ONDE FOI PARAR O BEIJA-FLOR?

Autoria de Hely Pamplona

beija tenis
A fotografia exige que o profissional esteja sempre com os olhos abertos para captar, com seus cliques, o inusitado, pois, as coisas acontecem quando menos se espera. A máquina a tiracolo deve estar sempre engatilhada, pois, num segundo, toda a cena pode mudar.

 Estava eu andando pelas ruas de minha cidade, Belém, em busca de algo novo para fotografar. Meus olhos moviam-se desordenadamente na captura de um bom flagrante da natureza. Cansado, pois já era meio-dia, parei em um bar para tomar uma água mineral. Como se atraído por uma força magnética, fui até à porta e, não sei bem o porquê, meus olhos foram guiados para o alto. E foi aí que vislumbrei a improvável cena.

 Num fio negro de luz, estava dependurado um velho par de tênis , abandonado por seu antigo dono, pois, parecia não mais lhe oferecer serventia alguma. Vê-se que o pé mais alto já está soltando a sola, atrás. Mas um bichinho achou que, para ele, ainda era de muita valia, descansando sossegadamente no peito de um dos pés, com a cabecinha direcionada para o horizonte azul.

 O beija-flor, pássaro que se alimenta basicamente do néctar de flores, embora pouco incomum àquele tipo de lugar, acabou se interagindo com um objeto humano, ao aproveitar o velho par de tênis como descanso e observatório.

 Dentre as muitas fotos que tirei da cena, uma foi parar na capa de uma revista local. Aquela avezinha esperta fez com que eu ganhasse o dia.

Foto do autor
Contato: helypamplona@hotmail.com

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O BICHO-PREGUIÇA

Autoria de Antônio Messias Costa

preguicas

 A palavra “preguiça” nos reporta à falta de vontade para fazer qualquer coisa, morosidade e desmotivação para se movimentar.  Nossa primeira ideia seria a de que dificilmente um bichinho, com todos estes atributos, sobreviveria às várias ameaças que a floresta impõe. Mas não é bem assim ou é quase assim. A preguiça é um animal extremamente frágil, de respiração lenta e tem todas as justificativas para ser como é, ou seja, não é preguiçoso, mas extremamente econômico, fazendo o uso de suas poucas energias, chegando mesmo a dormir até 14 horas, quando a temperatura cai.

 Diferentemente da maioria dos mamíferos, a temperatura desse animal é muito baixa, o que o impossibilita de tremer para produzir calor. Quando a temperatura externa cai, a preguiça fica em estado de letargia e, quando se eleva, o animal vai aos poucos se ativando, lembrando-nos os répteis. Quando sob ameaça, fica simplesmente paralisado. Sob estresse, a preguiça é altamente suscetível a problemas respiratórios, vindo a óbito com facilidade.

 Existem duas espécies de preguiças de dois dedos, denominadas preguiça-real, que são as mais resistentes e podem chegar até 9 quilos. As outras quatro espécies, todas com três dedos anteriores, são extremamente frágeis, alimentando-se basicamente de folhas, brotos e frutos imaturos, e podem chegar a 4 kg. Curiosamente, existe a preguiça pigméia, também com três dedos no membro anterior, mas com a metade do tamanho das outras do mesmo gênero, isolada das áreas de ocorrências das demais espécies, existente na Ilha do Caribe. Este fato leva-nos a compreender as alterações geológicas e climáticas dos continentes, que levaram ao isolamento dos animais e à formação de novas espécies, através dos milhares de anos.

 Ao cair das árvores, a preguiça encurva o pescoço como uma bola, e dificilmente se machuca quando cai no chão da floresta. E se está com filhotes, esses ficam agarrados em seu peito, evitando assim que traumatismos aconteçam. Seus ancestrais eram iguaizinhos aos indivíduos atuais, só que gigantescos, atingindo até 500 kg. Curiosamente, a preguiça raramente cai das árvores, graças aos seus fortes tendões fixos em grandes unhas. Até mesmo quando morta, ela pode passar várias semanas dependurada.

