Arquivos da categoria: Crônicas

Abrangem os mais diversos assuntos.

O GRANDE “PIÃO” TERRESTRE (II)

Autoria do Prof. Rodolpho Caniato

A Precessão dos Equinócios

Os gregos foram em boa parte “herdeiros” da cultura babilônica, mas foram muito além e foram os primeiros a sistematizar o conhecimento que haviam herdado. A escola de Alexandria reuniu e ampliou muito toda a cultura herdada do mundo antigo e da cultura grega. Entre os grandes sábios ligados a esse grande centro situado no delta do Nilo, esteve Hyparco (146-127aC), considerado o “pai” da Astronomia. Quando ele ainda era muito jovem, os astrônomos assinalaram o aparecimento de uma “nova” (134 aC) estrela: uma estrela que nunca havia sido percebida antes: uma “nova” ou uma “super nova”. Estabeleceu-se então uma polêmica sobre esse tema: a imutabilidade do céu. As estrelas do céu são sempre as mesmas ou é possível o aparecimento de estrelas “novas”? Isso parece ter sido um estímulo para que aquele grande astrônomo grego se pusesse a fazer o primeiro e mais completo catálogo de estrelas.

Nunca antes no mundo antigo e ainda por muitos séculos depois, havia sido feito um catálogo tão completo e com tamanha precisão nas posições e brilho aparente das estrelas. Nesse trabalho, Hyparco notou que o ponto equinocial, o ponto em que o Sol cruza o equador celeste, havia mudado em relação à posição relatada nos conhecimentos que vinham desde os antigos babilônios. Isso mudava um pouco as coordenadas das estrelas. Era preciso verificar se e quanto essas coordenadas haviam mudado. Hyparco então comparou as posições das estrelas em relação ao ponto equinocial de seu tempo, com as posições estudadas e registradas 150 anos antes por outro importante sábio de Alexandria chamado Timócaris.

As medidas de Hyparco indicavam que o ponto de origem da contagem da posição das estrelas, o ponto equnocial  havia se deslocado de cerca de 2o (ângulo de dois graus) naqueles 150 anos passados.  Isso dava um deslocamento de cerca 120´ ( 2o = 120 minutos de ângulo) em 150 anos, ou seja, pouco menos de 1` ou 60´´ por ano. O valor de Hyparco para esse deslocamento foi de 46´´por ano. Estava descoberta a precessão dos equinócios, o deslocamento do ponto equinocial, bem próximo do valor conhecido hoje pela Astronomia, que é de 50´´,26 segundos de arco por ano. Embora caiba a Hyparco a glória da descoberta do fato, ainda permaneceria desconhecida por muitos séculos a causa para esse deslocamento. Isso só se tornaria possível depois da descoberta da Gravitação de Isaac Newton, em 1687.

O GRANDE “PIÃO” TERRESTRE (I)

Autoria do Prof. Rodolpho Caniato O Zodíaco

Os babilônios estão entre os povos da antiguidade que mais deixaram sinais de sua observação e conhecimento do céu. Teria sido a legendária Torre de Babel uma tentativa de maior proximidade com o céu? A eles devemos, como tributários da civilização grega, um grande número de contribuições para a observação e estudo do céu. Eles já haviam notado que, enquanto quase todas as estrelas mantinham suas configurações ou posições relativas, algumas pareciam “andar” livremente entre as constelações, mas dentro dos limites de uma faixa ao redor do “caminho” do Sol: eram umas “estrelas errantes”, os planetas, que logo foram associados a divindades.

O “caminho” do Sol passando em frente ás constelações, ao longo do ano, é o que hoje conhecemos como eclíptica. A faixa ao longo da eclíptica, por onde sempre andam os planetas, foi por eles dividida em doze partes iguais. Cada pedaço dessa faixa recebeu o nome de uma constelação, um “signo”. Essa é resumidamente a origem do que chamamos de zodíaco. O zodíaco é o caminho que o Sol e os planetas aparentemente percorrem contra o fundo das estrelas fixas no decorrer de um ano. Cada uma das partes do zodíaco foi nomeada com uma figura sugerida pela configuração de estrelas, segundo a visão e imaginação deles. Muitas dessas denominações se mantêm até hoje.

