Arquivo da categoria: Pinacoteca

Pinturas de diferentes gêneros e estilos de vários museus do mundo. Descrição sobre o autor e a tela.

Michelangelo – TONDO DONI

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Esta pintura foi encomendada a Michelangelo, em 1500, por um florentino de nome Agnolo Doni, por ocasião de seu casamento com Madalena Strozzi. O nome da obra, portanto, refere-se ao formato do quadro (tondo: redondo, circular) e ao sobrenome do cliente. A pintura é também conhecida como uma das primeiras obras pictóricas do artista.

Trata-se de uma composição complexa, com cores vibrantes e figuras monumentais. É tida como uma das obras-primas da arte ocidental. Nela não existe nada a lembrar-nos de que se trata de uma arte sacra. O pintor usou a forma piramidal, em vez de triangular, para resolver os problemas da corporalidade e do movimento das figuras, centralizando a Sagrada Família na composição. A obra foi executada como se fosse uma escultura, como se as figuras tivessem sido esculpidas num bloco de mármore.

O tema da obra é a Sagrada Família, que está unida de modo a criar uma composição viva. Em primeiro plano, a Virgem Maria, com os braços nus, levanta seu vigoroso Menino, usando uma torção difícil, para repassá-lo a seu esposo São José, que se mostra bem envelhecido, com suas longas barbas brancas e escassos cabelos, contrastando com a juventude exuberante da Virgem.

Próximo ao muro, entre a Sagrada Família e os nus, está o pequenino João Batista, quase esboçado, com suas vestes de pele de ovelha, segurando um galho seco, como se separasse o mundo pagão do divino, olhando extasiado para a Virgem Maria, São José e o Menino. Sua presença na pintura lembra que ele é o percussor da salvação, que virá através de Jesus Cristo.

Ao fundo está um grupo de cinco nus esculturais, que exibem belos músculos e apresentam luz sobre a superfície do corpo. Alguns críticos interpretam-nos como um grupo de neófitos, já despidos, esperando pelo sacramento do batismo. O fato é que a presença dos nus tem sido interpretada de maneiras diferentes. Para alguns, tratam-se de símbolos pagãos, simbolizando o mundo clássico, antes da chegada do Salvador, enquanto para outros tratam-se de figuras angelicais. Dizem também se tratar de figuras proféticas, anunciando a chegada da Igreja, que é simbolizada pela Virgem Mãe e São José, enquanto o Menino simbolizaria o mundo sob a graça de Deus. E São João Batista simbolizaria a união entre o mundo clássico e o cristão.

A Virgem é a figura mais volumosa da obra. Sua cabeça esta voltada para a direita, em direção ao filho, que brinca despreocupadamente com seus cabelos. São José, agachado, traz o corpo inclinado para a direita, com uma perna dobrada e a outra espichada. Ao longe, podem-se ver montanhas e um rio, possivelmente uma referência ao rio Jordão. O uso das cores vermelha, azul e amarela, matizadas nas zonas de intensa claridade, provocando diferenças tonais, será mais tarde vista nos maravilhosos afrescos da Capela Sistina.

Ficha técnica:
Data: c. 1504 -1506
Técnica: óleo sobre painel
Dimensões: 120 cm de diâmetro
Localização: Galeria dos Uffizi, Florença, Itália

Fontes de pesquisa:
Gênios da Arte/ Girassol
Grandes Mestres da Pintura/ Coleção Folha
Grandes Mestres/ Abril Cultural
Renascimento/ Taschen
Tudo sobre Arte/ Sextante
1000 Obras da Pintura Europeia/ Könemann
Os Pintores mais Influentes/ Girassol
Arte em Detalhes/ Publifolha
Góticos e Renascentistas/ Abril Cultural

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Da Vinci – SÃO JERÔNIMO E SÃO JOÃO BATISTA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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São Jerônimo

Embora Leonardo da Vinci não tenha finalizado a tela de São Jerônimo em todos os seus pormenores, ela impressiona profundamente o observador, pois o artista constrói admiravelmente o corpo do santo, do qual emana uma comovente piedade. Este painel, que foi pintado com um empastamento monocromático em tons de ocre, foi serrado em duas partes, mas não se sabe quando, sendo recuperado no século XIX pelo Cardeal Fesch, tio de Napoleão. Uma das partes foi encontrada num depósito de trastes e a outra, cinco anos depois, numa loja de sapateiro.

