O BUDISMO

Autoria de Lu Dias Carvalho prost.1

O budismo faz parte das sete grandes religiões que são: hinduísmo, budismo, confucionismo, taoísmo, judaísmo, cristianismo e islamismo. Elas podem ser englobadas em três grandes correntes:

  • Originárias da Índia: hinduísmo e budismo
  • Originárias da China: confucionismo e taoísmo
  • Originárias do Oriente Médio: judaísmo, cristianismo e islamismo

De acordo com a sua origem, cada religião possui uma figura-chave:

  • hinduísmo e budismo – o místico
  • confucionismo e taoismo – o sábio
  • judaísmo, cristianismo e islamismo – o profeta

O budismo originou-se na Índia, entre o século VI a.C. e o século IV a.C., quando vários grupos religiosos passaram a rejeitar os fundamentos do hinduísmo: a autoridade suprema dos Vedas, os sacrifícios impiedosos feito com animais e a severidade dos brâmanes. Sidarta Gautama, pertencente à casta guerreira, era um dos mestres inconformados. Ainda hoje, os “intocáveis indianos” (dalits)  vêm abandonando o hinduísmo e abraçando o budismo, fugindo da crueldade do sistema de castas para com os miseráveis.

Para o budismo, o Universo é composto por vários sistemas, não aceitando um Deus criador e senhor de tudo. Cada um dos sistemas passa por um ciclo que abrange nascimento, desenvolvimento e declínio (ou morte), que tem a duração de bilhões de anos. E cada sistema também possui seis reinos, tendo cada um deles vários níveis, num total de 31:

1-      Seres dos infernos – aqueles que vivem em um dos muitos infernos;
2-    Preta – o reino de seres que padecem de necessidades sem alívio, sofrimento, remorsos,       fome,  sede, nudez, miséria, sintomas de doenças, entre outros;
3-      Animais – um espaço de divisão com os humanos, mas considerado como outra vida;
4-      Seres humanos – um dos reinos de renascimento, em que é possível atingir o nirvana.
5-      Semideuses –  tidos como “divindades humildes”, titãs e anti-deuses;
6-      Deva – comparado ao paraíso.

O reino dos infernos fica na parte inferior, mas sua concepção difere da cristã, que tem o inferno como um lugar quente e de permanência eterna, como castigo pelas faltas cometidas na vida terrena. No budismo é possível libertar-se do inferno, assim que o ser se liberta do carma que o levou até ali, podendo os infernos serem quentes ou frios.

Buda não deixou nada escrito, contudo, a tradição budista reza que no ano do falecimento do mestre, houve um concílio, onde seus discípulos passaram seus ensinamentos, oralmente, diante de uma assembleia de monges que, por sua vez, transmitiu os oralmente aos seus discípulos. Somente após o século I d.C., é que os ensinamentos budistas começaram a ser escritos. Porém, o budismo não conta com um livro sagrado como acontece com outras religiões. Existem vários cânones, como o chinês e o tibetano, por exemplo.

Embora o budismo seja bastante conhecido na Ásia, atualmente vem ganhando um grande número de adeptos em todo o mundo. Alguns estudiosos colocam-no como a quinta maior religião do mundo.

O Carma (lei de causa e efeito, ou seja, resultado das boas e más ações) diz respeito às ações do corpo, da fala e da mente, que nascem da intenção mental, responsáveis por gerar consequências boas ou ruins. A intenção, ainda que não expressa, é determinante no efeito da ação. Existem diferenças nas escolas budistas quanto ao carma ser perdoado ou não. Para algumas, a recitação de mantras corta um carma negativo.

No conceito budista, as pessoas passam por uma sucessão de vidas, como forma de renascimento, num constante processo de mudança, que é determinado pelas leis de causa e efeito (carma). Não se trata de um ser encarnado ou transmigrado de uma vida para outra. Cada renascimento ocorre dentro de um dos seis reinos.

Samsara é o ciclo das existências pelas quais passam os seres, nas quais está presente o sofrimento, fruto da ignorância.

As Quatro Nobres Verdades foram os primeiros ensinamentos deixados por Buda, depois de atingir o nirvana:

1- O que é o sofrimento?
R- A vida, como nós a conhecemos (nascimento, trabalho, separação, velhice, doença, morte), leva ao sofrimento.