 O bicho preguiça é um fantástico exemplo de economia e de adaptação à vida na floresta, consumindo basicamente folhas, pobre em energia, daí o seu baixo metabolismo, tornando-a dependente do calor externo para aumentá-lo. É um animalzinho muito interessante e injustamente chamado de preguiçoso. Passa o maior tempo de sua vida nas árvores, onde se alimenta, reproduz e se esconde, camuflada pelas algas alojadas em seu corpo provido de pouca massa muscular, longos braços e unhas, pelos e diminuta cauda.

 A preguiça desce ao pé da árvore ou toca na superfície de rio ou lago, apenas uma vez por semana, para defecar, estimulada pela refrigeração da sua pseudo-cloaca (genital externo parecido com o das aves) e seu anus. O seu sistema digestivo lembra-nos o da vaca, com câmaras fermentativas, onde o alimento continua verdinho, mas ela não rumina. Gira sua cabeça a mais de 270 graus para olhar e alcançar as tenras folhas, inflorescências, frutos imaturos, base de sua alimentação.

 Por ser tão frágil e vagarosa, a preguiça é vitima fácil, principalmente na época de queimadas. Pelo estresse de captura e transporte, ela tem seu estado imunológico comprometido, morrendo quase sempre de problemas respiratórios.

Nota: Foto do autor

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A FLORESTA AMAZÔNICA

Autoria de Lu Dias Carvalho

Amazonia

A Amazônia compreende a região formada pela bacia do Rio Amazonas, encoberta pela exuberante Floresta Amazônica. Trata-se da maior região florestal e hidrográfica do mundo. É de suma importância para a vida no planeta, recebendo, inclusive, o apelido de “O Pulmão do Mundo”. É considerada como uma das 7 Novas Maravilhas da Natureza, classificada em primeiro lugar no Grupo E, na categoria de florestas, parques nacionais e reservas naturais. Possui uma área de cerca de 7,5 milhões de quilômetros quadrados. Os colonizadores europeus chegaram à Amazônia no século XVI. Ainda assim, a região permaneceu praticamente intata até o início do século XX.

A Floresta Amazônica, floresta tropical que se estende pela maior parte da bacia Amazônica, no continente sul-americano, estende-se pelo Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Sua maior parte encontra-se em solo brasileiro, 66%, o que corresponde a 42% de nosso território, estendendo-se pelos estados do Amazonas, Pará, Acre, Amapá, Rondônia, Roraima, Maranhão, Tocantins e Mato Grosso. Constitui um dos seis grandes biomas de nosso país: Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pampa e Pantanal.

O valor da Amazônia é inestimável, pois compreende mais da metade das florestas tropicais restantes no planeta, e 1/3 das reservas florestais da Terra. E o Rio Amazonas, sozinho, corresponde a 1/5 de toda a água doce líquida de nosso planeta, formando a maior bacia hidrográfica do mundo. Sem falar na riqueza de sua biodiversidade.

O nome do Rio Amazonas foi dado pelo espanhol Francisco de Orellana, que, ao ser atacado por índios, pensou se tratar de mulheres guerreiras. É, portanto, uma derivação de “amazonas”, mulheres guerreiras de que fala a mitologia grega.

Segundo pesquisas arqueológicas, a presença humana deve ter se estabelecido na região Amazônica, há, pelo menos, 11.200 anos atrás. Seu solo é muito pobre para a agricultura. Possui um clima quente e úmido, em razão de sua proximidade com a Linha do Equador. A temperatura ali, 26ºC, varia muito pouco durante o ano. As chuvas são abundantes, tendo o seu período chuvoso uma duração de seis meses.

Embora possua um solo muito pobre, composto por uma fina camada de nutrientes, a Floresta Amazônica possui uma exuberante flora e uma fauna invejável. Só para se ter uma ideia de sua riqueza, uma em cada dez espécies conhecidas em todo o planeta vive nessa floresta, formando a maior coleção de espécimes de animais e de plantas vivas da Terra.

