Mit. – A VINGANÇA DA DEUSA DIANA

Recontado por Lu Dias Carvalho

CS.12.3

Andava Actéon, filho do rei Cadmo, a caçar com um grupo de amigos, como se nada mais tivesse a fazer. Já haviam feito uma cruel matança de animais, por mero divertimento. O sangue escorria das redes e das setas, fazendo poças no chão da floresta. A agonia dos animais não tocava o coração daqueles homens insaciáveis. Cansado, o príncipe convocou seus amigos para descansarem. Voltariam no dia seguinte para dar continuidade à matança.

Diana, a deusa virgem da lua e da caça, encontrava-se em seus domínios com suas ninfas, onde havia uma bela gruta, próxima a um riacho de águas límpidas. A deusa cuidava de seu asseio corporal, ajudada pelas companheiras. A uma das ninfas entregou o dardo e a aljava, enquanto outras cuidavam de despojá-la de suas vestes, de levar-lhe água para o banho e pentear-lhe os cabelos. Tudo transcorria na mais perfeita harmonia, quando Actéon, desgarrado dos companheiros, foi parar exatamente ali, à entrada da gruta. As ninfas, surpresas e amedrontadas, correram em alvoroço, tentando cobrir o corpo nu de Diana, com os próprios corpos. Sem as setas à mão, visivelmente indignada, a deusa perpetrou sua vingança, transformando o atrevido num cervo, para que não contasse a ninguém o que vira.

O bonachão filho do rei Cadmo, embora transformado em bicho, carregava a consciência de sua transformação. Não sabia que medidas tomar. Amedrontava-o a ideia de voltar para o palácio e também a de ficar escondido no bosque. Enquanto estava ali a cismar-se, voltou à realidade com o latido da matilha a seu encalço. Desesperado, subia e descia desfiladeiros, cortando-se nos rochedos, com sangue a escorrer-lhe pelo corpo. Sentia na pele exatamente aquilo que viviam os animais caçados por ele e seus amigos, companheiros de farra. E pior, os cães eram açodados por eles. Dando-se por vencido, caiu por terra, com a matilha sobre ele, despedaçando-o, enquanto seus companheiros festejavam. Alguns deles gritavam por seu nome, para que viesse fazer parte da festa. E ali mesmo, Actéon expeliu seu último alento de vida. Diana sentiu-se vingada.

Nota: Diana e Actéon, obra de Ticiano

Fontes de Pesquisa
Mitologia/ Thomas Bulfinch
Mitologia/ LM

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Pinturicchio – PENÉLOPE E SEUS PRETENDENTES

Recontado por Lu Dias Carvalho

Peneprent

A composição Penélope e Seus Pretendentes foi encomendada por Pandolfo Petrucci, governo de Siena, tido como um déspota, em 1509, ao pintor Pinturicchio, para ornamentar o salão de seu luxuoso palácio. A obra foi pintada na parede, juntamente com outros sete afrescos de outros artistas. Infelizmente, três dessas obras não mais existem.

Em 1843, a pintura de Pinturicchio foi comprada por um colecionador francês de arte, sendo removida, separadamente, da parede do palácio de Siena. Posteriormente, passou a fazer parte de uma coleção particular inglesa. Mas em 1874, foi levada para o museu National Gallery. Seu estado de conservação era tão precário, que mesmo sendo submetida à restauração, não conseguiu a sua beleza de antes.

A obra retrata a história de Penélope, esposa de Ulisses, rei de Ítaca, que se ausentou por um período de 20 anos, lutando na Guerra de Troia. Penélope esperou fielmente por seu marido, embora tivesse que tolerar o assédio de inúmeros pretendentes, que a queriam como esposa. Ela se manteve fiel a Ulisses, confiante na sua volta. Em consequência de sua decisão, teve sua casa e rebanhos roubados. Até mesmo o filho Telêmaco, de 20 anos, foi jurado de morte, a fim de que o patrimônio real do pai caísse em outras mãos. Para livrar-se das ameaças e convites, Penélope recorreu a uma artimanha. Prometeu que assim que terminasse de tecer a mortalha para o pai idoso de seu esposo, ela faria a escolha de um dos pretendentes. Mas à noite, secretamente, desmanchava toda a parte tecida durante o dia.