São Jerônimo é um homem solitário no deserto, com o rosto descarnado pelo jejum e penitência. Sua cabeça desprovida de cabelos, os olhos encavados, a boca com o formato de uma fenda escura e as faces magérrimas repassam um profundo sofrimento. Apesar da dor, ele apresenta uma fé inabalável, que parece se projetar para além de seus olhos.

O corpo do santo parece se projetar para a frente. O braço direito estendido traz uma pedra na mão. Trata-se do gesto que precede aquele com que o penitente golpeia seu peito. À sua frente, o leão, que domina todo o espaço no primeiro plano, agita a cauda em forma de chicote, enquanto observa o santo, o que deixa claro a amizade existente entre ambos. Ambos estão postados diagonalmente em meio à paisagem constituída de rochas.

Ficha técnica:
Obra: São Jerônimo
Data: c. 1482/1483
Técnica: óleo sobre painel
Dimensões: 103 x 75 cm
Localização: Pinacoteca Vaticana/ Roma

São João Batista

Parte do corpo de São João Batista emerge do fundo escuro. O gesto e o seu sorriso malicioso chamam a atenção para sua figura. Sua beleza é expressiva, embora incerta. Tanto o rosto do santo, ligeiramente direcionado para a direita, quanto sua estrutura física, de onde se desprende uma beleza sensual, quase feminina, repassam uma incontestável androgenia.

A mão direita do santo está direcionada para o alto, o cotovelo situa-se próximo ao busto, fazendo uma ligeira curvatura, que transpõe seu tronco, escondendo parte da mão esquerda, que se encontra recostada a seu peito.

É incrível o talento do artista, ao fazer com que um corpo pareça emergir de uma superfície plana, como se estivesse em alto relevo, resultado obtido com o uso do claro e do escuro na pintura. O santo, embora imerso na escuridão, parece banhado por um foco de luz, com seus cabelos encaracolados e dourados, partidos ao meio, que vão ficando mais escuros à medida que descem por seu corpo.

Embora São João Batista tenha vivido no deserto, tendo seu corpo sofrido os rigores do local, Leonardo pinta-o jovem, cheio de grande beleza. Dentre os seus atributos tradicionais, a cruz de junco é o único a acompanhá-lo.

São João Batista parece surgir da escuridão para se dirigir ao observador. Com a mão esquerda aponta o próprio peito e com a direita, elevada para cima, com o indicador apontando para o alto, sinaliza que o Messias está prestes a chegar. O efeito sfumato (claro/escuro) é usado com intensidade.

Os contemporâneos de Leonardo foram atraídos pelo encanto desta obra. É uma pena que o quadro venha escurecendo com o tempo.

Ficha técnica:
Obra: São João Batista
Data: c. de 1508/1509
Técnica: óleo sobre madeira
Dimensões: 69 x 57 cm
Localização: Museu do Louvre, Paris

Fontes de pesquisa:
Grandes mestres/ Abril Coleções
Enciclopédia dos Museus/ Mirador
Gênios da Arte/ Girassol
Leonardo/ Cosac e Naif

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Da Vinci – MONA LISA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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O seu sorriso era tão agradável que parecia ser divino, em vez de humano; e aqueles que o viram, ficaram espantados ao descobrir que ele parecia tão vivo quanto o original.  (Vasari)

Mona Lisa sorri e, graças a esse gosto, a esse artifício, o artista diz que a máscara agora é viva e que por trás dela há uma mente. (…) E o que gera a impressão de vida é, antes de mais nada, a relação que se estabelece entre a retratada e o espectador — e a representação da reação de um à presença do outro. (John Shearman)

O que de imediato nos impressiona é a medida surpreendente em que a mulher parece viva. (E. H. Gombrich)

Mona Lisa ou La Gioconda é uma das mais famosas obras de Leonardo da Vinci e o mais famoso retrato de toda a história da arte. A pintura levou cerca de quatro anos para ser concluída. Foi iniciada em Florença, passou pela segunda temporada do pintor em Milão e foi levada inacabada com ele para a França, onde permanece até hoje. Ao utilizar uma fórmula aparentemente simples, a unidade expressiva que Leonardo obteve entre a retratada e a paisagem torna seu trabalho um dos mais elogiados do mundo. A harmonia obtida na pintura, especialmente no sorriso da modelo, reflete a unidade entre Natureza e Homem, tão buscada pelo artista em sua filosofia.

