que o dentista “Era um caçador viciado em matar animais raros”. Entretanto ele é, na realidade, um psicopata que foi apanhado e teve os seus atos expostos na Internet. O problema são os inúmeros psicopatas que cometem todo tipo de crueldade contra os seus semelhantes (guerras genocidas,etc), os animais, e nunca são apanhados.

    Abraços,

    Responder
    1. Edward

      Querido primo

      Não sei se o tal caçador é um psicopata. Esses, com certeza, são vítimas da vida.
      Mas não! Ele não é um psicopata! Penso que é um ser cruel, que não compreende que não devemos continuar a cultura do descarte e do consumismo, levando uma vida voltada apenas para o materialismo, longe do amor, muito próxima do ódio e da intolerância, onde tudo se justifica pela necessidade da tradução da vida em gozo e prazer, sem quaisquer outras preocupações, seja com os vegetais e animais, ou com os seres humanos mais vulneráveis, ou com a natureza como um todo.

      Todos eles subiram no navio do lucro sem limites, irresponsável, em que ela, a mãe natureza, vai naufragar, como você, com excelência na área ambiental, compreende muito mais do que todos nós.

      Obrigado pela leitura e pelo comentário.

      Um grande abraço.

      Responder
      1. Carlos Alberto Pimentel

        Primo Edward,

        A caça legal de animais selvagens é parte integrante da cultura dos USA. Principalmente no meio oeste americano, onde convivi com as singularidades da cultura local por vários meses em 89. Caçam principalmente o “deer” (veado) cujo governo autoriza a caça através de regras muito rígidas e que, muitas, vezes visa o equilíbrio ecológico. Mesmo aqui no Brasil, na nossa infância eram normais as caçadas legais que hoje são proibidas), onde havia sem dúvida a crueldade e a falta de consciência ecológica – também a ignorância – que norteava essas ações. Entretanto, hoje através da educação e conscientização, nos revoltamos com a morte de animais e também lutamos em prol da preservação do meio ambiente. Isto porque o que foi feito no passado foi errado e nos envergonha. Entretanto, o psicopata não tem remorso ou sentimento com relação ao sofrimento alheio. Só isso explica que um dentista, profissional da saúde, pague US$ 60,000.00 por uma caçada e apareça numa foto sorrindo junto ao pobre leão morto covardemente.

        Vários amigos já me revelaram que, pararam de comer carne após assistirem cenas chocantes em matadouros, por exemplo. Talvez, eles já tenham atingido um grau de evolução superior ao restante da população. Isto também é um tipo de crueldade. Ou não? Mas “fechamos os olhos” ao saborear um delicioso churrasco.

        Hoje, os jornais publicaram que três grandes companhias aéreas americanas já estão proibindo o transporte dos “troféus” desses caçadores da África para os USA.

        Abraços,

        Responder
        1. Edward

          Primo Beto

          O que você diria de uma pessoa que não tem sensibilidade, é má, perversa, e pode estar infringindo as normas de nossa sociedade? E o que diria daquela que é imoral, sem consciência? E daquela calculista, fria, que não tem nenhuma compaixão, e pode ser cruel, sentir prazer ao ver o sofrimento alheio, para consolar sua vida de insucesso, seja material ou espiritual? E nem se fale aqui de remorso. Inclusive trata muitos de seus semelhantes como objetos, buscam no lucro o objetivo maior. Chega a mentir e fingir, mesmo quando se relaciona amorosamente. O que diria daquela que é zero em afetividade, por vezes, até parece brincalhona, agradável, mas só para buscar o seu objetivo maior, sempre de braços dados com a maldade? Ah, não posso me esquecer da pessoa egoísta, que quer tudo para ela, custe o que custar. E a tal “pavio-curto”, pronta a responder com violência qualquer coisa que entenda ser uma ofensa… Há muitos e muitos outros tipos de pessoas. Mencionei apenas alguns deles.

          Essas pessoas podem ser normais – a grande maioria que conhecemos, com certeza, infelizmente, tem estas tendências – e podem ser sociopatas ou psicopatas. Porém, depende da intensidade destas características. Estamos – penso eu – muito longe desse caçador insensível e que, pelo seu relato que conferi real, teve prazer em ver o sofrimento demorado do Leão ao morrer, sacrificando-o, ao final, com um tiro. Ele pode ser um psicopata ou sociopata, mas pode ser, como milhares de pessoas que consideramos normais – e são normais dentro da sociedade em que vivemos – e que estão lá, acima, no relato de situações que expus, acima de tudo, acima da lei e da moral.