Ao fundo, no afresco, Pinturicchio apresenta duas aventuras de Ulisses. Numa delas, o herói encontra-se acorrentado dentro de um barco a vela, para não ser seduzido pelo canto das sereias, que nadam à volta, disfarçadas em jovens com rabo de peixe. Na outra, está a ilha de Circe, uma temida feiticeira, que transformava homens em animais (mas no mito, o deus Hermes, para proteger Ulisses, presenteou-o com algumas ervas, que o tornam imune aos encantamentos da mulher).

À direita, numa parte mais elevada, Ulisses, de barba, encontra-se de pé, usando um chapéu, tendo na mão esquerda um pedaço de pau. Ele observa os pretendentes que se dirigem a Penélope, enquanto ela trabalha em seu tear. O pintor postou um pássaro na viga atrás do tear.

Um dos pretendentes traz pousado em sua mão direita um falcão. O outro, que se encontra à frente, faz gestos com as mãos, como se exigisse a definição de Penélope. A figura do falcão tanto pode aludir à vida luxuosa dos pretendentes, como a uma cena do texto de Homero, em que uma ave de rapina mata uma pomba. Alguns estudiosos acham, entretanto, que o afresco mostra o retorno de Ulisses, estando seu filho Telêmaco a dar a notícia a sua mãe. Contudo, na história, quem conta a Penélope sobre a volta do marido é uma velha servente. Portanto, há diferentes interpretações.

Nos afrescos da Antiguidade, as cenas exteriores eram comuns, sendo Pituricchio um dos primeiros artistas a adotar tal costume. Nesta obra, ele apresenta, na sala de tecelagem, uma enorme janela, do tamanho de uma parede, através da qual apresenta as duas aventuras de Ulisses, citadas acima. Para representar a profundidade, o pintor emprega revestimentos no chão cujas linhas convergem para o ponto de fuga. O tear também ajuda na obtenção da perspectiva.

O texto de Homero foi escrito cerca de 800 a.C., além disso, durante a Idade Média, ele foi praticamente esquecido, uma vez que, por tratar de mitos, em nada contribuía para o cristianismo. E mesmo no Renascimento, só eram conhecidos alguns fragmentos da Odisseia, explicitados em outras obras. Portanto, o quadro de Pinturicchio tem como fonte a tradição oral, sem nenhuma preocupação com os detalhes.

Ainda segundo a mitologia, ao retornar a Ítaca, Ulisses entrou em sua cidade vestido de mendigo. Os pretendentes riam dele, enquanto os servos desacataram-no. Embora a artimanha de Penélope tivesse sido descoberta, ela arranjou outra: só se casaria com aquele que melhor fizesse uso do arco de Ulisses. Mas nenhum deles conseguiu tencionar o arco. A seguir, o herói abateu todos eles, assim como os criados desleais, numa impiedosa vingança.

Ficha técnica
Ano: 1509
Técnica: afresco
Dimensões: 125 x 152 cm
Localização: National Gallery, Londres, Grã-Bretanha

Fontes de pesquisa
Los secretos de las obras de arte/ Taschen
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann

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EXISTE UMA DIETA PARA A MENTE?

Autoria do Dr. Telmo Diniz

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Vários pacientes do consultório me questionam como fazer a melhor prevenção ao envelhecimento, em especial com relação à doença de Alzheimer. A resposta, aparentemente, pode ser simples de seguir, como ter hábitos de vida saudáveis com uma alimentação equilibrada, atividades físicas regulares e menos estresse. Focando no primeiro item, ano passado saiu um livro do neurologista norte-americano David Permutter com o título “Dieta da Mente – Os Grãos Modernos Estão Destruindo, Silenciosamente, o Seu Cérebro”.