A Amazônia ainda é um dos poucos lugares na Terra, onde se encontram povos primitivos. Tais tribos espalham-se pela floresta, onde o acesso é dificílimo, o que possibilita que cada uma delas continue mantendo sua cultura inalterada. Estudiosos da região acreditam que ainda possa haver tribos desconhecidas, vivendo em regiões inacessíveis, que não tiveram nenhum contato com a civilização.

 Curiosidades:

 A Amazônia é também chamada de Floresta Amazônica, Selva Amazônica, Floresta Equatorial da Amazônia, Floresta Pluvial ou Hileia Amazônica.

  • A fauna e flora amazônicas foram descritas no impressionante Flora Brasiliensis (15 volumes), de Carl von Martius, naturalista austríaco que dedicou boa parte de sua vida à pesquisa da Amazônia, no século XIX.
  • A dificuldade para a entrada de luz, em razão da abundância de copas, faz com que a vegetação rasteira seja muito escassa na Amazônia, assim como os animais que habitam o solo e precisam dessa vegetação.
  • A maior parte da fauna amazônica é composta por animais que habitam as copas das árvores, cuja altura fica entre 30 e 50 metros.
  • A dificuldade de acesso às altas copas faz com que grande parte da fauna ainda seja desconhecida.
  • O desmatamento na Amazônia ameaça muitas espécies. Sendo suas principais causas os assentamentos humanos e o uso da terra para a agricultura, embora o solo seja produtivo apenas por um curto período de tempo, o que faz com que os agricultores estejam constantemente mudando-se para novas áreas e desmatando outras partes da floresta.

(*) Foto copiada de http://www.espacoturismo.com/aventura/turismo-na-floresta-amazonica

 Fontes de pesquisa:

http://www.webciencia.com/17_intro.htm

http://www.brasil-turismo.com/amazonia.htm

Wikipédia

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UM PIRÃO DE GULA E TRAIÇÃO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Meu amigo Samuel, nome fictício, pôs-se ontem a se lembrar de certas passagens de sua vida. E, como senti que ele estava tão para baixo quanto o céu plúmbeo daquela tarde, fiz-me toda ouvidos. Dentre as muitas histórias, uma me deixou em frangalhos.

Estava ele com sete anos de idade, quando o pai luxurioso caiu de amores por uma sirigaita, abandonando a esposa e uma penca de cinco filhos. Sua mãe, revoltada, ruminava vergonha e ódio por todos os poros. Já havia visitado pomba-gira, tranca-ruas e seu séqüito. E, nesse nefasto dia, estava recebendo a visita de uma cartomante de muita fama e valia nas redondezas, em coisas do coração.

A pitonisa chegara cedo à sua casa, pronta para filar a bóia da pobre mulher de coração esfacelado, mas ainda lutando para trazer o sujeito de seu sofrimento de volta. A egrégia visita foi a primeira a servir o prato no fogão à lenha. A mãe, vitimada pelo desamor, fez um prato para cada filho, recusando-se a comer.

Samuel, sempre bom de garfo, acabou de comer primeiro de que a insigne ledora de cartas. Como a comida, feita no capricho para agradar a dona do destino da mãe, estivesse uma gostosura, ele pediu humildemente:

– Mãe, eu quero mais!

Sua mãe fez ouvidos moucos, dando o pedido por não feito, preocupada em agradar aquela que pensava dona de seu destino. Bom seria para o coitadinho, se a história parasse por aqui. Mas não, o pior estaria por vir.

Assim que a sibila saiu, deixando grande desconsolo ao dizer, que o traidor não voltaria tão cedo, a menos que se fizesse tal e tal trabalho, a mãe do Samuel pegou uma enorme bacia de alumínio e despejou nela toda a comida que havia nas panelas. E gritou

– Samuel, moleque guloso, venha aqui! Vai comer tudo, para aprender a ter educação na frente de visita.