2- De onde vem o sofrimento?
R- O sofrimento vem do desejo, do apego às coisas, da ambição, do ódio, da cegueira e da ânsia de viver, responsáveis por várias reencarnações.

3- Como pode o sofrimento ser superado?
R- O sofrimento acaba quando termina o desejo.

4- Qual é o caminho para acabar com o desejo?
R- Usar o equilíbrio. Não buscar o prazer e nem a autopunição, conduzindo-se  através do Nobre Caminho Óctuplo:

– reto conhecimento e reta intenção: saber (panna)
– reto falar, reto agir e reto viver: moralidade, ética (sila)
– reto esforço, reta atenção (sati) e reta concentração (samadhy)

O Caminho do Meio é a prática de não extremismo.
Nirvana – é o não necessitar mais de reencarnar, a iluminação.

No budismo, a vida monástica é importantíssima. Os monges são muito venerados pelos devotos. Eles são os mestres espirituais. Usam túnicas de cor vermelho-escura, preta, cinza ou amarelo-açafrão.  Há uma simbiose entre os monges e as pessoas. Eles lhes oferecem o alimento espiritual e elas o material. São responsáveis pelos casamentos, celebrações fúnebres, bênçãos das novas moradias, expulsão dos espíritos maus, etc. A cabeça raspada é o sinal de que eles renunciaram aos prazeres do mundo. Como propriedade pessoal, em muitos mosteiros, eles só podem ter: prato de esmolas, cinto, navalha de barbear, agulha, palito e peneira para coar da água os organismos vivos.

Somente os meninos, aos seis ou sete anos de idade, são admitidos na escola monástica. O que traduz num grande merecimento e honra para os pais das crianças.

Fontes de pesquisa:
Religiões do Mundo/ Hans Küng
Líderes que Mudaram o Mundo/ Gordon Kerr

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A PARTIDA DE FUTEBOL MAIS LOUCA DO MUNDO

Autoria do Dr. Ivan T. Large

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Quando o meu próximo paciente entra na minha sala, já sei, pela camiseta que está exibindo orgulhosamente, que é um torcedor de um dos principais times de futebol da cidade. Ele me conta que, além de torcedor, jogava, quando era mais novo, nas divisões de base daquele time, junto com um dos seus primos. Ambos estudavam na época, na esperança de serem admitidos numa escola de eletrônica. O meu paciente, que era melhor aluno, foi aceito, enquanto seu primo, menos inteligente, não teve a mesma “sorte”. Reprovado na escola, a sua única opção profissional foi continuar jogando no time e, agora, ganha em um mês, como jogador de futebol, o que o meu paciente demoraria mais de cinco anos para economizar, trabalhando como técnico em eletrônica. É a vez do meu paciente, me perguntar:

– E no seu país, também se joga futebol?

– Não sei se ainda se joga, mas no tempo em que eu morava lá, era o único esporte que era praticado. – respondo-lhe – Inclusive há uma história muito maluca sobre uma partida de futebol acontecida lá, segundo contaram-me. Ei-la:

É uma linda manhã de verão, quando o destroier Americano “The Conquerer” joga a âncora no porto de Porto-príncipe. É uma manobra rotineira, executada uma vez por mês. Os tripulantes aprontam-se para desembarcar, a fim de efetuar a habitual tournée nos bordéis da cidade, quando uma visita inesperada vem quebrar esta tão agradável rotina.

O homem alto e elegante, vestido de um terno azul de poliéster brilhante, apesar do calor de quarenta graus, e os olhos escondidos atrás de óculos escuros, que acaba de subir a bordo, apresenta-se como emissário do secretário de esportes. Ele está trazendo um convite especial à tripulação do “The Conquerer” para participar de uma partida de futebol. O comandante, apesar de não estar nem um pouco interessado com a perspectiva de trocar as coxas aconchegantes das donzelas da boate “Copa Cabana” por uma bola cheia de ar, fica sem jeito de recusar tão amigável convite, que acaba aceitando com fingido entusiasmo.

Nessa época, o “nosso” futebol era praticamente desconhecido na terra do tio Sam, onde o famoso “football americano”, lá praticado, é na verdade o rugby. Por sorte, um dos marinheiros que havia nascido na Inglaterra, havia tido a oportunidade de jogar um pouco de futebol, quando criança, antes de mudar-se para os Estados Unidos, onde se tornou cidadão americano.

