HIPÁTIA – 1.ª MULHER INTELECTUAL DA HISTÓRIA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Havia em Alexandria uma mulher chamada Hipátia, filha do filósofo Theon, que fez tantas realizações em literatura e ciência que ultrapassou todos os filósofos de seu tempo. Tendo progredido na escola de Platão e Plotino, ela explicava os princípios da filosofia a quem a ouvisse, e muitos vinham de longe para receber seus ensinamentos. Com um grande autocontrole e descontração, que obteve como consequência do cultivo da sua mente, não raras vezes aparecia em público, na presença dos magistrados. Nem se coibia de comparecer numa assembleia de homens. Pois todos os homens a admiravam ainda mais devido à sua extraordinária dignidade e virtude. (Sócrates)

Vestida com o manto dos filósofos, abrindo caminho no meio da cidade, explicava publicamente os escritos de Platão e de Aristóteles, ou de qualquer filósofo, a todos os que a quisessem ouvi-la… Os magistrados costumavam consultá-la em primeiro lugar, para administração dos assuntos da cidade. (Hesíquio)

Hipátia distinguiu-se na matemática, na astronomia, na física e foi ainda responsável pela escola de filosofia neoplatônica – uma extraordinária diversificação de atividades para qualquer pessoa daquela época. Nasceu em Alexandria em 370. Numa época em que as mulheres tinham poucas oportunidades e eram tratadas como objetos, Hipátia moveu-se livremente e sem problemas nos domínios que pertenciam tradicionalmente aos homens. Segundo todos os testemunhos, ela era de grande beleza. Tinha muitos pretendentes, mas rejeitou todas as propostas de casamento. A Alexandria do tempo de Hipátia – então desde há muito sob o domínio romano – era uma cidade onde se vivia sob grande pressão. A escravidão tinha retirado à civilização clássica a sua vitalidade, a Igreja Cristã consolidava-se e tentava dominar a influência e a cultura pagãs.”(Carlos Sagan, em Cosmos)

Ao analisar a magistral composição de Rafael Sanzio, A Escola de Atenas, o Prof. Pierre Santos assinala que Hipátia foi a primeira mulher intelectual registrada pela História. Pela análise do quadro, onde se encontram as cabeças mais celebradas da época, causa espanto a presença de uma mulher. E, para que ela ali se encontrasse, deve ter sido de fato um grande expoente do saber, a ponto de passar pelo filtro do machismo em vigor, cujos resquícios ainda predominam nos nossos dias. Portanto, nada como fazer uma homenagem a essa grande mulher, que viveu num passado tão longínquo.

Hipátia (ou Hipácia), matemática e filósofa neoplatônica, e também versada em religião, astronomia e artes, viveu em Alexandria, no Egito, entre os anos 355 e 415, época da dominação romana. Mais tarde tornou-se professora e, posteriormente, diretora da Academia de Alexandria. Vinha de uma família culta, tendo por pai Theon, um famoso filósofo, matemático e astrônomo que foi professor e diretor do Museu de Alexandria. O pai tinha uma grande paixão por ela, repassando-lhe as mais diferentes formas de conhecimento, além de despertar na filha a busca pelo saber, sem jamais aceitar respostas prontas. Era também submetida a uma rígida disciplina, com o intuito de alcançar o ideal helênico que se traduzia numa mente sã em um corpo são. Juntamente com o pai, ela escreveu um tratado sobre o professor e matemático Euclides.

Hipátia fez opção por não se casar. E, se lhe perguntavam por que não contraíra matrimônio, ela respondia que seu compromisso era com a verdade. Sua fama era tamanha que vários matemáticos buscavam-na para ajudá-los na solução de problemas complexos, pois ela era obcecada pela demonstração lógica. E, embora vivesse num ambiente em que predominava o cristianismo, Hipátia não se deixou sensibilizar por esse, continuando pagã. A sua não aceitação da religião cristã foi tida por muito tempo, como a causa que levou a seu assassinato. Porém, estudos mais recentes atestam que a causa foi política, ou seja, ela fazia parte da luta pelo domínio de Alexandria. Assim, Sócrates, o Escolástico, relata a sua morte:

Numa tarde de março de 415, quando regressava do Museu, Hipátia foi atacada, em plena rua, por uma turba de cristãos enfurecidos. Ela foi arrastada pelas ruas da cidade até uma igreja, onde foi cruelmente torturada até a morte. Depois de morta, o corpo foi lançado a uma fogueira. A sua morte foi um crime político provocado por conflitos persistentes que se faziam sentir em Alexandria. (Maria Dzielska, em Hipátia de Alexandria)

“Meu coração deseja a presença de vosso divino espírito que mais do que tudo poderia adoçar minha amarga sorte. Oh minha mãe, minha irmã, mestre e benfeitora minha! Minha alma está triste. Mata-me a lembrança de meus filhos perdidos… Quando receber notícias tuas e souber, como espero que estás mais feliz do que eu, aliviar-se-ão pelo menos a metade de minhas dores”. (Trecho de uma carta de Sinésio de Cirene, aluno de Hipátia)

Curiosidade:
Ágora trata-se de um filme espanhol, dirigido pelo cineasta Alejandro Amenábar, lançado na Espanha em 2009, relatando a vida da filósofa Hipátia. O diretor apresenta no filme uma licença romântica, criando um romance entre a personagem principal e um de seus escravos, Davus. Trata também das lutas acirradas entre cristãos, judeus e a cultura greco-romana. É interessante notar no filme o tratamento dado à mulher naquela época.

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MULHER – A BESTA DE CARGA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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O aparecimento do patriarcalismo foi um golpe quase que fatal na vida da mulher. Ela assumiu a posição legal de escrava, juntamente com seus filhos. Passou a ser a besta de carga de direito e de fato.

Para se casar, a mulher era levada à feira como escrava, pelo pai, que gozava do direito de dispor de suas mulheres e filhas como quisesse: vender, trocar, presentear, matar, etc. A vítima passivamente deixava-se ser examinada por dezenas de mãos, como se fosse uma égua à venda. Seus dentes eram olhados, a grossura das pernas, a força dos braços, as ancas, e etc e tal. Uma vez comprada, ela passava a fazer parte da herança do marido, de modo que, quando esse morria, caía no ninho de aranha da família dele, como se fosse um objeto. Isso quando não era estrangulada e em seguida “piedosa e santamente” consumida com o esposo morto, ou obrigada a matar-se, em nome do falecido, para servi-lo em outro mundo.

O macho exercitava o sexo fora de casa, mas a besta de carga tinha que permanecer na mais estrita castidade antes do casamento e fidelíssima depois dele. Nascia assim, a moral na sua duplicidade, de acordo com o gênero em questão. Vejamos alguns exemplos:

  • Na velha Rússia, quando uma filha se casava, o pai batia nela levemente de chicote, e depois a entregava ao marido, como uma transmissão de poder.
  • Nas ilhas Fiji, o preço de uma mulher era o valor de um mosquete.
  • Em certas tribos, o marido dormia separado da mulher, porque seu bafo enfraquecia o homem.
  • Na Nova Caledônia, a mulher dormia num cômodo feito do lado de fora da casa.
  • Em alguns lugares, as mulheres não tinham acesso aos templos, mas os cães sim.
  • Quanto mais mulheres um homem tivesse, mais tranquilo estava em relação a seu futuro, pois tinha quem trabalhasse por ele.
  • Em algumas tribos da Índia, a mulher era nivelada aos animais domésticos nos casos de herança.
  • No continente africano, as mulheres só diferiam dos escravos quando davam prazer ao homem ou satisfação econômica.

O casamento, na verdade, começou como forma de lei de propriedade, parte do instinto da escravidão.

  • Muitas mães matavam as suas filhas, com medo de que viessem a sofrer tanto quanto elas. Ainda vemos isso, nos dias de hoje, em certas culturas.
  • Qualquer deslize por parte da mulher era severamente punido pelo macho.
  • Ao barão feudal cabia deflorar a noiva de cada um de seus servos, bem antes que ela fosse tocada pelo futuro noivo, numa prova de consideração.
  • Após uma temporada trabalhando a serviço do pai da moça, o pretendente tinha permissão para levá-la para o seu clã.
  • Os eslavos da Rússia, até o século passado, ainda praticavam o casamento por captura.
  • Com o crescimento da riqueza, o noivo passou a oferecer ao patriarca um presente, ou uma quantia em dinheiro, em troca de sua filha, enquanto em outras culturas, o dote era responsabilidade da família da mulher. Ainda é comum, em diversas culturas, a existência do famigerado dote.