O autor defende que uma alimentação rica em carboidratos e glúten provocam danos ao organismo, em especial ao cérebro. Esses alimentos podem causar demência, déficit de atenção, epilepsia, ansiedade, enxaquecas, depressão, etc. O neurologista afirma que o destino de nosso cérebro não está na genética, mas naquilo que comemos. A alimentação é, segundo estudos, um modulador epigenético, ou seja, capaz de transformar o DNA para melhor ou para pior. Esses e vários outros problemas surgem devido ao alto potencial inflamatório de alimentos com glúten (pães, bolos, biscoitos, cerveja). Imagine, até o nosso mineiríssimo pão de queijo!

A proposta da dieta é voltar a comer da forma como nossos ancestrais do período Paleolítico, com um cardápio predominantemente composto por gorduras (75%) e proteínas (20%) e pouquíssimos carboidratos (5%). A diferença é grande quando comparada com a dieta atual, de 60% de carboidratos, 20% de gordura e 20% de proteínas. De acordo com o regime descrito no livro, isso vale não só para quem tem sensibilidade ao glúten, mas para todos. Segundo o autor, “não há risco de aumentar as gorduras do corpo, se ele não estiver sob os efeitos negativos dos carboidratos”.

Ele atesta em seu livro que a inflamação causada por esses nutrientes desencadeia um processo de oxidação no organismo, mais precisamente o LDL (conhecido como colesterol ruim) oxidado que provoca o acúmulo de gordura nas artérias. Além de pregar que as gorduras são amigas do homem, o neurologista afirma que fazer jejuns (de 24 a 72 horas) e tomar suplementos, como cúrcuma, probióticos e óleo de coco, também ajudam a melhorar as funções cerebrais.

Corroborando o que afirma o neurologista, pesquisadores da Universidade Rush (EUA) demonstraram que adultos mais velhos que seguiram a Dieta da Mente de forma mais rigorosa apresentaram um desempenho cognitivo equivalente ao de pessoas 7,5 anos mais jovens, em comparação com aqueles que não seguiram a dieta tão rigorosamente. Os resultados foram publicados na revista “Alzheimer & Dementia”, o jornal científico da Associação de Alzheimer dos EUA.

Particularmente prefiro algo mais equilibrado, pois a redução drástica dos carboidratos e o aumento do consumo de gordura podem, no médio e longo prazo, acarreta problemas cardiovasculares. A palavra de ordem não está na proibição e, sim, na moderação.

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O CASAMENTO NO IMPÉRIO ROMANO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Aos homens e mulheres livres era permitida a instituição do casamento, mas essa era privada aos escravos, no Império Romano. Esses, portanto, viviam em estado de promiscuidade sexual. Contudo, aqueles poucos que gozavam da confiança de seu senhor, administrando-lhe a casa, ou mesmo servindo ao imperador, podiam viver amancebados com uma concubina, muitas vezes presenteada pelo próprio amo.

Os homens e mulheres considerados livres e que podiam se casar eram aqueles que:
• nasceram de um cidadão e uma cidadã;
• eram bastardos, porém filhos de uma cidadã;
• escravos que foram libertados por seus donos.

O mais interessante é que o casamento daquela época nada tinha a ver com instituição de nossos dias. Tratava-se de um ato particular, informal, não escrito, ou seja, não submetido ao poder público. O único contrato que existia era o dote, e isso se a mulher contasse com um. Era mais parecido com o noivado atual. Em caso de separação, o juiz decidia se o casal era casado ou não, através dos indícios, tais como a constatação de dote, assim como gestos que comprovassem a união. Podia-se também obter a testemunho de terceiros. Contudo, havia casos em que somente os dois podiam dizer se eram casados ou não. A presença de algumas testemunhas no casório, portanto, era muito importante, em caso de negação do casamento, posteriormente, por uma das partes. E, assim como hoje, o casal também recebia presentes de casamento por parte dos amigos e parentes.