A mãe enlouquecida colocou a bacia, cheia de comida até às bordas, no seu colo, enquanto ele tinha os olhos esbugalhados de surpresa e medo. Foi comendo, comendo, comendo, até perder a noção do que fazia, com arroz e feijão espalhando-se por todo lado. Poucas horas depois, começou a vomitar e a ter diarreia. O pequeno banheiro tornou-se fétido e o ar se encarregou de levar o cheiro para a pequena casa e o quarto, onde a mãe dormia meio ébria.

Sua mãe acordou com o mau cheiro e seu choro, e ficou mais colérica ainda, ao ver a sujeira do banheiro. Pegou o cinto que o marido infiel havia deixado em casa e começou a bater nele, talvez pensando que estivesse subjugando o traiçoeiro marido. Chegou até mesmo a chamá-lo pelo nome do pai.

Foi impossível conter o choro de Carlos, apesar dos quarenta e dois anos que o separavam de tal acontecimento. Penso que trazia aquela cena vívida em sua memória. Espero que suas lágrimas tenham lhe lavado a alma para sempre.

Ele me confessou antes de ir embora:

– Minha mãe morreu louca. Louca de amor por meu pai.

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UM GAROTINHO MUITO ESPECIAL

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Ian é um garotinho falante, de cabelos dourados, rostinho redondo e olhos claros que captam tudo em derredor. Extremamente gentil e carinhoso, ainda nos seus cinco aninhos, pôs-se a me ensinar muitas coisas sobre a natureza e a vida, num português impecável para a sua idade, enquanto os adultos presentes entranhavam numa animada conversa. Ian e eu éramos carta fora do baralho na conversa, por isso, resolvemos, como Alice no País das Maravilhas, buscar o nosso próprio cantinho. E foi assim que recebi as mais sábias lições de minha vida, que ora tenho o prazer de dividir com meus leitores.

  • Quem gosta dos animais não pode comer carne de nenhum deles, pois matar um animal é muita maldade, embora pernilongo a gente possa matar, porque ele pica as pessoas. O escorpião também pode matar, pois ele fica escondido em toda parte e é muito venenoso.
  • O piolho de cobra parece um ferrinho enferrujado, mas quando a gente mexe no ferrinho, fica parecendo uma lagarta, mas não é uma lagarta. O piolho de cobra não fica na cabeça da cobra, todo mundo precisa saber, para não fazer confusão. É preciso tomar muito cuidado, quando vir um bichinho desses, pois ele é muito mau.
  • A ararinha azul está acabando no nosso planeta. Quem tiver um animal em casa, tem que fechar todas as portas e janelas, para não pegarem o animalzinho e ele entrar em extinção. É preciso ter muito cuidado. Não adianta depois ficar chorando porque ele entrou em extinção.
  • Acreditem! Na Disney, onde foi quando era pequeno, eles vendem bichos em extinção: grilo, escorpião, mosca e abelha. Eles tinham um buraquinho na barriga. Deviam estar todos mortos, mas ele não tinha certeza.
  • Na sua casa, possui três cachorros: Filhinha, Neném e Elisinha. Seus cachorros adoram-no, menos a Neném que não gosta de carinho. Ela corre dele para não receber carinho. Mas a Filhinha adora cafuné. Ele não sabe se todas as pessoas tratam bem os animais, mas ele, Naldo (pai) e a Mamis (mãe) gostam muito: “A gente amamos os três cachorrinhos”. Um cãozinho seu foi atropelado. Ele não se lembra, se ele era menino ou menina. E outro morreu de doença que mata.
  • Os dinossauros estavam vivendo tanto que caiu uma pedra muito grande, alguns falam que era um meteoro que matou todos eles, mas ele não tem certeza disso. Nessa era, a gente… as pessoas moravam em cavernas. E, quando caiu a pedra, a Terra foi mudando, mudando e foi virando Terra de muitas e muitas pessoas. Mas os dinossauros nunca mais voltaram, porque eles ficaram em extinção, mas outros animais apareceram. É preciso protegê-los para que não aconteça o mesmo que aconteceu aos dinossauros. A Terra sem os animais seria muito feia e triste. Ninguém iria gostar.
  • Perto de sua escola ele viu homens cortando algumas árvores. Só sobraram uns círculos com umas bolinhas. É bem provável que eles estão cortando as árvores para fazer boliche, pois é com madeira que se faz boliche.
  • As pessoas que maltratam os animais e as plantas são pessoas más. Quando alguém arranca uma flor, a planta e a flor choram baixinho, mas ninguém escuta. Elas choram de verdade no coração. Quando a gente encontra um homem maltratando a natureza tem que falar assim: – Homem, vai embora daqui, senão a natureza vai acabar e a gente não vai ter árvores e bichos e tudo vai ficar muito triste.
  • A água é importante porque ela hidrata nosso corpo. A gente pode tomar pequena água, média água ou grande água, como quiser. Mas se ficar muito tempo sem tomar água, a gente morre e vai ficar num caixote. Ele descobriu isso num livro de múmia. E é tudo verdade!
  • Quando alguém joga lixo na rua ou na água, precisa chamar a polícia, pois o lixo causa muitas doenças. Tudo tem que ficar muito limpo.
  • Quem passa hidratante no corpo não fica velho, não deixa o sol queimar o corpo e não morre nunca. Por isso, ele tem um creme hidratante gigantesco, mas não pense que chega até o céu. Se você deixar de passar o creme um dia só não tem problema, mas não pode se esquecer de passar depois. Quando um creme acaba, já tem que ter outro para passar. Isso é muito importante, sabiam? O seu bisavô morreu, quando ele estava pequeno. Ele morreu porque não passou creme hidratante. Ele acha que agora ele mora no céu.

