A ARTE CRISTÃ E BIZÂNCIO (Aula nº 17)

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Autoria de LuDiasBH  

                          

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O cristianismo era no século I d.C. apenas uma seita quase que totalmente desconhecida na Palestina, mas em 313 d.C. passou a ser a religião oficial do Império Romano, conforme decreto do Imperador Constantino. Antes disso, porém, foi uma religião clandestina, resistindo ao rigor das autoridades romanas. O auge de sua perseguição aconteceu no reinado do imperador Deocleciano (284 – 305), quando as reuniões cristãs tornaram-se secretas. Suas obras de arte eram portáteis ou ocultadas dos censores nas catacumbas (galerias escavadas no subsolo, onde os primeiros cristãos eram sepultados, ali também se realizavam rituais fúnebres e muitas vezes serviram de esconderijo secreto dos cristãos). A arte cristã primitiva é também conhecida como “paleocristã” (do grego palaios, antigo).

A arte cristã no Ocidente apareceu antes que o cristianismo viesse a tornar-se oficial, sendo seus primeiros exemplos encontrados nas catacumbas. Suas paredes continham imagens simples que diziam respeito a uma simbologia própria dos cristãos: peixe, pomba com ramo de oliveira, pão eucarístico, âncora, cruz ou monograma de Cristo. As obras mais ousadas da arte cristã em seus primeiros tempos eram inspiradas em modelos clássicos. Cristo era, muitas vezes, representado como um jovem sem barba, tomando o artista por inspiração as estátuas dos deuses Apolo, Mercúrio ou Orfeu, a exemplo de “O Bom Pastor”, obra inspirada em estátuas clássicas de Mercúrio, deus romano protetor do rebanho e associado ao deus grego Hermes, segundo a mitologia greco-romana.

Mesmo após a liberdade religiosa conferida aos cristãos, seus artistas precisaram de um tempo para criar uma linguagem religiosa específica. À época, as imagens referentes à crucificação de Cristo ou de seus santos não eram aceitas sob a alegação de que essa forma aviltante de execução dizia respeito apenas a escravos e criminosos. Enquanto não criavam uma obra própria, os artistas cristãos recorriam a imagens clássicas de deuses romanos, a exemplo de “O Bom Pastor” (primeira ilustração acima à esquerda), temas mais representados, tanto em pinturas, mosaicos e esculturas. A ovelha no ombro de Cristo representa o pecador arrependido. A escultura é feita em mármore. A segunda ilustração do texto mostra o “Imperador Constantino e seu Séquito” —  trata-se de um mosaico.

O imperador Constantino em 330 transferiu a capital de Roma para Bizâncio (rebatizada como Constantinopla em sua homenagem), onde a criatividade dos artistas expandiu-se ao receber diversas influências. Embora se tratasse de uma cidade grega, Bizâncio mantinha contato com culturas do Oriente Próximo. As primeiras obras-primas religiosas bizantinas — ou seja, naturais de Bizâncio — foram feitas em mosaicos. Tratava-se de uma técnica em que as imagens eram criadas a partir de pedaços de pedras coloridas, conchas, vidros e cristais, fixados em argamassa, recebendo depois uma mistura de cal, areia e óleo para preencher os espaços entre os fragmentos. Foi a linguagem artística que mais ganhou espaço na arte bizantina, sendo posteriormente usada em outras culturas. Enfeitava paredes e abóbadas das basílicas, representando personagens e passagens bíblicas (ver segunda ilustração à esquerda).

O imperador Teodósio em 395 (séc. IV) dividiu o Império Romano em duas partes: Império Romano do Ocidente (tendo Roma como capital) e Império Romano do Oriente, também conhecido como Império Bizantino (tendo Bizâncio/Constantinopla como capital). Tal divisão mexeu significativamente com a arte dos romanos, fazendo com que as tradições artísticas das duas partes se distanciassem. Houve diminuição da ativada artística no Ocidente em razão das infindáveis guerras que aconteciam nessa parte do império, enquanto no Oriente surgia uma nova ordem artística.

No século VIII houve no seio da Igreja Cristã a chamada “crise iconoclasta” (c. 725 – 843), quando a veneração de imagens de santos foi condenada. Nesse período extremamente triste para a existência da arte, milhares de obras religiosas foram destruídas. Mas como na história da humanidade tudo está fadado a voltas e reviravoltas, sendo a História cíclica e não contínua, mais tarde a arte bizantina notabilizou-se por pinturas murais e ícones, cuja influência ultrapassou os limites do Império Romano. A arte bizantina aconteceu entre os anos de 330 e 1453, ano em que os turcos dominaram a cidade de Bizâncio.

Exercício:

  1. Quais foram os primeiros exemplares da arte cristã no Ocidente?
  2. Qual foi a importância de Bizâncio para os artistas cristãos?
  3. O que é um mosaico?

Ilustração: 1. O Bom Pastor, c. 300 / 2. Imperador Constantino e seu Séquito, c. 547 / 3. Catacumba, Roma / 4. Pães e Peixes Eucarísticos das catacumbas de São Calisto, Roma.

Fonte de pesquisa
A História da Arte / Prof. E. H. Gombrich

6 comentários em “A ARTE CRISTÃ E BIZÂNCIO (Aula nº 17)

  1. Antônio Costa

    Lu

    Essa trajetória histórica da arte é de fato muito interessante. É inevitável não verificar a dependência e domínio aprisionando a criatividade dos artistas nos primeiros tempos do cristianismo. Parece que só após o renascimento houve um verdadeiro despertar para o contraditório, que bem poderia ocorrer naquelas primeiras mentes criativas, de modo a burlar os grandes mandatários religiosos e políticos. Fato é que o preço a pagar era bem mais alto do que hoje, que o diga Galileu tempos após.