Nota: Imagem copiada de http://amarjunqueira.blogspot.com.br

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A LEI MARIA DA PENHA

 Autoria de Lu Dias Carvalho Penha

A Lei Maria da Penha foi um passo importante para enfrentar violência contra mulheres. (juíza Andréia Pachá)

Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de Execução Penal; e dá outras providências. (Introdução da Lei 11.340)

Lei é lei. Da mesma forma que decisão judicial não se discute e se cumpre, essa lei é para que a gente levante um estandarte dizendo: Cumpra-se! A Lei Maria da Penha é para ser cumprida. Ela não é uma lei que responde por crimes de menor potencial ofensivo. Não é uma lei que se restringe a uma agressão física. Ela é muito mais abrangente e por isso, hoje, vemos que vários tipos de violência são denunciados e as respostas da Justiça têm sido mais ágeis. (relatora da lei Jandira Feghali)

 A Lei Maria da Penha, assim conhecida popularmente, foi sancionada em agosto de 2006 pelo presidente em exercício na ocasião, Luiz Inácio Lula da Silva, entrando em vigor em setembro do mesmo ano. Entre os muitos pontos abordados pela nova lei vale destacar o seu endurecimento em relação às punições àqueles que agridem mulheres no âmbito doméstico ou familiar.

 Até então, os crimes de violência doméstica ficavam restritos apenas aos juizados especiais criminais, responsáveis por julgar crimes de menor potencial ofensivo, sendo os processos, na maioria das vezes, arquivados sem nenhum castigo ao agressor, banalizando assim a violência cometida contra mulheres. Hoje, com a nova lei, tais crimes saíram da competência de tais juizados, alterando o Código Penal Brasileiro. Portanto, acabaram-se as penas alternativas. Quando a agressão a mulheres acontece no âmbito doméstico ou familiar, o agressor pode ser preso em flagrante e ter sua prisão preventiva decretada. Ele também pode ter que deixar o domicílio e ser proibido de se aproximar da vítima.

 A cearense Maria da Penha Maia Fernandes, biofarmacêutica, que foi casada com o professor colombiano Marco Antonio Heredia Viveros, era espancada brutalmente pelo marido, durante os terríveis seis anos em que viveram juntos, tendo sofrido duas tentativas de assassinato, foi homenageada com o nome dado à lei 11.340, pois foi ela, com sua árdua luta, quem muito contribuiu para que se protegesse as mulheres contra as agressões de seus companheiros.

 O ciúme doentio do marido de Maria da Penha levou-o a tentar matar a esposa em dois momentos. Na primeira vez, o agressor atirou nela, enquanto dormia, simulando um assalto, ocasião em que ficou paraplégica em razão do tiro nas costas. Na segunda, tentou matá-la através da eletrocussão e afogamento, empurrando-a da cadeira de rodas para o chuveiro. Depois dessa segunda tentativa de morte, Maria da Penha reuniu coragem e denunciou Marco Antonio Heradia à justiça.

 Após sua longa luta para que seu ex-marido fosse condenado, tendo seu drama chegado à Comissão Interamericana dos Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), através da ajuda recebida de ONGs, que o acatou como sendo um crime de violência doméstica, ela viu sua batalha surtir efeito quando, quase 20 anos depois, Marco Antonio Heredia foi condenado a oito anos de prisão. Infelizmente, cumpriu apenas dois anos de pena, em razão dos muitos recursos jurídicos que beneficiam os réus neste país, deixando revoltada sua vítima e as mulheres do país.

 O Brasil também foi condenado pela OEA por sua negligência e omissão relativas à violência doméstica. Foi recomendado a criar uma legislação que combatasse tal tipo de violência contra as mulheres, o que o fez.

Atualmente Maria da Penha é coordenadora da Associação de Estudos, Pesquisas e Publicações da Associação de Parentes e Amigos de Vítimas de Violência (APAVV), no Ceará, liderando movimentos de defesa dos direitos das mulheres.

