Recontada por Lu Dias Carvalho

Muitos e muitos anos atrás, todos os índios de certa tribo amazônica viviam na mais harmoniosa paz. O cacique era um homem de bom coração, admirado por todos, mas irredutível no que diz respeito aos bons costumes de seu povo. Sua família também era muito generosa e de boa conduta, a quem foi ensinado o respeito às pessoas, aos bichos e a todas as coisas da natureza. Dentre os cinco filhos do chefe, só havia uma menina, trabalhadora como a mãe e muito admirada pela tribo.
Certo dia, ao observar as mudanças no corpo da filha, a mãe notou que ela estava prenhe. Imediatamente dividiu a notícia com o cacique, seu marido. À moça foi imposta o dever de revelar o nome do pai do rebento que estaria por vir, mas tudo em vão, pois ela jurava não ter tido relação sexual com homem algum. Mas no saber do morubixaba era preciso a semente de um homem para emprenhar uma mulher. Se ela não queria tornar conhecido o infrator, a fim de castigá-lo, seria preciso matá-la, para não desonrar os costumes antiquíssimos da tribo, que rezavam que o rapaz devia sempre pedir ao pai a mão de sua filha em casamento.
Na noite em que antecedeu o dia marcado para o sacrifício da jovem índia, o cacique, muito pesaroso, recebeu, em sonho, a visita de um homem diferente, dizendo-lhe que sua filha era inocente, e, que não deveria ser morta, pois falava a mais pura verdade. Temeroso com o aviso recebido, o morubixaba contou o ocorrido à tribo, sendo o sacrifício esquecido, segundo a anuência de todos. Assim, livre de qualquer empecilho, a gravidez da jovem índia transcorreu na mais perfeita normalidade.
Mandi nasceu com a pele branca como o leite de égua e os cabelos dourados como as espigas de milho sob o sol equatorial, algo nunca visto na história da tribo. Os índios mais idosos, amedrontados, viram nisso um mau presságio. Alguma coisa ruim estaria para acontecer ao povo e às plantações. Para evitá-la, pensaram eles, seria necessário matar a recém-nascida. Mas o cacique, ainda se lembrando do sonho que tivera, disse a seu povo que os bons espíritos exigiram que a garotinha permanecesse entre eles, sendo muito bem tratada por todos. E assim aconteceu.
A criança, à medida que crescia, tornava-se cada vez mais amorosa e bela como as flores da floresta. Era amada por sua tribo, encantando a todos. Só que um dia, inesperadamente, ela morreu, como se fosse um passarinho. Ninguém sabia o motivo. Todos a choraram dia e noite. E, para alegrar o coração de seu inconsolável avô, seu corpinho foi enterrado na pequena praça do interior da taba, bem pertinho de sua maloca, onde ele poderia chorá-la sempre que se sentisse triste.
Certo dia, o cacique notou a presença de uma plantinha, regada com suas lágrimas, onde fora enterrada Mandi. Alguns dias depois, deparou-se com fortes raízes, que levantavam a terra para sentirem a luz do sol. Por fora, elas traziam uma casca preta, mas por dentro tinham a mesma cor da pele da pequenina Mandi. A aldeia entrou em festa, com todos compartilhando aquela deliciosa iguaria, que foi transformada em beijus, farinhas, mingaus e cauim. Ela recebeu o nome de “mandioca” que significa “a casa de Mandi” ou o “corpo de Mandi“. A mandioca não apenas passou a fazer parte da alimentação das aldeias, como também tomou parte na mesa de todos os brasileiros. Tem, inclusive, outros nomes como aipi, aipim, uaipi, macaxeira, maniva, maniveira, pão-de-pobre, etc.
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