Ainda que o casamento se tratasse de um ato privado, não escrito e solene, trazia em seu bojo certos direitos legais, como o fato de legitimar os filhos, que herdariam o nome do pai, dando continuidade à sua linhagem, caso não viessem a ser deserdados, por um motivo ou outro, fato muito comum à época. Na morte do pai, os filhos tornavam-se donos de seu patrimônio, assim como acontece nos dias de hoje, embora não haja mais, em nossos dias, a discriminação em relação aos filhos fora do casamento.

O divórcio do casal era muito simples. Era necessário apenas que o esposo ou esposa se afastasse um do outro, com a intenção de divorciar-se. Nem havia a necessidade de repassar ao cônjuge abandonado tal informação. Muitos homens e mulheres nem sabiam que se encontravam divorciados, pois o cônjuge saía de casa sem dizer nada. A mulher, mesmo que tivesse tomado a decisão de separar-se, ou tivesse sido rejeitada pelo marido, tinha o direito de levar seu dote, se o tivesse, é claro.

A noite de núpcias era meio complexa. O marido, acostumado com a falta de delicadeza com suas escravas, não tinha a tarimba necessária para deflorar sua esposa, deixando-a “horrorizada”. Alguns deles, mais “sensíveis”, não desvirginavam a mulher na primeira noite. Contudo, sodomizava-a, praticando a conjunção anal. Nesse caso, podia-se empregar o ditado “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.”. Quando grávida, à esposa era negado o ato sexual, durante toda a gestação. Outra censura imposta era quanto ao horário de fazer amor: só podia ser feito durante a noite. Fora disso constituía licenciosidade, pouca-vergonha.

Por que então as pessoas chamadas “livres” casavam-se? A finalidade do casamento encontrava-se no ato de adquirir filhos legítimos, que sucederiam o pai no trato com o patrimônio adquirido. Era também a maneira mais rápida e justa de obter fortuna, ao fazer uso do dote que acompanhava a esposa. E, por último, aumentava o número de cidadãos, fortalecendo o corpo cívico do Império Romano.

Nota: afresco encontrado em Pompeia, Itália.

Fonte de pesquisa:
História da Vida Privada/ Companhia das Letras

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A MORTE DA LOBA

Autoria do Dr. Ivan T. Large

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Pacientes com as mais diversas profissões sucedem-se na minha sala. O homem sentado agora à minha frente é professor de filosofia, como consta na sua ficha. Mas ele não esconde que tem outra profissão que não consta ne1a: artista transformista. Esse dualismo faz-me reviver uma noite remota, quando um velho professor experimentou o maior desapontamento da sua vida.

É uma noite quente. No canto de uma imensa sala, um potente alto-falante vomita, a todo volume, uma música em língua espanhola, no ritmo endiabrado de uma salsa. Ela conta a história de um sujeito, ao qual um médico teria dado apenas três meses de sobrevida por causa de uma doença incurável. Sem duvidar, nem um segundo, do inexorável prognóstico, nosso condenado resolve aproveitar os seus últimos dias da melhor maneira possível. Consegue nesse prazo, gastar agradavelmente todas as suas economias. No termo dos três meses, o “moribundo”, mais vivo que nunca e aparentemente cheio de saúde, a deduzir pela potência do seu timbre, mas na mais completa penúria, expressa o seu desespero neste refrão, onde interpela veementemente seu médico num tom reprovador: “Oh! Oh! Oh! Oh doutor!”

A infelicidade de nosso “epicurista” não parece muito preocupar um grupo de charmosas moças, a julgar pelo alegre rebolado executado em cadência e valorizado pela minissaia apertada, sob o olhar atento de clientes potenciais. A música alta, a luz pálida, o ar pesado, impregnado de um perfume ou para ser mais preciso de uma mistura de perfumes, a cara dos clientes, os seus olhares desabusados, a atitude debochada das moças insinuando-se no meio dos clientes sentados às mesas cambadas, cheias de garrafas vazias ao lado de copos sujos, onde moscas atrevidas vêm para descansar e saciar a sede. Todos esses ingredientes associam-se para compor um ambiente da mais pura decadência, digno das casas chamadas de “tolerância” ou simplesmente “bordéis”.