O iniciado é designado para acumular as funções de capitão e treinador do time, e encarregado de transmitir os seus conhecimentos “futebo1ísticos” aos onze escolhidos, reunidos às pressas. Ele tenta explicar as regras do jogo, de maneira sumária, ao time improvisado, enquanto os homens percorrem o trajeto que separa o porto do local do jogo, dentro do pequeno ônibus amigavelmente cedido pelos generosos anfitriões.

Durante o percurso, é impossível deixar de reparar nas faixas gigantescas, onde estão escritas as pa1avras: Haiti contra USA, atravessando as estreitas ruas, dos dois lados das quais, uma população agrupada grita palavras de ordem completamente incompreensíveis para eles. Entretanto, grande é a surpresa dos marinheiros, quando o ônibus estaciona em frente do Estádio Nacional de Futebol, onde estupefatos são avisados de que vão jogar contra a Se1eção Nacional de Futebol do Haiti. Entram, tremendo, num estádio completamente cheio, já que os portões da arquibancada haviam sido magnanimamente liberados para o povo pelo presidente vitalício da República, François Duvalier, o temido Papa Doc.

E lá está ele, o chefe supremo da nação, confortavelmente instalado no camarote presidencial, protegido por uma fachada de vidro blindado e guardado por seu exército pessoal, armado até os dentes. Em volta do patriarca, toda uma corte de cortesões disputa os olhares do mestre: ministros de Estado acompanhados de suas elegantes esposas, exibindo seus colares de diamante, membros do corpo diplomático, militares condecorados, redatores das colunas sociais dos mais bajuladores jornais do país, comerciantes milionários, sobreviventes da alta sociedade decadente e até mesmo religiosos. Ao lado do arcebispo da cidade, o núncio apostólico, representante oficial do Papa, adula o herdeiro do poder, o pequeno Jean Claude de sete anos, o futuro Baby Doc , sentado no seu colo. Esta importante ocupação não lhe permite reparar, lá em baixo, no campo, o “houngan” oficial do palácio, a maior autoridade da religião vodu do país, desenhando sinais cabalísticos, com um misterioso pó branco, nos quatro cantos do terreno, a fim de evitar qualquer imprevisto.

É hora de a seleção nacional fazer sua entrada triunfal no meio do campo, seguida da seleção adversária, recebida com vaias intermináveis. A assistência só se acalma com a chegada da banda de música do palácio nacional. Todos ficam de pé para entoar patrioticamente o hino nacional haitiano, que termina com aplausos frenéticos. Depois é a vez do hino americano, rapidamente balbuciado pelos marinheiros.

E o jogo começa. Quis dizer, o massacre. O primeiro gol da seleção acontece poucos segundos após o inicio do jogo e é seguido por muitos outros. O número de gols teria sido bem maior se os jogadores não desperdiçassem minutos preciosos para demonstrar a sua habilidade com dribles, embaixadas e principalmente passes humilhantes entre as pernas dos adversários. Tudo parece perfeito, quando o capitão do time estrangeiro aproveita o passe errado de um zagueiro e a distração do goleiro, ocupado em mandar beijos para algumas graciosas donzelas da arquibancada, para chutar a bola em direção à rede haitiana. Sob o olhar consternado do púb1ico, o time americano marca o seu primeiro gol. A plateia começa a demonstrar sinais de descontentamento. O próprio chefe de Estado joga um olhar furibundo ao seu “houngan” oficial, que levanta desesperadamente os ombros, como para dizer que não entende o que poderia ter dado de errado com o seu pó até então infalível.

Entretanto essa situação constrangedora dura pouco. O juiz, inteligentemente, marca impedimento e anula o gol americano, O autor do gol ameaça reclamar, mas é imediatamente expulso e deixa o campo, cabeça baixa, vaiado pelo público inteiro. O placar fica nulo do lado dos visitantes. A honra do povo haitiano está salva. O “houngan” respira, aliviado. Papa Doc deixa escapar um sorriso, enquanto pensa em recompensar o gesto heroico do valoroso árbitro.

Á noite, quando todos já estão em casa, a única estação de televisão do país interrompe a sua programação para apresentar o discurso do Presidente da República. Durante mais de uma hora, o chefe da nação elogia a se1eção nacional, agradece a ajuda da torcida, explica que esta vitória sobre a primeira nação do mundo demonstra a superioridade da raça haitiana, e, que só foi possibilitada pela ação do seu governo cuja perenidade, por tudo isso, é imprescindível, e, que qualquer um que não concordasse com esta afirmação não passaria de um traidor e, como tal ,receberia a punição que merece: de preferência a morte.