Embora não tenham ficado registros sobre a pessoa retratada, é dada como certa que se trata de Lisa del Giocondo, mulher de um comerciante de seda, Francesco del Giocondo. Conforme pesquisas, o retrato foi feito possivelmente quando Lisa estava grávida ou após ter dado à luz. Teoria reforçada pela descoberta de um finíssimo véu negro na cabeça, usado pelas mulheres grávidas do século XVI. Tal descoberta deu-se durante estudos do Centro de Pesquisa e Restauração dos Museus da França e o Conselho Nacional de Pesquisas do Canadá, quando a pintura foi submetida a um estudo com scanners e lasers e puderam projetar uma imagem em 3D, com as várias camadas de pintura utilizadas.

Por sua vez, o historiador Maike Vogt-Lüerssen, depois de ter feito pesquisas sobre o retrato durante 17 anos, chegou à conclusão de que se trata de Isabel de Aragão, Duquesa de Milão. Segundo ele, o padrão do vestido verde escuro de Mona Lisa indica que o modelo é um membro da corte de Visconti-Sforza, onde Leonardo trabalhou como pintor durante 11 anos.

Lillian Schwartz, cientista dos Laboratórios Bell, por sua vez, sugere que a Mona Lisa é, na verdade, um autorretrato de Leonardo, porém, vestido de mulher. Esta teoria baseia-se no estudo da análise digital das características faciais do rosto do pintor italiano e nos traços do modelo. Comparando um autorretrato do pintor com a mulher do quadro, verifica-se que as características dos rostos alinham-se perfeitamente. Essa hipótese ganha ênfase em O Código da Vinci (Dan Brown). Os críticos de arte, porém, acham tal afirmação totalmente desprovida de crédito. Salientam que as similaridades são devidas ao fato de ambos os retratos terem sido pintados pela mesma pessoa, usando o mesmo estilo.

Existem também relatos de que Mona Lisa nada mais é do que o retrato de Gian Giacomo Caprotti de Oreno, de alcunha Salai, que se tornou aluno de Leonardo e com quem supostamente manteve uma longa ligação amorosa. Contudo, Freud, em seu livro, Leonardo da Vinci e uma Memória da sua Infância, fala que o pintor era homossexual, mas que nunca teria agido de conformidade com seus desejos carnais. Os escritos e os livros de notas deixados por Leonardo apontam para a sua luta com a sexualidade. O fato é que Salai manteve-se como companheiro, assistente e serviçal de Leonardo por trinta anos, tendo recebido em testamento a pintura da bela Mona Lisa.

Após a morte de Leonardo não se tem mais certeza dos caminhos tomados por sua obra. Uns dizem que foi reconduzida a Milão, outros que foi vendida por Salai aos tesoureiros do rei da França em 1517. O que se sabe com certeza é que num determinado momento o quadro de La Gioconda foi anexado às coleções reais francesas. Contudo, somente em 1797 o público teve acesso à obra, após ser anexada ao patrimônio do Louvre. No início do século XIX, a pintura saiu de circulação por alguns anos para enfeitar os aposentos da imperatriz Josephine Bonaparte.

O sorriso enigmático de Mona Lisa é visto por alguns como se denotasse crueldade, próprio do sorriso de mulheres que escravizam os homens. Outros, contudo, veem nele grande encantamento e doçura. Atestam alguns que, ao sombrear sutilmente os cantos dos olhos e a boca da mulher, o pintor tornou a natureza exata de seu sorriso indeterminada. Tal sombreado recebe na pintura o nome de sfumato (esfumaçado). As curvas dos cabelos e da roupa também são criadas através do sfumato. Os sorrisos dúbios eram uma característica comum aos retratos feitos na época de Leonardo. Ao contrário dos trajes ostentosos e joias, usados na época, a indumentária de Mona Lisa é extremamente simples, desprovida de adornos. O que faz com que o observador retenha sua atenção nos olhos que parecem nos fitar, onde quer que nos encontremos diante do quadro, e nas mãos da mulher.