De repente, o ambiente muda. As poucas luzes da sala apagam-se, enquanto o foco de um projetor ilumina um palco, onde um apresentador anuncia que vai começar o espetáculo tão esperado da noite. Uma morena aparece, e começa a desabotoar lentamente o seu vestido de cetim vermelho, desvendando as suas formas apetitosas, ao som de uma música de Michael Jackson. Ao final da música, após livrar-se da última peça da sua roupa de baixo, um minúsculo tapa-sexo dourado, em forma de estrela, foge “pudicamente” da cena sob os aplausos frenéticos de uma plateia delirante.

O apresentador interrompe essa manifestação de entusiasmo, anunciando a próxima atração:

– Diretamente das maiores casas de espetáculo do mundo, única, maravilhosa, mirabolante artista de fama internacional: a Loba!

Parecendo mais faminta que famosa, o rosto emaciado recoberto por uma espessa camada de maquiagem, misturada com o suor, pingando em abundância, sob a luz forte do projetor, a Loba, que, na verdade, responde ao nome de batismo de George Gomes, vestida com um traje de noite mais brilhante que uma árvore de Natal, desfila lascivamente, sem despertar o menor interesse de um público vindo para admirar de preferência a sensual magia das formas femininas.

Quais sentimentos poderia um espetáculo de transformismo inspirar aos integrantes da conservadora sociedade afro-latino-americana haitiana dos anos oitenta? Curiosidade a alguns, piedade a outros, nojo e desprezo à maioria. Mas e esse homem? Sim, ele: esse pequeno velho vestido de um terno amarrotado e cerzido, segurando entre os dedos trêmulos, um pequeno copo de cachaça, a caminho dos seus lábios entreabertos de onde sai uma língua saburrenta, a fim de recolher a saliva que pinga no canto da sua boca, fixando, como hipnotizado, a aparição que o deixa ébrio de amor e de paixão? Paixão! Eu disse: paixão? Não pode ser possível!

Como mestre Damoclés Justo, respeitável professor de latim e grego no colégio estadual, homem pobre, mas digno, bêbado inveterado, mas defensor incondicional da moral e dos bons costumes poderia, contrariando as leis básicas da natureza, entregar-se a uma paixão homossexual? Todavia, nessa noite quente, nesse antro de perdição, sob os olhares incrédulos, zombadores, enojados, as evidências parecem contradizer a razão.

Mestre Damoclés é insensível a esses olhares. Não os vê! Insensível aos sarcasmos. Não os escuta! O calor do bordel não o incomoda. Não está num bordel! Está numa floresta encantada. Um vento fresco acaricia seu rosto. O perfume delicado dos jasmins enche agradavelmente suas narinas. Um castelo ergue-se na àfrente. Em cima do castelo, no meio de uma torre imponente, destaca-se uma pequena janela, onde a luz fraca de uma vela ilumina o tenro rosto de um ser que ele admira no silêncio da estrela das suas noites: a Loba, a mais sensual, linda, charmosa mu1her. O quê? A Loba ou mais precisamente George Gomes, uma mulher! Sim, pelo menos nos olhos de mestre Damoclés.

Os olhos de nosso acadêmico não têm mais a acuidade da sua juventude. Uma catarata por aqui, óculos escolhidos no tabuleiro de um vendedor ambulante, sem a devida prescrição de um oftalmologista por lá, sem contar o efeito da cachaça e pronto. A visão do nosso septuagenário não é das mais apuradas. E como a vista é a porta da imaginação, por essa porta defeituosa, a Loba havia penetrado sob a forma sedutora de uma Sofia Loren. E por mais incrível que pareça, nunca, mesmo nos seus escassos momentos de não embriaguez, mestre Damoclés Justo havia duvidado da feminilidade da sua Dulcinéia.