Ainda os babilônios haviam percebido que o Sol repete todos os anos esse mesmo caminho e que isso marcava as estações ou modificações de seu clima, os “cenários” da região. Eles também haviam percebido que o “caminho” do Sol por entre as estrelas, duas vezes por ano cortava ou cruzava o “meio de céu”, o equador celeste. Esses pontos já eram por eles conhecidos: os equinócios, dias em que o dia claro fica com a mesma duração da noite. Com isso, as posições do Sol sobre determinada constelação foram associados às estações, as mudanças de aspecto da Natureza. Com o passar de alguns séculos ficou perceptível que ponto equinocial, o cruzamento do Sol pelo Equador Celeste havia mudado um pouco: o Sol cruzava o Equador Celeste em um ponto um pouco diferente daquele em que o fazia alguns séculos antes.

Nota: imagem copiada de Destino y tarot

TERRA: É ALI QUE VIVEMOS…

Autoria de Carl Edward Sagan

A maior grandeza do HOMEM está em ser capaz de entender e admitir sua pequenez e insignificância diante da magnitude do UNIVERSO. (Prof. Rodolpho Caniato)

 Deste ponto de vista, nossa obsessão com nacionalismo não aparece em evidência. Nós somos muito pequenos. Na escala dos mundos, humanos são irrelevantes, uma fina película de vida num obscuro e solitário torrão de rocha e metal. (Carl E. Sagan)

Talvez, não haja melhor demonstração das tolices e vaidades humanas que essa imagem distante do nosso pequeno mundo. Ela enfatiza nossa responsabilidade de tratarmos melhor uns aos outros, e de preservar e estimar o único lar que nós conhecemos: o pálido ponto azul. (Carl E. Sagan)

A espaçonave estava bem longe de casa. Eu pensei que seria uma boa ideia, logo depois de Saturno, fazê-la dar uma última olhada em direção de casa.

De Saturno, a Terra apareceria muito pequena para a Voyager apanhar qualquer detalhe, nosso planeta seria apenas um ponto de luz, um “pixel” solitário, dificilmente distinguível de muitos outros pontos de luz que a Voyager avistaria: planetas vizinhos e sóis distantes, mas justamente por causa dessa imprecisão de nosso mundo assim revelado, valeria a pena ter tal fotografia. Já havia sido bem entendido por cientistas e filósofos da antiguidade clássica que a Terra era um mero ponto de luz em um vasto cosmos circundante, mas ninguém jamais a tinha visto assim. Aqui estava nossa primeira chance e talvez a nossa última nas próximas décadas.

Então, aqui está um mosaico quadriculado estendido em cima dos planetas e um fundo pontilhado de estrelas distantes. Por causa do reflexo da luz do sol na espaçonave, a Terra parece estar apoiada em um raio de sol, como se houvesse alguma importância especial para este pequeno mundo, mas é apenas um acidente de geometria e ótica. Não há nenhum sinal de humanos nessa foto. Nem nossas modificações da superfície da Terra, nem nossas máquinas, nem nós mesmos. Desse ponto de vista, nossa obsessão com nacionalismo não aparece em evidência. Nós somos muito pequenos. Na escala dos mundos, humanos são irrelevantes, uma fina película de vida num obscuro e solitário torrão de rocha e metal.

Considere novamente esse ponto. É aqui. É nosso lar. Somos nós. Nele, todos que você ama, todos que você conhece, todos de quem você já ouviu falar, todo ser humano que já existiu, viveram suas vidas. A totalidade de nossas alegrias e sofrimentos, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e saqueador, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e plebeu, cada casal apaixonado, cada mãe e pai, crianças esperançosas, inventores e exploradores, cada educador, cada político corrupto, cada “superstar”, cada “líder supremo”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali, em um grão de poeira suspenso em um raio de sol.

A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pense nas infindáveis crueldades infringidas pelos habitantes de um canto desse pixel, nos quase imperceptíveis habitantes de outro canto, o quão frequentemente seus mal-entendidos, o quanto sua ânsia por se matarem, e o quão fervorosamente eles se odeiam. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, em sua gloria e triunfo pudessem se tornar os mestres momentâneos de uma fração de um ponto. Nossas atitudes, nossa imaginaria importância, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo, é desafiada por esse pálido ponto de luz.

