GUIGNARD, A ARTE E OS AMIGOS

Autoria do Prof. Pierre Santos

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Guignard era mágico para ensinar. Ele falava pouco, tinha vergonha por causa do lábio leporino, pois as pessoas não o entendiam bem. Ensinava mais por gestos. Era incrível seu domínio de linguagem gestual. Ele conseguia transmitir ideias com uma naturalidade muito grande. Gostava de dar aulas em meio à paisagem, com os alunos pintando no Parque Municipal de Belo Horizonte, sob seu olhar atento.

O artista, com a sua ação e atitude, transmitiu uma forma própria de ver a arte, que impregnou a todos os que tiveram a oportunidade de conviver com ele. Formou realmente uma escola. Se nós temos no Brasil uma escola de arte no sentido acadêmico, essa é a de Guignard, o mestre que trouxe o modernismo para Minas Gerais. A influência dele também está presente na Escola de Arte da FAOP, em Ouro Preto. Ela foi criada nesse ambiente, com essa perspectiva. Guignard é um dos grandes representantes do expressionismo lírico no mundo. Ele fez algo que ninguém tinha feito em matéria de poesia dentro da pintura. Por onde passava, sempre deixava sua marca, sua alma.

Juscelino Kubitschek era prefeito de Belo Horizonte quando trouxe Guignard para a cidade. No ano seguinte foi eleito Otacílio Negrão de Lima, e a primeira coisa que fez, ao assumir o cargo, foi cortar o salário do artista. Nessa época, a arte moderna era muito pouco valorizada. A  turma de alunos do artista reunia-se, cotizava pensão e comida para cobrir suas despesas cotidianas. O Dr. Hélio Hermeto entrou com uma ação judicial contra a PBH, exigindo os pagamentos, que o pintor passou a receber até o fim da vida. Era um salário insuficiente para assegurar condições dignas de sobrevivência. Talvez o correspondente a dois salários mínimos atuais. Guignard era convidado para ir a muitos lugares. Nunca me lembro de tê-lo visto mal vestido. As camisas eram impecavelmente limpas e engomadas. Terno e gravata borboleta, sempre. Ele pintava e não caía uma gota de tinta na roupa ou no chão. Era um milagre conseguir tudo isso.

A arte de Guignard era desconhecida do povo, mas reconhecida por uma elite de médicos, professores e amigos que adquiriam quadros para ajudá-lo, inclusive o próprio Juscelino Kubitschek. Houve época em que ele, Augusto Degois, Vicente Abreu e eu nos reuníamos sempre na Casa do Chopp para bater papo. Ele nunca nos deixava pagar. Dava um jeito de pagar antes e, quando não tinha dinheiro, ficava por nossa conta. Aí ele não gostava: “Ah… vocês me traíram!” Era o jeito dele. Certo dia ele sumiu. Uma noite não veio, nem na outra. Pensamos que estaria doente. Fomos à pensão onde morava. Batemos à sua porta, não houve resposta. Senti um cheiro estranho vindo do quarto. Quando abrimos e acendemos a luz, ele estava roxo, emborcado em cima do cavalete, praticamente em coma. Pegamo-lo, pusemos dentro de um carro e o levamos para a Santa Casa, onde ficou mais de uma semana. Intoxicação por bebida. Ele exagerava na bebida e às vezes tinha que ser internado. Fomos visitá-lo, mas não pudemos entrar. Só Yara Tupinambá subiu. E ele fez um bilhete: “Turma do barulho, obrigado por vocês terem vindo.”.

Nota: Imagem copiada de www.pinturabrasileira.com

6 comentários sobre “GUIGNARD, A ARTE E OS AMIGOS

    1. LuDiasBH Autor do post

      Leila

      A vida de Guignard foi realmente muito triste e complexa. Continue acomanhando sua história, para que conheceça o lirismo de sua obra.

      Abraços,

      Lu

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  1. Adevaldo Souza

    Lu,
    Esta é uma bonita homenagem que o Prof. Pierre faz ao seu amigo e grande artista Guignard. Pelo texto é possível ver as tendências políticas em relação às artes, entre Juscelino e Negrão de Lima. Atualmente, também, é possível ver essas tendências. Hoje, por exemplo, foi noticiado que Ingra Lyberato e Guilherme Fiúza, pediram seus afastamentos da comissão para indicação do filme brasileiro candidato ao Oscar, por questionar a legitimidade dessa comissão. Existe uma polêmica em relação ao filme “Aquarius”, onde um dos membros da comissão fez duras críticas a esse filme, porque durante o festival francês, onde a equipe de “Aquarius” empunhou cartazes com os dizeres “Um golpe está acontecendo no Brasil”. O meio cinematográfico está revoltado e, motivaram os diretores dos filmes “Aquarius”, “Boi Neon” e “Mãe Só Há Uma” a desistirem de inscrever seus filmes para análise da comissão. Êta Brasil!

    Abraço,

    Devas

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Devas

      O universo das artes anda mesmo muito complicado no Brasil. Os artistas, em sua maioria, e em todo o mundo, sempre estiveram em luta pela liberade de expressão. A arte é libertária por natureza e não consegue conviver com qualquer forma de violência, rebelando-se com firmeza. Ela foi e será sempre o baluarte da democracia. E quando o poder é tomado, em razão de interesses escusos e pessoais, pondo de escanteio a democracia, o bem maior de um povo, a arte é cortada em suas raízes. Elas sangram abertamente.

      Eu acompanhei toda a história de “Aquarius”, filme muito aplaudido no exterior. Os artistas estão agindo corretamente. Nada como mostrar o porão da “ditadura a la brasileira”. Somente os insensatos não enxergam a verdade, e nem mesmo percebem que estão preparando o campo para que se instale o desrespeito, e minem nossa liberdade, quando assim o quiserem. Confesso que ando muito angustiada.

      Abraços,

      Lu

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  2. Mário Mendonça

    Lu Dias

    Bom dia

    Por que será que a história do Prof. Pierre, me fez lembrar do Mozart? Falando em Mozart, quando é que tu vais nos contar a história dele? Trata-se de outro ídolo meu. Não vale dizer que só gosto de malucos, hein?

    Abração

    Mário Mendonça

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Mário

      Só irei pesquisar sobre os grandes compositores da música clássica, quando terminar os Mestres da Pintura. A história deles é fantástica. Quanto a Mozart, tenho aqui no blog o filme sobre ele. Veja em CINEMA. Quanto ao Prof. Pierre, esse levou uma queda e irá ficar muito tempo em repouso. Acho que sua lembrança deva-se à excelência dos dois. Um é tão bom como crítico de arte quanto o outro o é na música.

      Abraços,

      Lu

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