NOS TEMPOS DA BRUXARIA

Autoria de LuDiasBH

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Uma pessoa suspeita de bruxaria era amarrada e jogada num lago; se flutuasse, era prova de que era bruxa, e então a enforcavam; se afundasse e se afogasse, provava sua inocência. (Steven Pinker)

O ser humano sempre buscou uma explicação para as coisas desagradáveis que lhe acontece. Muitas pessoas, ainda hoje, acham que isso ou aquilo lhes acontece de mal foi causado  por alguém com poderes sobrenaturais. Esse ser “superpoderoso” recebe o nome de bruxo (feiticeiro, mago, mandingueiro, macumbeiro, etc.). E quanto mais distanciada estiver uma cultura da Ciência, mais as pessoas estarão apegadas às superstições. Podemos citar um fato presente em nossos dias: a situação dos albinos (saruê) na Tanzânia e no Burundi, África Ocidental, mortos para que os ossos sirvam de amuleto. (ÁFRICA – ALBINISMO E FEITIÇARIA)

A bruxaria sempre foi responsável por um grande número de mortes, em razão das vinganças, desde a época em que os povos eram caçadores/coletores e viviam em sociedades tribais. Como não tinham conhecimento do ciclo da vida, imaginavam que a morte de alguém era motivada por outrem. Se um leão matava o sujeito na caçada, tudo bem, pois o fato fora observado por seus companheiros. Contudo, se a pessoa morria de doença, aí a coisa mudava. Quem a teria matado, senão alguém que tinha poderes sobre as forças sobrenaturais!  Mas por debaixo de tal ignorância também haviam interesses escusos, pois, segundo pesquisas antropológicas, os parentes afins eram muitas vezes exterminados como bruxos, para favorecer certos interesses do chefe tribal, que deles queria se livrar. Muitos rivais também eram eliminados sob a acusação de bruxaria.  Era mais fácil usar tal ardil.

O manual Malleus Maleficarum foi  escrito e publicado por dois monges, no século XV, através do qual ensinavam como identificar um bruxo ou uma bruxa. Segundo o escritor canadense Steven Pinker, “Instigados por essas revelações e inspirados pela injunção em Êxodo 22, 17 ‘A feiticeira não deixarás viver’, caçadores de bruxas franceses e alemães mataram entre 60 mil e 100 mil pessoas acusadas de bruxaria (85% mulheres) durante os dois séculos seguintes.”. Essas pessoas eram normalmente queimadas em fogueiras, depois de passarem por uma excruciante tortura, na qual reconheciam ter cometido vários crimes, como os citados por Pinker em seu livro “Os Anjos Bons da Natureza Humana”:

  • causar naufrágios;
  • comer bebês;
  • destruir colheitas;
  • voar em vassoura no sabá;
  • copular com demônios e depois transformá-los em cães e gatos;
  • tornar homens impotentes convencendo-os de que perderam o pênis.

Além da patranha das bruxarias, a elas juntavam-se invencionices que se transformavam em brutais calúnias, que propagavam mundo afora, trazendo muito derramamento de sangue. Dentre essas, pode ser citada uma que aconteceu na Europa medieval, quando se espalhou que os judeus envenenavam os poços de água e também matavam crianças no período da Páscoa judaica, com a finalidade de usar o sangue dessas para fazer o matzá (pão sem fermento, feito com farinha branca e água, o maior símbolo da Páscoa judaica). Em razão dessa difamação, milhares de judeus foram mortos na Europa, durante a Idade Média.

Ainda que houvesse pessoas que demostrassem ser impossível uma mulher usar uma vassoura como condução para o voo, em se tratando das pretensas bruxas, a ignorância falava mais alto. Esses defensores, muitas vezes, acabavam mortos sob o pecado de serem céticos. Foi somente na Idade da Razão, quando escritores como Erasmo de Roterdã, Michel de Montaigne e Thomas Hobbes passaram a ser ouvidos, e o espírito científico passou a pôr à prova as mirabolantes superstições é que foi amainando a caça às bruxas.

Em 1631, um jesuíta alemão chamado padre Friedrich Spee, ficou tão horrorizado com o sistema de tortura e morte dos acusados de bruxaria, que escreveu um livro sobre o tema, pondo fim às acusações de bruxaria em parte de seu país. Nos meados do século XVIII terminava a caça às bruxas em toda a Europa. Essa parte da história da humanidade foi tão perversa e doída, que até hoje existe a expressão “caça às bruxas” presente na cultura de vários povos. Segundo o dicionário Aurélio ela significa: 1. Perseguição sistemática a adversários. 2. Restr. Polít. Perseguição política ou campanha punitiva, ger. caluniosa, contra pessoas ou grupos que discordam da ordem, princípios ou governo estabelecidos. [Calque (2) do ingl. witch-hunt: expressão alusiva às mulheres presas e condenadas a morrer na fogueira no séc. XVII sob a acusação de feitiçaria, e que, em meados do séc. XX, serviu para designar as perseguições e os expurgos promovidos pelo senador Joseph McCarthy (v. macarthismo) contra esquerdistas e comunistas.].

Nota: O Sabá das Bruxas, obra de Francisco Goya

Fonte de pesquisa
Os anjos bons da natureza humana/ Steven Pinker/ Edit. Companhia das Letras

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