Cerca de 400 anos após ser concluído (agosto/1911), o quadro foi roubado, o que motivou a prisão ou o interrogatório de várias pessoas, dentre elas a do poeta francês Guillaume Apollinaire e do pintor espanhol Pablo Picasso. Para tristeza geral, dava-se a obra como perdida. Entretanto, ela reapareceu na Itália. O ladrão era um antigo empregado italiano do museu onde se encontrava a pintura, inconformado com o fato de que o quadro mais famoso do mundo, feito por um conterrâneo seu, ficasse na França e não na Itália. Outro fato triste aconteceu quando um louco jogou ácido sobre a obra, danificando sua parte inferior, sendo necessários vários anos para a sua completa restauração. E em 2009 uma russa, indignada por não receber a cidadania francesa, jogou uma xícara vazia contra o quadro, que acabou se quebrando na proteção de vidro à prova de balas.

A famosa obra de Leonardo da Vinci inspirou muitos artistas, dentre eles o notável Rafael, com o Retrato de Maddalena Doni (1505 -1506). Também determinou um novo padrão para os retratos futuros. O pintor apresenta a modelo numa composição em forma de pirâmide, onde ela fica bem centrada, sendo vista apenas acima do busto, com uma paisagem ao fundo. As mãos superpostas permanecem na base da pirâmide, espelhando a mesma luz que clareia a face, o pescoço e o colo. Um algoritmo de computador desenvolvido na Holanda pela Universidade de Amsterdã, em colaboração com a Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, descreveu o sorriso de Mona Lisa como uma mulher 83% feliz, 9% enjoada, 6% atemorizada e 2% incomodada.

Observação sobre a pintura de Mona Lisa:

  • A posição das mãos do modelo foi muito elogiada ao longo dos anos.
  • O sorriso enigmático deve-se à técnica de deixar os cantos da boca indefinidos, para que o espectador complete as formas com seu olhar.
  • A dama não possuía sobrancelhas e nem cílios, segundo o costume florentino da época. Nesta parte do quadro, percebe-se a técnica do sfumato.
  • A paisagem ao fundo do quadro não tem os dois lados similares. O horizonte direito está mais alto do que o esquerdo.
  • O efeito sutil do sfumato está, particularmente, nas sombras em torno dos olhos.
  • Se comparada à pintura de A Última Ceia, Mona Lisa encontra-se muito bem conservada, sem sinais relevantes de reparos ou pinturas sobrepostas, apesar do tempo em que foi feita. Porém, exames de raios-X indicaram a presença de três versões escondidas sob a atual pintura e já existem sinais de deterioração no revestimento de madeira, muito maior do que o esperado.
  • Leonardo da Vinci retratou Mona Lisa de acordo com sua visão sobre pintura, buscando uma completa harmonia entre a modelo e a natureza. Com a sua grande capacidade de observação, ele chegou à conclusão de que os contornos só serviam ao desenho, pois eles não existem na natureza. E, para eliminá-los, ele esfumaçava as cores, fazendo uma suave fusão entre elas, deixando ao observador a tarefa de delimitá-los com os próprios olhos. Tal técnica pode ser vista, principalmente, no rosto de Mona Lisa.

Curiosidades:

  • Mona Lisa, como o quadro mais famoso do mundo, adquiriu um estatuto de ícone cultural. São numerosas as suas reproduções e utilização na publicidade, objetos do dia a dia e como referência cultural.
  • Em 1919, o dadaísta Marcel Duchamp pintou sobre uma reprodução barata da Mona Lisa um bigode e uma pera, e a inscrição L.H.O.O.Q. (que significa Elle a chaud au cul, algo como Ela tem fogo no rabo, em português)
  • Em 1950 Mona Lisa foi uma balada de Nat King Cole em tributo ao quadro, foi o single mais vendido durante oito semanas, atingindo três milhões de cópias vendidas. A música foi premiada com o Oscar de Melhor Canção numa Banda Sonora.
  • Outras canções sobre o quadro são Mona Lisas and Mad Hatters de Elton John (Honky Chateau, 1972), Mona Lisa de Willie Nelson (Somewhere over the Rainbow, 1981), Mona Lisa de Slick Rick (The Great Adventures of Slick Rick, 1988), A Mona Lisa dos Counting Crows (inédita, 1992) e Mona Lisa de Britney (EP Chaotic, 2006). Em 1953, o cineasta Roberto Rossellini dirigiu o filme La Gioconda.
  • Salvador Dali, o famoso pintor surrealista espanhol, pintou o Autorretrato como Mona Lisa em 1954.
  • Em 1963, Andy Warhol lançou uma série de serigrafias a cores da Mona Lisa, afirmando o seu estatuto de ícone, ao lado de Marilyn Monroe ou de Elvis Presley.
  • O Sorriso de Mona Lisa (2003) é um filme que explora os ideais feministas.
  • A pintura detém um papel central no livro best-seller O Código da Vinci de Dan Brown (2003).
  • O cantor e compositor de música popular brasileira Jorge Vercillo compôs e gravou em 2004 uma canção chamada “Mona Lisa“.
  • É muito popular no Brasil uma representação da Mônica (principal personagem da  Turma da Mônica) igual a Mona Lisa.

