Tarsila – A NEGRA

Autoria de LuDiasBH

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Sinto-me cada vez mais brasileira: quero ser a pintora da minha terra. Como agradeço por ter passado na fazenda a minha infância. (Tarsila do Amaral)

A composição A Negra, obra da pintora brasileira Tarsila do Amaral, pertencente à sua fase “antropofágica”. Foi pintada quando ela estudava em Paris, como aluna de Fernand Léger, e nasceu das recordações de sua infância, passada entre as fazendas de café dos pais, período em que vivia cercada de babás, amas de leite e mulheres que ali trabalhavam. Quando pintou este quadro, ela vivia a descoberta da Arte Moderna.

A monumental personagem, que se parece com uma escultura, ocupa grande parte do plano pictórico. Encontra-se sentada no chão, com as pernas cruzadas e esparramadas, e mostra-se quieta e desalentada. A personagem apenas olha fixamente para o observador. Nua, com um grande seio a despencar-lhe sobre a perna direita, enquanto o outro jaz oculto sob seu roliço braço, a figura apresenta lábios grossos e cabeça desprovida de cabelos, mostrando uma dolorosa sujeição à vida. As pinturas “Abaporu” e A Negra são parentes, levando em conta o estilo. As duas composições fundem-se no quadro “Antropofagia”.

Segundo depoimento da pintora, quando criança ela ouvia histórias contadas pelas mulheres, que trabalhavam nas fazendas, sobre as escravas que levavam os filhos às costas, enquanto trabalhavam. Para amamentá-los, elas amarravam pedras nos bicos dos seios, de modo a torná-los alongados e passá-los sobre os ombros, pois não tinham o direito de parar o trabalho que faziam. Ao fundo, também existe a presença de elementos cubistas, como a folha de bananeira, em diagonal semicurvada.

Tarsila fala em entrevista sobre sua pintura A Negra:

Um dos meus quadros que fez muito sucesso, quando eu o expus na Europa se chama “A Negra”. Porque eu tenho reminiscências de ter conhecido uma daquelas antigas escravas, quando eu era menina de cinco ou seis anos, na nossa fazenda, e ela tinha os lábios caídos e os seios enormes. Contaram-me depois que naquele tempo as negras amarravam pedras nos seios para ficarem compridos, e elas jogarem para trás e amamentarem a criança presa nas costas. Num quadro que pintei para o IV Centenário de São Paulo, eu fiz uma procissão com uma negra em último plano e uma igreja barroca, era uma lembrança daquela negra da minha infância, eu acho. Eu invento tudo na minha pintura. E o que eu vi ou senti, como um belo pôr do sol ou essa negra, eu estilizo.

Ficha técnica
Ano: 1923
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 100 x 81,3 cm
Localização: Acervo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de S. Paulo, São Paulo, Brasil

Fontes de pesquisa
Tarsila do Amaral/ Coleção Folha
Brazilian Art VII

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