O CAVALEIRO E O DRAGÃO

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Autoria do Dr. Ivan T. Large

dragao
“Só há uma maneira de matar os monstros, aceitá-los.” (Júlio Cortazar)

Dona Rosa nasceu na roça. Foi abandonada pelos pais. Não conheceu as alegrias da infância. Sobreviveu miseravelmente, trabalhando a vida toda como empregada doméstica. Nunca foi para escola. Hoje, com mais de cinquenta anos de idade, pode finalmente realizar o seu grande sonho: aprender a ler. Matriculou-se numa escola de alfabetização para adultos, mas não conseguia enxergar as letras do seu abecedário. Por isso, procurou um oftalmologista.

Sorte minha, eu fui o escolhido! Esses óculos que tenho o privilégio de receitar-lhe são para mim, mais valiosos que as mais resplandecentes coroas, que ornam as cabeças dos reis e das rainhas. Esses óculos, desprovidos de vaidade fútil, estão coroando uma vida de luta e sofrimento, uma vida digna e corajosa, uma vida que faz honra à verdadeira vida. Dona Rosa não sabe, mas quando lhe entrego, num movimento aparentemente rotineiro, a sua receita num simples pedaço de papel recoberto por minha horrorosa escrita, sinto-me muito mais importante que o próprio Arcebispo de Canterbury, depositando sobre a cabeça de um orgulhoso monarca uma coroa de ouro, cravada com as mais raras pedras preciosas.

A cerimônia de coroação da “rainha Rosa” durou pouco. Dona Rosa já saiu da minha sala e da minha imaginação, para voltar a sua vida sofrida, em alguma favela miserável da periferia, bem longe do luxo do palácio de Buckingham. No lugar de uma carruagem, terá que pegar um ônibus lotado, segurando, com medo de ser roubada, uma bolsa usada, onde está escondida uma coroa cheia de diamantes. Desculpe-me, quis dizer uma receita de óculos. Enquanto isso, dois outros olhos já estão na minha frente. Mas esses olhos não olham para mim. Parecem seguir algum ponto que está se balançando no teto. Na verdade, esses olhos não olham para nada. Há muitos anos que não enxergam mais. Sentado à minha frente, está um homem de 60 anos, com uma bengala branca nas mãos. É um cego. João é o seu nome. A razão da sua presença é apenas burocrática. Precisa de um relatório médico, atestando a sua deficiência visual, a fim de renovar o passe que lhe dá direito ao acesso gratuito aos ônibus.

Enquanto eu redijo o relatório, faço-lhe algumas perguntas. De boa vontade, João abre o livro de sua vida. As páginas passam rapidamente. João nasceu com problemas nos olhos. Apesar dos esforços dos médicos, com dez anos de idade, estava completamente cego. Atravessou a vida na mais total escuridão. Mas conseguiu superar as inúmeras dificuldades colocadas no seu caminho. Hoje é uma pessoa alegre e muito comunicativa. Músico e religioso, toca órgão numa igreja. Considera-se feliz. Reclama apenas de uma dor de coluna, que, às vezes, fica insuportável, e me revela:

– Se Deus aparecesse na minha frente e me pedisse para escolher entre a cura dos meus olhos e a da minha coluna, suplicaria que me livrasse, de preferência, desta danada dor nas costas, que me deixa às vezes completamente imobilizado, enquanto a minha cegueira, há muito tempo, não me impede de servi-lo.

Terminei o relatório, entreguei-o ao Seu João, que depois de despedir-se foi embora deixando-me perplexo. A cegueira à qual ele se referia e da qual parecia até fazer pouco caso, seria aquela que me foi sempre pintada como a pior de todas as calamidades, mal mais temido que a própria morte? Para você entender a razão da minha confusão, imagine um desses cavaleiros lendários dos tempos antigos cuja vida inteira foi consagrada a defender os fracos e oprimidos contra a fúria implacável do mais cruel de todos os dragões. E um belo dia, sem mais nem menos, recebe a visita do seu pior inimigo, acompanhado de uma de suas vitimas. Mas no lugar do monstro aterrorizador, jogando fogo pelas narinas, está um bicho manso, aparentemente domado por sua vítima, com quem parece ter uma relação quase amigável. Então o cavaleiro sente-se ridículo dentro de sua pesada armadura. Sua poderosa espada, fiel companheira de sempre, vira um inútil pedaço de vil metal, e ele faz a única coisa que poderia fazer nesse momento: pensar.

Nota: ilustração do autor

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