Ficha técnica:
Ano: 1503/1506
Técnica: pintura a óleo sobre madeira de álamo
Dimensões: 77 x 53 cm
Localização: Museu do Louvre, Paris, França

 Fontes de pesquisa:
1000 Obras Primas da Pintura Europeia
Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
Grandes Mestres/ Abril Coleções
A História da Arte/ E. H. Gombrich

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Vermeer – A LEITEIRA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A Leiteira, obra do pintor holandês Jan Vermeer, é tida como uma das mais importantes obras-primas de todos os tempos. A personagem vista na composição é uma jovem e vigorosa camponesa, extremamente concentrada em seus afazeres. O ambiente em torno dela é muito simples: paredes pintadas, mas já descoradas e descascadas pelo tempo, janela com o vidro quebrado e vários objetos comuns, mas que de forma alguma tiram a concepção de ordem, tendo por objetivo mostrar a ampla gama de cores, texturas e contrastes da composição. A pintura já ousada por retratar uma empregada doméstica à época, ainda apresenta muito detalhamento.

A janela rústica deixa entrar um pequeno foco direto de luz, através de um dos pequenos painéis de vidro que se encontra quebrado. A luz incide sobre o caixilho à direita. A claridade que entra através dela é a única fonte de luz a iluminar o ambiente. Na mesma parede, onde a janela encontra-se, podem ser vistos um quadro negro de ébano, uma cesta de vime para guardar pão e um balde de bronze com uma longa alça. Tais objetos encaminham o olhar do observador para o centro temático da pintura, representado pelo leite que é derramado no recipiente de barro. O leite é o ponto focal da composição, assim como é o ponto de concentração da mulher.

Na mesa coberta com uma simples toalha verde estão o pão, o jarro e a bacia que também chamam a atenção para o foco da pintura. O pão que se encontra na cesta parece bem real, se visto de longe. Ali, pequenos pontos na pintura dão a sensação de que há centelhas de luz no pão e na borda do jarro. De perto podemos ver com clareza os “pointillés” (pequenos pontos feitos com tinta opaca grossa) do pintor. O pano azul que se encontra sobre a mesa é parte do avental azul-escuro da camponesa.

A mulher — com o rosto virado para baixo e antebraços expostos — veste inúmeras camadas de roupa para proteger-se do rigor do inverno. Usa uma touca branca que cai até os ombros; um colete de couro camurça amarelo, trançado na frente; mangas azuis e verdes que parecem compor o colete, mas que na verdade não fazem parte dele, pois são usadas separadamente; uma pesada saia vermelha feita de lã; um avental azul que desce da cintura, sendo que parte dele descansa sobre a mesa. Sua figura, esculpida por meio de sombreamento, repassa a impressão de que ela é quase tridimensional.

Acima da cabeça da leiteira — na parede atrás dela — vê-se um prego fincado onde, possivelmente, deveria haver algo dependurado, mais uma prova da meticulosidade do pintor. Uma fileira de azulejos decorados dá terminação à parede na sua parte inferior, a fim de proteger o rodapé. Bem próximo, vê-se um escalda-pés, tão comum à época, cuja finalidade era esquentar as partes inferiores do corpo durante o inverno rigoroso, sendo visto como um símbolo do amor e da gentileza.

A serenidade vista no rosto da mulher, ao executar seu trabalho, traz a impressão de que ele é costumeiro. A extrema simplicidade do lugar e a calma que nele se encontra dão vida a tudo que ali está representado. Infelizmente nem tudo pode ser captado através da reprodução do quadro, como o brilho e a profundidade do avental azul, pintado com uma camada transparente de ultramar (pigmento extraído do lápis-lazúli).