Nosso planeta é um espécime solitário na grande e envolvente escuridão cósmica. Na nossa obscuridade, em toda essa vastidão, não há nenhum indício que ajuda possa vir de outro lugar para nos salvar de nós mesmos. A Terra é o único mundo conhecido até agora que sustenta vida. Não há lugar nenhum, pelo menos no futuro próximo, no qual nossa espécie possa migrar. Visitar, talvez, se estabelecer, ainda não. Goste ou não, por enquanto, a Terra é onde estamos estabelecidos.

Foi dito que a astronomia é uma experiência que traz humildade e constrói o caráter. Talvez, não haja melhor demonstração das tolices e vaidades humanas que essa imagem distante do nosso pequeno mundo. Ela enfatiza nossa responsabilidade de tratarmos melhor uns aos outros, e de preservar e estimar o único lar que nós conhecemos: o pálido ponto azul.

O BRASIL E SEUS FALSOS HERÓIS

Adevaldo Rodrigues de Souza

Aquele homem era um depósito de calma, generosidade e compaixão, entretanto, teve uma noite tumultuada em que o desgosto varria tudo. O relógio de parede, herança de várias gerações, marcava o compasso de seus pensamentos, sempre voltados para os noticiários da mídia nacional. Bebeu um copo de água e tentou dormir, mas não conseguia adormecer. Sua mente permanecia com aquela cena marcante: um famoso político morto dentro de um caixão, sendo levado pelo carro do Corpo de Bombeiros, aplaudido por uma multidão, como se fosse um herói nacional. Para compor e impactar o espetáculo, certa rede de televisão adicionou uma música do cantor Milton Nascimento, como se a vida fosse uma peça de teatro que permitisse ensaios após a morte. A encenação cruel e demagógica da mídia levou à comoção toda uma nação despreparada e ingênua.

Aquele homem teve uma noite mal dormida em meio a sobressaltos e pesadelos. Levantou-se cedo, tomou um banho quente e, após o desjejum, deitou-se na velha rede armada na varanda de sua casa.  Queria parar de pensar e mergulhar-se no mais profundo silêncio, mas não conseguia. Os passos firmes e apressados de um vizinho chamou-lhe a atenção. O homem cumprimentou-o com um sorriso acanhado e disse-lhe: “Viu o noticiário de ontem, ‘fulano’ mereceu aquela homenagem, ele foi um herói, e isso faz a gente ficar satisfeita e trabalhar com mais entusiasmo.” O  pensador sentiu-se ainda mais entristecido.

 No fundo da mente do homem reflexivo descortinou-se a verdade: a cenografia montada estava materializando-se no imaginário popular, levando o povo a sofrer com aquela representação grotesca. A “encenação” da mídia tinha um motivo lógico: criar um herói, mesmo que fosse uma figura ilusória. O Brasil necessitava de um mito para conservar o poder dominante, naquele momento. Se fosse criado um personagem, ainda que mitológico, esse iria satisfazer as nostalgias secretas dos cidadãos diante das agruras sofridas. Poria um fim – ainda que ilusoriamente – ao sofrimento, ao medo, ao desemprego, à fome e à violência, dentre outros problemas vigentes no país. Para os criadores de heróis, a vida seria um teatro, mesmo que sem roteiro, onde as pessoas entram e saem de cena usando o mesmo figurino, maquiagem e sonoplastia, e a peça é sempre a mesma, pois a mentira, o engodo e a corrupção continuam empobrecendo o país e seus filhos mais carentes, enquanto enriquece os “afortunados” pelo poder político, os agraciados pela mídia.

O homem lembrou-se de outros fatos da história de seu país, como a construção de seus heróis, assim como o ostracismo relegado àqueles que realmente trabalharam em prol de sua grandeza. Um deles foi o título ofertado ao pseudo-herói Duque de Caxias, considerado um sanguinário na Guerra do Paraguai, mas que voltou como um mito nacional. Por outro lado, a importância dada ao grande estadista Teófilo Benedito Otoni na história oficial do país, levando em conta seu espírito pioneiro e ideias liberais democráticas, foi praticamente nula. Seu nome nem mesmo frequenta as páginas dos livros da história da nação.