Depois de toda a explanação, Ian resolveu voltar às suas peripécias: correu pela grama, brincou com as duas cadelinhas, foi até o riacho e pôs seu igloo (feito de plástico) na cabeça, procurando um lugar propício. Mas nenhum lugar servia para ele se acomodar. Era na verdade um pequeno e sábio nômade, muito, mas muito fofo.

Nós, sempre que possível, devemos reservar um tempo para conversar com as crianças. Elas são capazes de nos revelar um mundo cheio de encantamento e sabedoria, na sua ingenuidade. Obrigada, pequeno Ian, por me ensinar coisas tão maravilhosas. Com certeza, não irei me esquecer do hidratante, pois não quero ficar velha nunca.

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PARÁGRAFOS DA VIDA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A mulher esquisita chegou com sua cara de cera e com seus olhos de jabuticabas grandes, como se carregasse na alma toda a candura do mundo. E, com jeito, nalgumas vezes, e, sem jeito em outras, foi fuçando a minha vida de cabo a rabo, sem que eu mesmo notasse o quanto me enredava com sua mascarada altivez. Entrou na minha casa, tomou do meu vinho e dormiu na minha cama. Até que um dia, ela sumiu, assim como chegou, graças a Deus.

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Eu sempre soube que ele era muito mais menina do que menino. E, não sei o porquê, sempre se esforçava para mostrar aquilo que não era. Eu ouvia suas histórias de conquistas amorosas em que João era Maria. Por dentro eu ria da sua tolice, pois tudo em derredor conspirava contra o forte masculino que ele pensava carregar. Certo dia, o seu feminino alcoolizou-se em demasia e botou o frágil masculino para correr. O mais interessante é que ele nunca soube disso e continua a brigar com as aparências, enquanto eu finjo que não sei o que sempre soube.

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O rapaz donairoso era extremamente seguro de si. Tinha certeza de sua beleza e da simpatia que despertava nas garotas. Mas sua segurança só durou até o dia em que a esposa escolhida plantou-lhe dois chifres nos cabelos de ébano. Feitos os arranjos do separa ou não separa, optou o casal por prosseguir a união amargamente golpeada, optando para o sobrenatural para explicar a continuidade da relação. A família do dito, que adorava comentar a vida dos outros, virou uma ostra. Enquanto isso, o segredo tão bem guardado, vai correndo de boca a boca.