Vermeer gostava de retratar mulheres em interiores, ficando conhecido pela maestria na observação do cotidiano. Nenhum detalhe escapava-lhe. O prego visto na parede faz jus à observação feita ao artista, pois de tão detalhista a obra A Leiteira traz a impressão de que a cena foi retratada com fidelidade, através da observação direta do pintor.

Ficha técnica:
Ano: 1658
Técnica: Óleo sobre tela
Tamanho: 45,5cm x 41cm
Localização: Rijksmuseum, Amsterdã, Holanda

Fontes de pesquisa:
A história da arte/ E.H. Gombrich
1000 obras-primas/ Könemann
História da arte ocidental/ Edit. Redeel
http://www.essentialvermeer.com/catalogue/milkmaid.html

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Vermeer – MULHER DE AZUL LENDO UMA CARTA

Autoria de Lu Dias Carvalhogoyan1

Descobrimos, graças aos exames científicos, que em todas as áreas azuis Vermeer usou uma base verde-acobreada, rara na pintura do século 17, porque demora a secar. É devido a ela que o azul se revela tão luminoso e profundo. (Ige Verslype, restauradora)

Mais uma vez o pintor Jan Vermeer mostra a sua genialidade. Dentre as suas poucas obras sobreviventes, cerca de 35, embora haja suposições de que ele tenha produzido mais ou menos 60 obras, está a Mulher de Azul Lendo uma Carta, também conhecida por Senhora Lendo uma Carta, que, depois de A Leiteira, é uma das telas mais importantes e mais buscadas do Museu Rijkmuseum, de Amsterdã.

Em 2010, esta pintura passou por uma restauração, que trouxe de volta a beleza de suas cores originais, antes de dar um giro pelo mundo. É possível encontrar o perfeccionismo dos detalhes, qualidade de Vermeer, nos pequenos pregos vistos na lateral da cadeira.

A mulher, aparentemente grávida, encontra-se em meio à mobília, de pé e com a cabeça baixa, direcionada para a carta que segura nas mãos. Pela luz refletida, percebe-se que se trata da parte da manhã. Ela parece tensa na leitura, ansiosa pelo conteúdo da missiva. Usa uma espécie de camisão azul ultramarino, pigmento feito de uma rocha de nome lápis-lazúli. Um grande mapa da Holanda toma parte da parede à sua direita.

Vermeer usava em suas telas pigmentos de boa qualidade, o que conferia às suas obras uma identidade especial, como se seus personagens tivessem vida própria e uma leveza, que dá ao observador a impressão de que eles se encontram flutuando na tela. É possível que a modelo seja a própria esposa do pintor, que à época encontrava-se grávida. E embora se trate de um tema doméstico, Vermeer transformou-o numa imagem inesquecível.

Técnica
Ano: c. 1662-1663
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 46,5 x 39 cm
Localização: Rijksmuseum Amsterdam, Holanda

Fontes de pesquisa
Jan Vermeer/ Editora Taschen
Enciclopédia dos Museus/ Mirador
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann

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Fra Angelico – SÃO NICOLAU DE BARI

Autoria de Lu Dias Carvalho

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O retábulo acima foi encomendado ao monge Fra Angelico, em 1437, pelo comerciante Cosimo de Medici, o mais influente de Florença. Quando o retábulo foi pintado, embora não se encontrasse entre os santos inclusos na Bíblia, São Nicolau gozava de grande popularidade entre o povo, tendo sua fama se iniciado no Império Bizantino. Eram-lhe atribuídos vários milagres e atos piedosos. Sua notoriedade era tamanha que até o ano de 1500, mais de 2000 monumentos foram erguidos em sua honra apenas na França, Holanda e Alemanha. Mas, embora gozasse de tanta devoção, jamais foi oficialmente canonizado.

São Nicolau é patrono dos comerciantes e dos marinheiros, como se apresenta na composição acima. E o dia 6 de dezembro é dedicado a ele. É interessante notar que antes mesmo do espalhamento do Cristianismo, as tempestades de inverno no mar Mediterrâneo, que se iniciavam nessa mesma época do ano, já traziam muito medo aos navegantes que se valiam de forças sobrenaturais para vencer o medo. Era extremamente perigoso para aqueles que se aventuravam a navegar por ali. Na Antiguidade, pedia-se proteção a Poseidon e a Netuno, mas, com a chegada do Cristianismo, S. Nicolau tomou o lugar dos deuses pagãos. O que não se podia era ficar sem proteção, tamanho eram os perigos que aguardavam os navegadores.