Os fatos repassavam na mente do homem pensativo como se fora um filme, uns se antepondo aos outros. E já cansado de tanto vislumbrar mazelas, ele foi sentindo que seu pensamento adormecia lentamente. E sonhou. Sonhou que a peça grotesca daquele teatro bizarro tinha acabado. A cortina fechara-se sem nenhum aplauso, pois a plateia era inteligente e não se deixava mais se manipular. Os diretores foram obrigados a rasgar aquele roteiro nefasto e reescrever uma nova história que revelasse a verdade com maestria e arte. Um novo horizonte abria-se para seu país… E ele continuou a dormir em paz.

O homem acordou-se bem-humorado e com esperança renovada… Mas não demorou a descobrir que a vida no Brasil continuava a mesma. A peça imoral ainda se encontrava em cartaz. Ele então chorou amargamente… Talvez seus netos pudessem, num futuro longínquo, mudar o roteiro. A ele, só restava a vã esperança, a mesma que habita o coração dos retirantes.

Nota: Retirantes, obra de Candido Portinari

OS PRESÉPIOS DE NATAL

Autoria de LuDiasBH

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Nada me encantava mais do que passar o Natal na cidadezinha onde viviam meus avós. Mal entrava dezembro, já começava a azucrinar meus pais para que me dessem a data exata de nossa viagem. Se a demora era muita, implorava para que me deixassem ir à frente, coisa que nunca acontecia, mas que não me custava tentar.

Não pensem os leitores que o meu desassossego devia-se à comilança que se instalava naquele mês, ou para ficar encarapitada com os primos nas árvores frutíferas do pomar ou à beira do forno de biscoitos, provando cada leva que saía fumegando, ou ainda em volta dos tachos de cobre borbulhantes de doces em profusão e das mais diferentes qualidades. O meu encantamento estava bem além do paladar.

A minha fascinação desmedida era pelos presépios. Ia desde a hora em que se preparava o material até o momento em que eram armados e o ritual que se seguia. Primeiro preparavam-se as rochas. Folhas de jornal eram dispersas pelo chão e sobre elas era passado um grude feito de farinha de mandioca, com uma brocha de pintar casa. Imediatamente vinham com o carvão e a malacacheta (mica) moídos e jogados sobre as folhas. Algumas pessoas, em vez de carvão, costumavam usar borra de café. A diferença ficava apenas na cor das rochas: com carvão ficavam bem pretinhas, com borra de café ficavam ocras. O mais importante era a malacacheta que dava o toque final às supostas pedras que ficavam faiscando como se verdadeiras fossem. Depois de lambuzadas, as folhas eram colocadas ao sol. Devia-se ter o cuidado de revirá-las de um lado para o outro, para que ficassem bem secas e resistentes.

Após tudo preparado, vinha a armação do presépio propriamente dita. A sustentação era feita com caixotes ou caixas de papelão. Em volta e subindo pelas paredes (normalmente o presépio era feito tomando-se o ângulo entre duas paredes) vinham as rochas que eram feitas afofando-se a folha de jornal pintada com a mão fechada por dentro, de modo a tomar o formato de uma pedra. Colocavam-nas, uma a uma, bem juntinhas, com pregos ocultos, de modo que se tinha a impressão de estar diante de um alto rochedo. No ponto mais alto era instalada a estrela D’Alva que tinha por fim guiar os três reis magos: Belchior, Baltazar e Gaspar.

A segunda parte era a mais primorosa: arranjar o local da gruta onde nasceria o Menino Jesus. Cerca de 10 dias antes, o arroz já tinha sido plantado em pequenas vasilhas, de jeito que, ao armar o presépio, ele já se encontrava grandinho e verdejante. Os pequeninos vasos eram belamente organizados entre as rochas, como se o arroz ali tivesse nascido. Bacias de musgo também enfeitavam a gruta. Areia fininha e branca era colocada em toda a entrada. No meio, punha-se uma vasilha com água e dentro um espelho, dando a impressão de um lago. No lago eram colocados sapos, peixes, cisnes, patos e outros bichinhos aquáticos.  Fora, na areia, espalhavam-se bois, vacas, carneiros, pombinhos e tudo o mais que fosse bicho. Alguns presépios tinham até os desconhecidos dinossauros.