Cresce cada vez mais no país o número de denúncia de crimes contra mulheres, no âmbito familiar e doméstico. Pesquisas mostram que os Estados em que as mulheres possuem melhor instrução, lideram o ranking das denúncias. Confiantes, a maioria delas não se deixa levar pelo medo e pela chantagem.

Não poderia deixar de fazer a minha homenagem a Maria da Penha Maia Fernandes, a semente que deu vida a esta lei e as muitas mulheres que continuam nesta batalha.

Atenção:
Denúncia   (É importante fazer o BO)
Núcleo de Violência Doméstica (NVD)
e-mail: www.disquedenuncia.org.br

 Fontes de pesquisa:
Wikipédia
http://www.observe.ufba.br/lei_mariadapenha

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OS SINOS NOS TEMPOS DE QUARESMA

Autoria de Luiz Cruz

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Quaresma é a designação do período de quarenta dias que antecede a principal celebração do cristianismo – a Páscoa, que começa na quarta-feira de Cinzas e termina no domingo de Ramos, anterior ao domingo de Páscoa. Para os cristãos, trata-se do período para refletir sobre o tempo que Jesus passou no deserto e o seu sofrimento na Cruz. O tempo quaresmal tem história muito antiga. No Oriente encontramos os primeiros sinais de um tempo pré-pascal, com a preparação espiritual à celebração do grande mistério da fé, através das “Cartas Pascais” de Santo Atanásio, entre os anos de 330 e 347. No ocidente, há informações sobre o período a partir do século IV, especialmente na Espanha e na Itália. A Quarema, segundo os cristãos, é o período para se preparar, através da reflexão e introspecção das ações e atitudes diante do próximo e do mundo e, enfim, chegar à Páscoa como um marco de renovação e libertação.

Os sinos são instrumentos que compõem o universo litúrgico do cristianismo. São utilizados para anunciar as celebrações e, especialmente na Quaresma, lembrar-nos dos dias que Cristo passou se habilitando para momentos difíceis, de dor e sofrimento, mas que resultaram na renovação – a ressureição. Em Tiradentes, durante a Quaresma, nos dias de Via-Sacra e das tradicionais festas que antecedem a Semana Santa, os toques de sinos são significativos e expressivos. Os dobrados são lentos, cadenciados, marcantes e remetem-nos aos diversos momentos da Paixão de Cristo.

Toque Dobre da Festa do Senhor Bom Jesus dos Passos
Dobre apenas do sino grande, girando-o em torno de seu eixo – 360º, na média de 10 a 15 minutos, às 12, 15 e 18 h, deixando-o descair. Esse dobre produz sons cadenciados, lentos, dolorosos e marcantes. É executado na Festa de Passos, que acontece desde 1722 e promovida pela Venerável Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos. Ele é tocado na Matriz de Santo Antônio, à saída da imagem de Nosso Senhor, fechado em velário roxo, para a Capela de Nossa Senhora das Mercês, que o recebe com o mesmo toque. Há um diálogo entre os sinos, o da Matriz chama e o das Mercês responde. É executado também na Capela de São João Evangelista, quando daí parte a imagem de Nossa Senhora das Dores para compor a procissão do Encontro. O dobre fúnebre é repetido durante a Rasoura dos Passos, pequena procissão de Nosso Senhor em torno da Capela de Nossa Senhora das Mercês, às 10h, após a realização da Missa Solene, e também na saída e chegada da Procissão do Encontro de Cristo e Nossa Senhora. A cerimônia do Encontro é realizada na Rua Direita, em frente à Capela de Nossa Senhora do Rosário e após o Sermão do Encontro, o sino da capela é dobrado.

Toque Dobre da Festa de Nossa Senhora das Dores
O sino grande é dobrado em seu eixo – 360º. O sino da Capela de São João Evangelista chama e é respondido pelo sino grande das Mercês, nos horários de 12, 15 e 18h, ao final do dobre, deixa o sino descair. É executado na Capela de São João Evangelista, onde se realiza o Setenário das Dores.