Na composição em evidência, S. Nicolau é apresentado duas vezes, sendo uma no céu, protegendo e guiando os sobreviventes de uma embarcação que singra entre águas revoltas e escuras, e na terra, onde se encontra à direita, com um manto verde e uma auréola que o distingue dos demais personagens. Aqui, ele agradece ao capitão que doou um pouco de seus grãos. Na verdade, trata-se de dois milagres (ou lendas) atribuídos ao santo.

À esquerda do retábulo, Fra Angelico ilustrou a lenda que fala da salvação dos marinheiros pelo santo, assim que foi invocado. O navio encontrava-se à deriva, perdido em meio às águas revoltas, sendo impulsionado em direção a uma encosta rochosa, enquanto um monstro marinho emerge a cabeça das águas turbulentas. S. Nicolau fez com que o vento soprasse e empurrasse a vela à ré, afastando a embarcação dos rochedos.

À direita do retábulo, o monge pintor ilustra a lenda que fala que o santo se dirigiu ao porto para pedir aos marinheiros que lhe dessem 100 medidas de trigo de cada navio, para alimentar a população que morria de fome. Os marinheiros recusaram, dizendo: “Padre, nós não ousaríamos fazê-lo, pois o grão foi medido em Alexandria e nós devemos entregá-lo nos celeiros reais.” Ao que o santo retrucou: “Façam o que eu lhes digo e eu juro pelo poder de Deus de que não haveis de sofrer nenhuma perda perante o medidor do imperador.” Assim aconteceu, além de S. Nicolau ter multiplicado os grãos que ganhara, sendo suficiente para alimentar a população de Myra por dois anos, e ainda doou sementes usadas para semear.

A composição presta uma homenagem ao santo, à navegação e ao comércio. Navios e mercadores ocupam um grande espaço no quadro.

S. Nicolau e o capitão, postados frente a frente, possuem a mesma estatura. As figuras são detalhadamente trabalhadas, enquanto as montanhas e as casas são bem simplificadas.

Cosimo de Medice provavelmente encontra-se no grupo dos homens, que oram ajoelhados dentro da embarcação, na primeira lenda, pois ele sempre se vestia com uma túnica vermelha simples e chapéu preto.

Ao retratar as duas lendas, Fra Angelico separa os dois cenários com uma cordilheira, mas a união do céu e mar traz ao observador a impressão de que as duas cenas acontecem ao mesmo tempo. Na Idade Média era muito comum representar vários episódios numa mesma pintura. O essencial era a mensagem a ser transmitida, de modo que o lugar e o tempo não tinham importância.

São Nicolau de Mira, também conhecido como São Nicolau de Bari, é o santo padroeiro da Rússia, da Grécia e da Noruega. É o patrono dos guardas noturnos na Armênia e dos coroinhas na cidade de Bari, na Itália, onde estariam sepultados seus restos. É também o patrono das crianças, padroeiro dos mercadores, comerciantes principalmente de milho e trigo, carregadores, moleiros, padeiros, e cervejeiros.

Sobre São Nicolau, bispo de Mira (Lícia) no século IV, existem um grande número de relatos e histórias, mas é difícil distinguir as autênticas das abundantes lendas que germinaram sobre este santo muito popular, cuja imagem foi tardiamente relacionada e transformada no ícone do Natal chamado de Papai Noel. É chamado de Santa Claus ou St. Nicholas na maior parte dos países da língua anglófona.

Curiosidade:
Retábulo – escultura, entalhe ou obra de pintura que adornava o altar de uma igreja, durante a Idade Média. Os primeiros eram adornados com figuras esculpidas ou com ouro e só mais tarde é que as pinturas se tornaram um lugar-comum. Os retábulos pintados podiam consistir numa só pintura ou em vários painéis. Muitas vezes erguiam-se atrás do próprio altar ou estavam montados ao fundo do altar.

Ficha técnica
Artista: Fra Angelico
Ano: 1437
Dimensões: 34 x 60 cm
Localização: Pinacoteca Vaticana

Fontes de pesquisa
Los secretos de las obras de arte/ Taschen
Wikipédia
1000 obras-primas da pintua europeia/ Könemann

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