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Mit. – PÃ, SIRINX E A FLAUTA

Recontado por Lu Dias Carvalho

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A ninfa Sirinx era muito amada pelos sátiros e espíritos que povoavam os bosques e florestas. Apesar do amor que lhe dedicavam muitos seres divinais, ela jamais havia se deixado seduzir por eles. Era fiel à Diana, deusa da caça, e sua seguidora. Estavam sempre juntas, e, quando vestidas com roupas de caçar, tornavam-se bastante semelhantes. Mas, enquanto Diana usava um arco de prata, Sirinx portava um de chifre, diferenciando o poder de cada uma.

Pã (Fauno ou Silvano), o deus dos bosques, dos campos, rebanhos e pastores, tinha por morada as grutas. Sua função era vagar pelos bosques, vales e montanhas, caçando ou dançando com as ninfas. Certo dia, ao encontrar Sirinx sozinha, passou a dirigir-lhe adulações, com um objetivo nada confessável. Quanto mais a ninfa corria, mais ele se sentia atraído por ela. Nas margens de determinado rio, ele a agarrou, enquanto a frágil criatura pedia socorro às ninfas do rio, que vieram prontamente ajudá-la. Pã abraçava-a ardorosamente, sem perceber que em seus braços estava um feixe de juncos.

Ao descobrir seu engano, o deus dos bosques deu um suspiro tão forte, que o ar entrou pela abertura dos juncos, produzindo uma sonoridade melodiosa, que muito o encantou. Ele então escolheu alguns juncos de tamanhos diversos, e com eles deu vida a um instrumento, ao qual deu o nome de Sirinx, em homenagem à ninfa que perseguira.

Pã, conhecido pelos romanos por Lupércio ou Lupercus, cujo corpo era composto por orelhas, chifres e pernas de bode, tinha grande paixão pela música, nunca se separando de sua flauta. Também era temido por aqueles que precisavam atravessar as florestas ou bosques no escuro da noite, sempre movidos pela fertilidade da imaginação, que os ensejava a pavores súbitos, sem nenhum motivo claro. E foi desse medo infundado que nasceu a palavra “pânico”.

Nota:  Pã e Sirinx, obra de Nicolas Poussin

Fontes de Pesquisa
Mitologia/ Thomas Bulfinch
Mitologia/ LM

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GRANDES TRAUMAS E REVIVESCÊNCIA

Autoria do Dr. Telmo Diniz

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Sequestros, assaltos, roubos, estupros e acidentes automobilísticos, esses e outros cenários fazem parte do cotidiano do brasileiro. As tragédias nas grandes capitais brasileiras e a violência é uma constante na vida das pessoas, independentemente da classe social. São traumas que podem permanecer por meses, até anos. Não é à toa que a sociedade contemporânea está adoecendo. São doenças sociais cada vez mais comuns, que se disseminam na população, como os vários tipos de distúrbios da esfera da ansiedade.

Vítimas dessas tragédias e grandes traumas podem ficar com sequelas psíquicas bem marcantes. Todos estes fatores de estresse podem causar o que chamamos de Transtorno Pós-Traumático, que pode ser entendido por uma perturbação psíquica decorrente de um evento ameaçador à pessoa. Ele consiste num tipo de recordação que é conhecido como revivescência, pois é muito mais forte que uma simples recordação. Na revivescência, a pessoa além de recordar as imagens do evento, realmente sente como se estivesse vivendo novamente a tragédia com todo o sofrimento original.

Para esse diagnóstico é essencial que a pessoa tenha experimentado um evento traumático ou uma grande ameaça. Quando esse evento ocorre, é necessário também que a pessoa tenha apresentado uma resposta marcante de medo ou horror. No período que se segue, o indivíduo passa a ter recordações muito vívidas, abruptas e involuntárias do evento. Podem ocorrer pesadelos, sentir como se o evento fosse acontecer de novo, chegando a comportar-se como se estivesse de fato revivendo aquele evento traumático. É também possível que a pessoa tenha alucinações durante as crises.