Toque Dobre de Via-Sacra
O sino grande é levado a pino e dobrado em seu eixo – 360º, lento e doloroso. É executado à saída e chegada da Via-Sacra, geralmente das capelas de São João Evangelista, Rosário, Mercês e Bom Jesus da Pobreza, nos horários de 12, 15 e 18h. A Via-Sacra é promovida pela Irmandade dos Passos.

Toque da Semana Santa
Repique festivo na saída e na chegada da Procissão de Ramos dá início à Semana Santa. O dobre doloroso é executado nos sinos da Matriz, Rosário e Mercês, às 12, 15 e 18h, descaindo ao final da sequência durante segunda, terça e quarta-feira Santas. Na sexta-feira da Paixão, o sino é substituído pelas matracas, que acompanham a Cerimônia de Adoração da Cruz e a Procissão do Enterro. Os sinos voltam a ser tocados no Sábado de Aleluia. No domingo de Passos, eles são repicados para a Procissão da Ressurreição de Cristo.

Os toques de sinos precisam ser executados conforme a tradição e respeitados como elementos litúrgicos, assim, serão devidamente protegidos e conservados, tanto os toques quanto os próprios sinos. Além de fazerem parte de uma arte que  vem se perpetuando através dos tempos e assim deve continuar.

Nota: Henrique Rohrmann dobrando o sino da Matriz de Santo Antônio. Fotografia: LC

Referência
CRUZ, Luiz Antonio da. e BOAVENTURA, Maria José. Manual de Técnicas e Manutenção de Patrimônio. Tiradentes: IHGT, 2016.

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Petrus Christus – RETRATO DE UMA JOVEM DAMA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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O pintor flamengo Petrus Christus (c. 1415 – 1420) que hoje é visto como o sucessor de Jan van Eyck que foi possivelmente seu mestre.  Após a morte de van Eyck ele ficou incumbido de terminar as obras desse, trabalhando na oficina do mestre.  Ele perdurou durou muito tempo no esquecimento, mas atualmente tornou-se famoso, sobretudo, pelo modo como trabalhou a perspectiva.  É tido como um dos primeiros grandes pintores dos Países Baixos a fazer uso do retratado em frente a um espaço interior possível de ser identificado.

A composição denominada Retrato de uma Jovem Dama é uma obra do artista muito comentada por seu fino acabamento. Trata-se de pintura obra que trouxe avanços no estilo do pintor e também para a pintura holandesa de retratos.

A jovem é representada graciosamente dentro de um pequeno espaço retangular, à frente de uma parede apainelada (parecida com um painel). Ela possui um rosto oval e uma testa alongada, possui olhos com traços asiáticos e sua pele é pálida. Seu olhar intrigante é proveniente de seus olhos em desalinho e sobrancelhas um pouco inclinadas. Sua boca é altiva. Ela olha obliquamente para o observador e, embora pareça tímida, mostra-se confiante. Veste trajes ricos, típicos da moda da época. A gola branca de sua roupa forma um triângulo invertido. Seu cabelo está cuidadosamente embutido dentro de um chapéu preto, preso por um laço que lhe contorna o pescoço fino, onde se destaca um belíssimo colar com três voltas, feito em ouro e pérolas.

O quadro é dividido ao meio pelas linhas horizontais dos lambris vistos parede castanho-escura no que parece ser um quarto.  A retratada já não se encontra diante de um fundo impessoal – como acontecia anteriormente. O alongamento de seu tronco e cabeça é reforçado por seu chapéu cilíndrico  e pela gola de arminho em V. Nesta obra podem ser observadas influências dos pintores Jan van Eyck e Rogier van der Weyden. Infelizmente, a obra apresenta inúmeras rachaduras.

Ficha técnica:
Ano: c. 1465- 1470
Técnica: pintura á óleo
Dimensões: 29 x 22,5 cm
Localização: Gemäldegalerie, Berlim, Alemanha

Fontes de pesquisa
Gótico/ Taschen
1000 obras-primas da pintura europeia/ Editora Könemann
https://en.wikipedia.org/wiki/Portrait_of_a_Young_Girl_(Christus)

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Petrus Christus – O OURIVES

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Na sua composição denominada O Ourives ou também O Ourives em sua Oficina o artista faz uso de um espaço bem pequeno, onde consegue botar em harmonia três figuras e ainda duas outras pintadas num espelho convexo, juntamente com três casas. Este quadro foi encomendado pela guilda dos ourives de Bruges para sua capela. Especulou-se em 1817 que a figura principal da composição — o ourives — representava Santo Eloi — padroeiro dos ourives — o que resultou na inserção, por meio de pintura, de um halo de santidade à figura. Porém, no fim do século XX identificou-se a figura como sendo  uma representação realista ou um retrato de um ourives real de Bruges, pertencente ao século XV.