          Como acima disse, é um tipo de pessoa “que não compreende que não devemos continuar a cultura do descarte e do consumismo, levando uma vida voltada apenas para o materialismo, longe do amor, muito próxima do ódio e da intolerância, onde tudo se justifica pela necessidade da tradução da vida em gozo e prazer, sem quaisquer outras preocupações, seja com os vegetais e animais, ou com os seres humanos mais vulneráveis, ou com a natureza como um todo”

          Realmente, se formos ver, há milhares de pessoas que não fazem o “nosce te ipsum”, e estão criticando coisas que fazem, no dia a dia, como você muito bem comentou: “Vários amigos já me revelaram que, pararam de comer carne após assistirem cenas chocantes em matadouros, por exemplo”

          Esse espírito de aventura, a caça a animais, concordo com você, não é recente. Há muitos que já o fizeram no passado, e hoje não mais repetem, porque estamos melhorando nossa compreensão sobre os animais. Porém, Cecil não é um animal comum, é uma espécie em extinção, e era um símbolo da conservação do ambiente. Podemos, é claro, chamar o caçador de psicopata ou qualquer outro nome, no sentido de não concordarmos com o que ele fez. Porém, pode não ser um psicopata, mas um ESTEREÓTIPO, ou seja, a vulgarização que fazem de comportamentos ou características de outros. Diria, rótulo, mesmo que não o tenhamos pejorativamente, daquilo que existe em grande quantidade num mundo em que vale mais o dinheiro do que o que temos em nosso coração.

          Há muitos exemplos disto por aí, e percebemos em roupas, comportamentos, a mesma aparência, gostar de certas músicas e de idiotas que fazem tipos diferentes na TV ou mesmo na internet. E o pior que o estereótipo, na maioria das vezes, é inconsciente. Ele faz o que muitos fazem, sem nem saber porque. O duro é quando se queda para a intolerância, principalmente religiosa, para o ódio, para o racismo, a xenofobia. Nem sabem porque, logo ali na esquina, estão atirando contra os haitianos.

          As pessoas pouco raciocinam – seguem um tipo – que se tornou comum e faz o “status”, a posição privilegiada. Acham que com isto tem mais prestígio e relevo na sociedade, muitos assim agem por ouvir opiniões alheias falsas e que se tornam, para elas, verdadeiras. Pode ser que o tal caçador seja lá um psicopata – mas como é muito rico – para mim é um estereótipo, coisa banal e comum em um mundo materialista e que visa, sobretudo, ao lucro e a busca do prazer.

          Abraços

  2. LuDiasBH Autor do post

    Ed

    O seu texto deixou-me profundamente emocionada, ainda que eu conheça o tamanho de seu amor pelo homem, animais e pela natureza como um todo. Mas só quem nutre uma grande paixão pela vida pode se colocar assim, tão claramente. E tenho a certeza de que, todos, que lerem este texto, encontrarão aí verdades capazes de levá-los a uma compreensão maior do que é a simbiose que deve existir entre a espécie humana e as demais.

    Maravilhosamente você nos conduz a uma verdade plena:

    ” É a nossa racionalidade que deve buscar manter a fusão entre a natureza e nós, seres humanos. Se ela não existir, todos iremos perecer. Temos que preservá-la, mantendo equilibradas a vida vegetal e animal, para que possamos tornar a vida possível, usando corretamente os recursos de nosso planeta.”

    Não há outro caminho, se quisermos legar um planeta sadio às gerações vindouras.

    Abraços,

    Lu

    Responder
    1. Edward

      LuDias

      Fico imensamente feliz, se o meu texto levou-lhe emoção positiva, no sentido de que devemos todos, sim, buscar compreender que a perpetuidade da vida está no equilíbrio na natureza, seja relativamente aos vegetais, seja no que diz respeito aos animais, entre eles, o que se considera o único racional, o ser humano.

      Na verdade, se formos apenas buscar a racionalidade, é fácil perceber que a vida humana depende de todas as demais, tamanha a interligação existente. E é neste momento que começamos a perceber que esta vida, que tentamos defender, pode um dia se extinguir. A racionalidade não basta. Acredito e sempre acreditarei no que manda o coração. Os nossos sentimentos são os mais importantes instrumentos para que um dia, talvez, possamos ter a certeza de que a vida na Terra não irá ser extinta.Toda vida está inserida na raiz AM, que dizer união. De lá, nasceu o mais importante sentimento humano, o amor.

      E é com este sentimento divino que podemos amar a rosa vermelha e linda que hoje abriu de um botão, os passarinhos que estão se alimentando no pé de mamão de meu quintal, o ar não poluído que consigo ainda respirar lá no “baixão” da serra, a água pura que daquela mina, escondida da ganância do ser humano e, que está ainda está preservada, o sol que brilha longe das nuvens da poluição, ou ainda, v. gratia, aquelas abelhas que estão desaparecendo – fruto da aplicação de pesticidas – e que fazem povoar a natureza.

      Poucos podem compreender, não só com a racionalidade, mas principalmente com muita sensibilidade, que temos que manter o equilíbrio entre a vida vegetal e animal, pois é aí que se fundamenta a raiz de nossa existência.

      Obrigado por seu bondoso e rico comentário.

      Responder

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