A Loba está no meio da sua performance: mexe sensualmente os lábios atrás de um microfone desligado, enquanto um alto-falante cospe uma música onde uma voz em “play-back” de mulher traída grita palavras de ódio contra o amante infiel. A nossa artista interpreta o papel de mulher raivosa com toda a força de seu coração. Parece um dragão furioso. Com o olhar em chamas, ela ergue um punho vingador na direção do público. Nesse exato momento, a sua abundante peruca negra havendo-se agarrado, por inadvertência, à sua pulseira, segue o movimento brusco do membro vingativo para descrever uma trajetória no ar que termina sobre a cabeça branca do professor apaixonado. Um delírio de gargalhadas levanta o público.

O mestre Damoclês fica mudo de estupefação. Os lábios trêmulos, vendo surgir, desesperado, a faces dura e careteira de um George Gomes, enquanto cai a máscara encantadora da Loba. Uma lágrima amarga escoa dos seus olhos cansados. A “sua” Loba está morta.

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O ESTRESSE AGUDO E O CRÔNICO

Autoria do Dr. Telmo Diniz

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O estresse se caracteriza por ser um mecanismo fisiológico do organismo sem o qual nós não teríamos sobrevivido. Os homens das cavernas tinham de reagir imediatamente ao se deparar com um animal faminto. Caso contrário, não teriam deixado descendentes. Nós existimos porque nossos ancestrais se estressavam, isto é, liberavam uma série de mediadores químicos (adrenalina e cortisol) que provocavam reações fisiológicas para se prepararem para todos os perigos. Mas o grande desafio da sociedade moderna é a adaptação ao estresse crônico.

Para que o leitor entenda melhor a diferença entre estresse agudo e crônico, a fase aguda é imprescindível para a sobrevivência. Um exemplo é estarmos diante de um assalto: o batimento cardíaco e a pressão arterial aumentam, o sangue é desviado do intestino e pele para os músculos, que precisam estar fortalecidos para o que conhecemos como “reação de luta ou fuga”. Já o estresse crônico resulta do acúmulo de pequenos problemas que se repetem todos os dias. Contas a pagar, problemas a resolver, o trânsito que não anda, etc. São eventos corriqueiros que provocam um discreto e constante aumento da pressão arterial e do número dos batimentos cardíacos que, sem dúvida, trazem consequências nefastas para o organismo no longo prazo.

Os desafios da vida moderna vêm impondo mudanças nos hábitos de vida entre as pessoas. A sobrecarga de atividades no dia a dia e a dificuldade de adaptação a esta nova realidade vêm provocando um aumento significativo do estresse crônico, que pode trazer prejuízos à saúde física e emocional. Não é incomum este tipo de paciente no consultório, relatando uma fadiga e cansaço sem explicação (tipo “arrastando correntes”), insônia, diminuição da libido, irritabilidade, entre outras queixas.

A abordagem do paciente com estresse crônico passa por uma boa e completa anamnese, exame físico e uma revisão laboratorial. O primeiro passo é identificar a causa do estresse e verificar se é possível afastá-la. Se não for, é preciso criar estratégias para resolvê-la. Uma boa “higiene do sono” deve ser revista, pois seguidos episódios de insônia é problema extra. As atividades físicas sempre são bem-vindas para a redução dos quadros de estresse, aliadas a atividades extra trabalho (hobbie). Se a pessoa não conseguir controlar os níveis de estresse, sozinha, deve procurar ajuda profissional. Uma ajuda que vem da fitoterapia, que pode contribuir bastante, são os adaptógenos (o principal representante é o ginseng).

Clinicamente, as ações terapêuticas dos adaptógenos compreendem o aumento da atenção e da resistência à fadiga, além de reduzir os prejuízos e transtornos relacionados ao estresse. Adaptógenos não são considerados estimulantes, mas, sim, moduladores da resposta, tanto da suprarrenal, quanto do sistema nervoso autônomo – o que permite um aumento da resistência física e psíquica ao estresse. Na área psíquica, os adaptógenos reduzem os prejuízos causados pelo estresse, e ainda melhoram a cognição e a memória. Os adaptógenos podem ser de grande ajuda, porém, a associação com melhoras no estilo de vida são primordiais.

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