O espelho visto na mesa do ourives repassa a impressão de que capturou a imagem de dois homens que trafegam pela rua e, curiosos, olham para o interior da oficina. À época, as leis das corporações dos ourives exigiam que as oficinas que trabalhavam com metais preciosos permanecessem abertas, a fim de mostrar aos compradores que esses eram legítimos. Presume-se que o retrato do homem com o falcão, presente no espelho, seja o do próprio pintor.

Na pintura o ourives — com uma pequena balança na mão esquerda — está atendendo a um rico casal. Enquanto ele pesa o anel, o homem e a mulher observam-no com atenção. Mas ao invés de prestar atenção no seu trabalho, o ourives olha para o alto, o que levou a presumir-se que se tratava da representação de Santo Eloi, o padroeiro dos ourives que antes havia também trabalhado como ferreiro.

Atrás do ourives, na prateleira mais baixa, encontram-se mostruários com anéis, colares, broches e pérolas, assim como um recipiente feito com ouro e cristal, tendo um pequeno pássaro em cima da tampa que provavelmente servia para guardar a Hóstia Sagrada. Próxima à cortina vê-se uma taça feita com casca de coco. Há um “galho” de coral, encostado à parede, além de duas pedras conhecidas como “pedras de toque”. Acima estão três jarras de prata e uma fivela de ouro e pedras. Há também um rosário feito de âmbar.

Na pintura o ourives está pesando o anel de casamento para o os dois jovens, conforme evidencia o cinto nupcial sobre o balcão, à direita do santo (?), artigo muito lucrativo para os ourives daquele tempo. O casal encontra-se suntuosamente vestido em conformidade com a moda da época, portanto, provinha de famílias ricas, possivelmente ligadas à corte do duque de Borgonha.

A mulher usa um belo vestido de cintura alta, feito com brocado, trazendo motivos em granada. A parte dourada de seu chapéu é bordada com pérolas. Sua mão esquerda está estendida em direção ao santo (?), como se quisesse pegar o anel. O homem também se encontra elegantemente vestido, usando um chapéu preto onde se encontra uma joia. Traz uma grossa corrente de ouro no peito. À época era muito comum o uso de joias pelos homens.

Causa surpresa o fato de haver uma inscrição em latim na borda inferior da pintura, onde o artista deixa assinalado seu nome e a data em que o trabalho foi feito, levando em conta que naquela época os artistas eram praticamente anônimos e não se atinham a tais preocupações. O desenho do coração, próximo à assinatura, pode levar à conclusão de que Petrus Christus era também ourives, pois se trata de um sinal usado pelos miniaturistas e ourives.

Não se conhece todo o trajeto desta obra que se pensava ser de cunho religioso e que também fazia propaganda do sindicato dos ourives. Ela apareceu no século XIX nas mãos de um colecionador alemão que, por sua vez, diz tê-la comprado de um holandês. É interessante observar que os pequenos pesos da balança encaixam-se perfeitamente, sendo guardados dentro um recipiente redondo que se encontra aberto, próximo à balança. Moedas de ouro estão sobrepostas no balcão, à esquerda do ourives.

Curiosidade
Em razão de terem colocado depois uma auréola na cabeça do personagem, conforme foi comprovado por uma perícia feita no século XX, supõe-se que o retrato seja de um ourives que viveu em Bruges. Estaria ele passando por Santo Eloi? Não se sabe!

Ficha técnica:
Ano: 1449
Técnica: óleo em painel
Dimensões: 100,1 x 85,8
Localização: Metropolitan Museum of Arte, Nova Iorque, EUA

Fontes de pesquisa
Los secretos de las obras de arte/ Editora Taschen
Defrocking St.Eloy: Petrus Christus’s “Vocational …

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