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Antônio

      A arte exterioriza sempre a história de uma época quer como adesão a ela, quer como oposição. É realmente no Renascimento, com a valorização do artista, que veremos as coisas começando a mudar. Ainda na Idade Contemporânea paga-se um preço bem alto, a exemplo daquele pastor estadunidense que induziu 900 pessoas ao suicídio, tendo atirado em algumas delas e também de certas religiões que impedem seus membros de fazerem transfusão de sangue e tomar vacinas.

      Abraços,

      Lu

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  2. Marinalva Dias Autor do post

    Lu
    Depois do Imperador Constantino a arte bizantina incorporou características de religiões orientais. Apesar das restrições sofridas, destacaram-se na pintura e na escultura, mas foi no mosaico que se destacaram de forma mais expressiva, sendo os temas quase que predominantemente religiosos. É lamentável a truculência, a rispidez e a ignorância ao destruir as obras de arte religiosas que não se encontravam dentro dos códigos prescritos pela Igreja e o estado romano.

    A arte é a alma de um povo, quando destruída, é parte dessa alma que se vai. A arte bizantina foi um marco naquela época, nas igrejas, representavam passagens bíblicas e na política o busto dos imperadores. Tudo muito bem calculado pela vontade dos mandatários, como acontece até hoje em muitos países.

    Abraços,

    Lu

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Marinalva

      Quanto mais contato a arte tem com diferentes culturas, mais ela se enriquece. A razão da estagnação da arte egípcia aconteceu justamente porque fecharam a porta para as culturas do mundo exterior. Realmente é muito triste a perda que o mundo artístico teve ao destruírem obras artísticas que não se “encaixavam” dentro da visão autoritária e ignorante da Igreja. Como diz um velho ditado, dê poder a alguém e saiba com quem está lidando. O poder subiu à cabeça daquela gente que antes fazia seus cultos até mesmo em catacumbas. Ficou poderosa e achou que poderia de fazer o que bem quisesse. O homem é realmente um animal amedrontador. O mesmo fez Hitler com a chamada “arte degenerada”, quando o degenerado era ele próprio e seus asseclas. E ainda hoje vemos certos homens “ditos religiosos” querendo meter o bedelho no trabalho dos artistas, quando vivemos num país laico.

      Beijos,

      Lu

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  3. Hernando Martins

    Lu

    A partir do momento em que o Império Romano oficializou a religião cristã como titular, provocou mudanças na arte cristã que anteriormente era tímida e bastante limitada, como mostram trabalhos encontrados em tumbas. Não mais havia permissão para os artistas se expressarem como desejavam, podendo ser punidos pela legislação vigente na época. O imperador Constantino foi quem fez essa aliança com a religião cristã, criando possibilidades de trabalho para os artistas apresentarem sua arte, seguindo um padrão determinado pela Igreja, com a finalidade de simbolizar passagens bíblicas para o fortalecimento da fé cristã.

    Constantino também transferiu a capital de Roma para a cidade de Bizâncio, conhecida também como Constantinopla, que foi dominada pelos romanos, após a morte de Alexandre, o Grande. Essa região, situada no Mediterrâneo, era um centro comercial importante, banhado pelo mar Egeu, Mediterrâneo e mar Negro – ponto estratégico de conexão com povos do oriente.

    Foi no período do imperador Teodósio que houve a divisão do Império Romano, firmando o Império do Norte e o Império do Oriente. Nesse período, o Império Romano ficou dividido em dois centros de poder; Roma tornou se a capital ocidental e Bizâncio a capital oriental. Como as guerras e as conquistas estavam bastante ativas no Ocidente, a arte ficou retraída nesse período de turbulências. Em contrapartida, a arte bizantina foi impulsionada em virtude das influências do contexto da época. Os artistas criaram técnicas inovadoras no desenvolvimento de mosaicos, utilizando elementos como pedras, cristais, vidros, conchas, os quais eram utilizados na ornamentação, principalmente dos templos.

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Hernando

      Ainda que fosse apenas a Igreja a ditar as normas relativas à propagação da fé cristã, os artistas não teriam outra saída senão aderir a elas, pois a Igreja era a maior compradora de arte no intuito de adornar seus templos. Um ou outro nobre preocupava-se em adornar seus castelos de pedra, sem encomendar grandes trabalhos aos artistas. Além disso, a Igreja era uma boa compradora, pagando em dia – desde que a encomenda estivesse de acordo com seus preceitos. Quando a encomenda era muito grande, como no caso da ornamentação dos templos, havia até a presença de teólogos para acompanhar o serviço, dizendo o que podia ser feito ou não, ou seja, cerceando a criatividade dos artistas. Em síntese, com a aliança ou não feita por Constantino, os artistas teriam que seguir os ditames da Igreja, se quisessem vender suas obras.

      A eleição de Bizâncio como capital do Império do Oriente foi de grande importância para a arte, pois a diversificou e embelezou-a, uma vez que era um grande centro comercial e cultural, como afirmado por você. Magníficas obras ali foram produzidas, até ser tomada pelos turcos que mudaram totalmente a trajetória da arte daquela região.

      Abraços,

      Lu

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