O tratamento com antidepressivos, com atividade serotoninérgica, pode ser útil em alguns casos, porém, a psicoterapia cognitivo-comportamental é o caminho mais acertado. Esse tipo de terapia tem características próprias, pois possui um enfoque diretivo, trabalha os pensamentos automáticos, as crenças sem sentido, os comportamentos alterados e, consequentemente, obtém resultados eficazes. Esse tipo de psicoterapia está focado na resolução dos problemas, fornecendo ao indivíduo uma explicação clara das dificuldades emocionais, prevenindo as recaídas. Durante a psicoterapia, a pessoa é ensinada a identificar os pensamentos que originam as perturbações emocionais e a substituí-los por modos de pensar mais amenos e positivos.

Ao longo de todo o tratamento, a pessoa aprende também técnicas de autoajuda que produzem alívio rápido dos sintomas e o aumento do autocontrole diante do medo, sem adentrar nos quadros de pânico e de ansiedade generalizada. Em vários casos, a associação da medicação com a terapia é de grande ajuda, ou seja, um trabalho conjunto entre médico e psicólogo.

Nota: ilustração copiada de dialogospoliticos.wordpress.com

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Mit. – FAETONTE, O FILHO DO SOL

Recontado por Lu Dias Carvalho

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O deus da luz, Apolo (Febo), divindade solar, e a ninfa Climene eram os pais de Faetonte, que se sentiu chateado ao saber que era filho de um deus, mas que vivia como um mortal comum. Exigiu que a mãe desse-lhe prova da divindade que carregava. Ela lhe jurou, dizendo que ele era realmente filho do Sol. E foi assim que o rapazinho partiu para a Índia, onde seu pai dava início a seu trajeto. Queria também ouvir a palavra dele sobre sua origem.

Ao encontrar o palácio do pai, situado numa alta montanha, cujas portas eram ornadas com os signos do zodíaco, Faetonte entrou e foi em direção ao genitor, que se encontrava num trono resplandecente de luz, rodeado por seus ajudantes: o Dia, o Mês, o Ano, as Horas, a Primavera, o Verão, o Outono e o Inverno. Meio cego, o rapazola pediu ao Sol que provasse que era mesmo seu pai. E esse, desconhecendo o ímpeto aventureiro do filho, ordenou-lhe que pedisse o que quisesse, como prova. A escolha do moleque recaiu sobre o carro de Apolo. Queria dirigi-lo por um dia. Mas esse era o único pedido que jamais deveria ter feito ao pai.

O Sol argumentou com o filho que dirigir seu carro flamejante era muito perigoso, pois demandava muita força e sabedoria, e que nenhum deus jamais ousara fazer aquilo. Além do mais, ele era mortal, podendo morrer nessa façanha. Queria que mudasse o pedido, uma vez que fora inconsequente na sua promessa. Mesmo depois de ouvir todas as explicações detalhadamente, o garoto encasquetou, não arredando pé. Nada restava a Febo, senão cumprir sua promessa, ainda que totalmente a contragosto.

Dentre os muitos conselhos, Faetonte foi avisado de que não deveria usar o chicote nos corcéis, pois eles sabiam o caminho a fazer. Deveria apenas contê-los, vez ou outra. Tudo lhe foi explicado com paciência, embora o garoto mostrasse-se cada vez mais apressado para dirigir o “brinquedo” e menos atencioso em ouvir as explicações. Ao subir no carro, não se lembrava da metade do que lhe dissera o Sol. Portanto, esse passeio pressagiava maus acontecimentos.

Os corcéis logo deram conta de que o condutor era outro, bem mais leve e sem comando. O carro era jogado de um lado para outro na imensidão do céu. O moleque começou a tremer de medo, sem saber onde se encontrava. Não se lembrava dos conselhos recebidos e tampouco do nome dos cavalos. Não mais aguentava segurar as rédeas. Houve momentos em que o carro do Sol ficou tão próximo à Terra, que seu calor pôs fogo nas plantações e florestas, ressecando os mares e rios, matando animais e gentes. Em suma, tudo embaixo do céu era um caos, tudo sofria profundas e dolorosas transformações.

A Terra, horrorizada com tanta aniquilação, pediu ajuda ao grande deus Júpiter. Lembrou-lhe que Atlas não mais estava aguentando segurá-la no espaço. E se o mar, o céu e a terra fossem dizimados, tudo voltaria ao Caos de antes. Não era justo que não fosse ele a acabar com tudo, mas um moleque mortal. Se ainda tencionava salvá-la que fosse breve, pois a catástrofe total estava a caminho.

