DOX DORNIER, AUTOGIRO E ZEPPELIN

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Autoria do Prof. Rodolpho Caniato

        

Na véspera do dia em que nasci, um gigante dos ares decolava pela primeira vez no lago de Constança, na Suíça. Estava surgindo o grande avião de dois andares, feito de madeira e acionado por doze, isso mesmo, doze motores colocados sobre as asas. Como não havia aeroportos, ele tinha que ser um hidroavião. Chamava-se DOX Dornier e sobrevoou o Rio de Janeiro, e especialmente a enseada de Botafogo, creio que em 1936. Do casal dinamarquês, os Fösker, que vinha ao Brasil e se hospedava no Atalaia, ganhei uma réplica de brinquedo desse grande avião projetado por Dornier e que seria por décadas o maior avião do mundo. A despeito do grande alvoroço mundial, causado por esse projeto alemão, feito na Suíça (a Alemanha estava proibida de construir aviões por cauda do Tratado de Versalhes, decorrente da Pimeira Guerra Mundial), ele não teve êxito. Parece que apenas três deles foram construídos, mas não chegaram a operar regularmente. Um deles passou sobre Botafogo e deve ter pousado em águas da Baía da Guanabara.

Outra das grandes novidades mundiais foi a primeira experiência com o “autogiro” que daria origem ao helicóptero. Era uma criação do piloto espanhol Juan de La Cierva. Embora eu não conseguisse ver com clareza, estive com meu pai na Avenida Atlântica, olhando para uma máquina de voar, no céu, e que todos diziam ser o novo invento, o autogiro, precursor do helicóptero.  Seu inventor, que morreu pouco depois, tinha partido em seu projeto, de um avião, em que ele suprimiu as asas e colocou uma grande hélice (rotor) horizontal por cima. O autogiro era propelido horizontalmente pelo motor de avião convencional, na frente. A sustentação das asas era substituída pela da hélice horizontal e livre. Ele não caia, mas também não podia pairar, parar no ar.

As grandes novidades que o mundo vivia nos anos de minha infância, ressoavam muito no Rio, capital do Brasil, onde a grande vitrina dos acontecimentos era Copacabana. Aí estava a maioria das representações diplomáticas estrangeiras. De todas as lembranças de coisas ou eventos que vi, nada, entretanto, podia ser comparado ao Zeppelin. Até hoje essa aparição seria o mais espetacular que se poderia ver. O leitor deve ter bem presente, por muitos meios de comunicação, o espetacular que foi o “Titanic”: um imenso e luxuoso navio de passageiros que naufragou em 1912, logo na viagem inaugural. Pois agora imagine uma coisa daquele tamanho voando baixinho e calmamente sobre a praia de Copacabana.

Os “zepelins” tinham quase as dimensões do “Titanic”, apenas uns metros a menos. Dois deles fizeram várias e regulares viagens, passando pelo Rio entre 1930 e 1937. O primeiro deles, o “Graf Zeppelin”, fez cinco viagens. O mais moderno e um pouco maior, o “Hindenburg”, fez quatro. Creio ter visto todas essas passagens, que eram esperadas com ansiedade. Minha avó materna que criava um primo (Mausi), pouco mais novo que eu, relatava o espanto do moleque, quando do portão de sua casa no Belenzinho, em São Paulo, correu para dentro assustado e dizendo em suíço: “Uma grande salsicha voando!”. A passagem pelo Rio, deve ter sido também   para   aqueles   passageiros   de   alto   luxo,   uma   coisa espetacular. Imagine todo o belo panorama do Rio de Janeiro, visto a uns quinhentos metros de altura, num voo calmo e lento, podendo olhar por janelas abertas.  A notícia de que ele iria passar se espalhava como um rastilho por toda a cidade. Com minha mãe e meu, pai, o gerente, subíamos para o terraço do Hotel Atalaia, por cima do décimo primeiro andar. Nosso prédio era dos mais altos de Copacabana. Daí víamos surgir por trás do Pão de Açúcar, no morro do Leme, aquele imenso charuto voador, todo prateado, voando placidamente sobre o mar por toda a praia de Copacabana, até desaparecer na direção do Leblon.  Ouvia-se apenas um leve zumbido dos motores diesel dos lados da grande “barriga”. A linha era Frankfurt-Buenos Ayres.

Em Santa Cruz havia sido construído pelos próprios alemães um imenso hangar para receber, abrigar e fazer manutenção daquele “gigante dos ares”. O governo brasileiro, Getúlio Vargas, havia dado o terreno e a permissão para que se construísse aquele hangar que é ainda hoje, a única coisa do gênero no mundo. Um ramal de trem também foi construído para servir de apoio operacional aos zepelins, chegando até o grande Hangar (essa base se transformaria, depois, durante a II Guerra Mundial, em Base Aérea de Santa Cruz). O maior dos zepelins, o “Hindenburg”, trazia na cauda a “suástica”, o emblema criado por Hitler que usou, especialmente o mais moderno e maior deles, para mostrar a “superioridade” do progresso e da tecnologia da Alemanha ou -“Deutschland über alles” (a “Alemanha acima de tudo”).

Antes de ser colocado em linha regular, o Graf Zeppelin havia dado a volta ao mundo no ano em que nasci (1929). A última viagem de um “zepelim” foi a do Hindenburg, e terminou tragicamente em 1937, na base de Lakehurst, (EEUU), quando se preparava para o pouso.   Uma explosão e a combustão do Hidrogênio com que era inflado terminaram com um período de grande e efêmera glória. O mundo estava à beira da II Guerra Mundial.

Nota: Extraído do livro “Corrupira”, ainda inédito, do autor
Imagens extraídas do http://webkits.hoop.la/topic/hangar-do-zeppelin-no-rio-de-

Um comentário sobre “DOX DORNIER, AUTOGIRO E ZEPPELIN

  1. Adevaldo Rodrigues

    Lu,
    Muito interessante o texto do Zeppelin. Ele mostra uma das passagens da evolução da aviação civil até chegar aos dias de hoje. O Prof. Caniato descreve essa passagem de uma forma fácil de entender como funcionava o Zeppelin. Tenho curiosidade de saber quanto tempo durava a viagem de Frankfurt até Buenos Aires.

    Abraço,

    Devas

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