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Ela nunca se deu conta de que o tempo passava para todos os seres viventes. Imaginava que seria jovem para todo o sempre. Seu sonho era se casar com um caminhoneiro e viajar pelo mundo, mesmo tendo que atravessar o Pacífico e o Atlântico. Desfez-se do marido, botou os filhos no mundo e se embelecou com um cowboy sem cavalo ou boi. Hoje, vive plantada onde nasceu, olhando a vida passar.

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Aquela carinha fina manchada de micose escondia muito mais do que humildade. Carregava um esforço danado para subir na vida. Lia e lia nas horas vagas e nas horas ocupadas também. Ele sempre contou com meu apoio e carinho. E assim foi o mocinho subindo degrau por degrau. E subiu tanto (muito mais em sua imaginação), que nem me conhece mais, tamanha ficou a distância entre os degraus de sua escada e os da minha.

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Ela queria um marido rico, bonito e doutor. Quando o candidato tinha uma das qualidades, faltava-lhe as outras duas. E se tinha as duas, faltava-lhe mais uma. Enquanto esperava, ela foi ficando sozinha e terrivelmente azeda. Mas continua esperando o milagre de encontrar seu três em um. Bom seria, se isso acontecesse, pelo menos, os que vivem em seu derredor estariam salvos de seu azedume.

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A falsa mulher nasceu híbrida de galega e ruiva, com seus cabelos da cor de coisa nenhuma, tamanha era a mistura de tintas que nele carregava. Abri-lhe a minha casa por quase dois anos, enquanto tratava o seu mais novo rebento. Mas ela, por fora era bela viola e por dentro pão bolorento. Matou-me as amizades mais queridas, enquanto seu filho curou-se por completo. Graças a Deus!

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Ele já nasceu ególatra. Sua palavra principal era “eu”. Sempre dominava a conversa, com um monólogo transvestido de diálogo. E, se lhe opunham ou falavam mais do que julgava necessário, logo soltava o comuníssimo “quer discutir comigo…?”. Ele sabia tudo de tudo, ou melhor, pensava que sabia. Nunca teve a família próxima em alta estima, mas tinha uma grande afeição pelos de fora. Ofertava-lhes as fibras do coração. Até que um dia, cansada de tanta verborragia, eu me emudeci para deixá-lo falando sozinho.

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Aquela mulher era uma doidivanas, percebi isso logo que nos conhecemos, pois no primeiro encontro eu já sabia tudo sobre sua vida. Mesmo assim, fomos tocando uma suposta amizade, onde eu estava sempre com um pé atrás. Os seus parafusos soltos faziam-na trocar alhos por bugalhos. Não sei como conseguiu aquela arte medonha de inverter a compreensão de tudo que via ou ouvia. Ela fazia parte de um mundo em que pessoas e coisas funcionavam ao contrário. Um dia, cansei-me dela e pus os dois pés atrás.

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Eu sempre o achei parecido com um pombo, com seu peito estufado e com o topete sempre emplumado. E, por bizarra coincidência, era exatamente o perfil de sua personalidade. Homem dito representante de Deus na Terra mais parecia o mensageiro da estupidez e da arrogância. E foi assim que matei a minha fé na Igreja, qualquer que seja ela, embora continue amando os pombos.

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A velha senhora continuava louca por cristais, gente rica e diplomada. Cansava os ouvidos falar com ela, pois era sempre a mesma ladainha. O seu pequeno porte escondia o tamanho de sua ambição. E bem maior do que tudo isso era o tamanho da língua, que sempre se esquecia de que era coberta por telhado de vidro. Certo dia, cansada de ouvir tanta asneira, chutei o pau da barraca. Hoje ela me conserva na sua peçonha, dentro de um dos seus apetrechos de cristal. Gracias!

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