Júpiter conclamou todos os deuses para salvarem o que ainda restava da Terra. Ele trovejou e arremessou um raio contra o rapazola imprudente. Ao acertá-lo, tirou-o de dentro do carro, e ele caiu com os cabelos pegando fogo, como se fosse uma estrela cadente. O rio Eridano abriu os braços para receber seu corpo sem vida, refrescando-o. E as Helíadas, suas irmãs, enquanto choravam, foram transformadas em choupos, à beira dos rios. E suas lágrimas, ao tocarem a água, viraram âmbar.

Nota: ilustra o texto a pintura Apolo em seu Carro, de Luca Giordano

Fontes de Pesquisa
Mitologia/ Thomas Bulfinch
Mitologia/ LM

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O AMOR CONJUGAL NO IMPÉRIO ROMANO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Possa vossa mulher igualar o marido na sua incansável bondade! Que raramente uma cena doméstica perturbe vossa união. (cumprimento de Ovídio aos recém-casados)

Rezavam as leis romanas que “Casar-se é um direito do cidadão”. Portanto, tratava-se de um dever cívico, com a finalidade de parir filhos legítimos e também aumentar o patrimônio do marido com o dote levado pela esposa. Não havia nenhuma preocupação com o amor. O fato de amarem-se não passava apenas de um mérito adicional, mas não exigido. Se se amassem, melhor seria para o casal, mas isso não era importante. Não fazia a menor diferença. O importante é que se tolerassem.

A desarmonia entre esposo e esposa, já naquela época, era tida como um infortúnio, contudo, aceitava-se tal condição resignadamente. Havia inclusive, segundo os moralistas de plantão, um ponto positivo nas desavenças, pois, ao lidar com uma esposa difícil, o homem estaria se preparando para lidar com as dificuldades do mundo. Ou seja, preparava-se para aguentar as adversidades do cotidiano.

A esposa, assim como os filhos e os escravos, pertencia ao marido. Embora não houvesse obrigatoriedade, era visto como mérito o fato de o marido tratá-la bem, mas sem nada de afagos, ficando um lá e outro cá. A cópula era restrita à escuridão da noite e sem muito “uis e ais”. Com o tempo e o surgimento de uma nova moral, a esposa foi ascendendo no seu papel. Já não mais era colocada no rol dos empregados domésticos, que a ela se submetiam por ordem do marido. Passou a situar-se acima dos amigos do esposo, vistos na vida social greco-romana como de fundamental importância na vida do cidadão. Para aqueles tempos, tratava-se de um grande passo.

O casal devia fazer amor apenas com a finalidade de gerar filhos. A vida em comum baseava-se apenas numa amizade entre eles, devendo ser exíguos e rápidos nas carícias no leito. A esposa jamais deveria receber o mesmo tratamento dado à amante, sendo a prostituição totalmente legalizada. Seria infame ter uma relação afervorada com a esposa. A diferença entre ela e a amásia era abissal. Um homem considerado de bem, jamais deveria ter um comportamento “imoral” com sua mulher, uma vez que a finalidade de eles se deitarem juntos resumia-se unicamente à concepção. Fora disso, o marido fogoso incorreria num ato indecoroso, podendo ser denunciado publicamente. Mas quem sabia o que se escondia entre quatro paredes? Tarefa difícil a do censor.

Sêneca (filósofo, advogado e mestre) e Plínio (escritor, naturalista e comandante do exército romano), contudo, falavam com prazer sobre a alegria da vida conjugal que ambos levavam com suas esposas. Vida essa sempre agraciada pelo sentimento, virtuosidade e bom exemplo. Para o segundo, “o verdadeiro objetivo do casamento é a ajuda e a amizade que os esposos proporcionam um ao outro”. Por isso, advogava em favor de um novo casamento, mesmo quando um dos cônjuges não mais tinha capacidade para procriar.

A visão de Sêneca e Plínio contrasta com uma sociedade altamente patriarcal, em que até na cama, o domínio sexual pertencia exclusivamente ao homem, predominando uma disciplina rígida no trato com a esposa.

Nota:  imagem de um casal no fundo de um espelho de bronze (c. de 70-90), de autoria desconhecida.

Fonte de pesquisa:
História da Vida Privada/ Companhia das Letras

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