A manjedoura não podia faltar no presépio, sendo uma peça de fundamental importância. Em volta dela, além dos animaizinhos, havia Maria, José, os reis magos e todos os santos que se tivesse na casa. Alguns presépios eram bem ecumênicos, pois traziam Iemanjá, Buda, Shiva, Super-Homem e outros mais. O Menino Jesus só podia ser colocado depois da Missa do Galo, ou seja, depois da meia-noite, quando a família, reunida, rezava o terço e fechava a cerimônia cantando Noite Feliz. Ação que se repetia até o desmonte do presépio.

Durante o período em que os presépios ficavam montados, grupos da comunidade saíam tocando violão, acordeom e cantando de casa em casa, visitando o Menino Jesus. Após a cantoria, saudando o real dono da festa, havia um gostoso café, acompanhado de queijo, requeijão, biscoitos variados, bolos, broas, queijadinhas, beijus e pão de queijo. Para os chegados aos aperitivos, não faltava uma boa branquinha, assim como quinados e licores diversos. Da casa mais modesta à mais rica, todos eram recebidos com imensa alegria, como se formassem uma só família. Também é impossível me esquecer das pastorinhas que animavam as noites de dezembro e início de janeiro, não apenas na cidade, mas nas roças e sítios, onde ganhavam galinhas, porcos e perus, guardados para a festa final do dia 6 de janeiro.

Quando o desmanche do presépio aproximava-se, os reis magos eram colocados de frente para a saída da gruta, ou seja, de costas para a manjedoura. Para minha tristeza, dia 6 de janeiro era o prazo para que todo aquele encantamento se evaporasse e a vida voltasse ao normal. Restava-me o consolo de que outros natais viriam pela frente. Mas era preciso esperar muito tempo. A tristeza só não era maior porque começavam os preparativos para o Ano Novo, embora eu me revoltasse com a morte de alguns dos animaizinhos representados nos presépios.  Na minha cabeça de criança, eu não conseguia entender, como podiam matar os bichinhos do Menino Jesus. Achava que Ele ficava muito triste com as pessoas. E ainda acho! Em protesto, passei a não comer carne.

Nota: Imagem copiada de http://www.flickr.com/photos/raimundoalves/2890667251

Obs.:
Este texto é dedicado aos meus queridos tios Antônio A. Pereira e Davina G. Avelino que até hoje preservam a magia do Natal, unindo toda a família em torno do presépio e a todos os meus leitores queridos, com os votos de um Feliz Natal.

FRUTAS DO NATAL E SIMPATIA

Autoria de Luiz Cruz

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Ao iniciar dezembro, é época para se programar para o Natal. Os preparativos para a montagem do presépio mobilizam a família toda, cada um dá a sua contribuição. O presépio é uma tradição natalina e não pode faltar, mesmo que seja simples e pequenino.

Uma das lembranças de minha infância é a figura de uma senhora que circulava por Tiradentes no período natalino. Era conhecida popularmente como “Veia-do-barro-branco”. Uma anciã de porte baixo, tez clara, mas ligeiramente dourada pelo sol. O cabelo branco, bem comprido, sempre enrolado em um grande totó. Seu rosto era de aspecto inesquecível, para sempre! Era arredondado, cheio de linhas vincadas que moviam ao gesticular e ao conversar, em tom altivo, eloquente e comunicativo. Faltava-lhe um olho e o outro era de um azul forte, brilhante e muito expressivo. Por onde passava, inundava o ambiente com sua presença e alma iluminada.

A “Veia-do-barro-branco” andava pelas ruas da cidade com um balaio sobre a cabeça, cheio de gabiroba (C. pubescens, da família Myrtaceae), que era vendida a litro. Era a fruta da época, a qual nos remessava ao clima natalino. Fruta saborosa, nativa do Brasil e conhecida por uma variação de nomes: guavirova, guabiraba, guariramba e outros. Planta típica de áreas de campo, podendo ser apreciada na Serra de São José. Bom mesmo é saboreá-la no pé, mas dela se pode fazer deliciosos licor, geleia, sorvete, suco, batida e até pudim.

A gabiroba é rica em proteínas, carboidratos e vitaminas do complexo B. Além do fruto, as folhas da planta são usadas em infusão para aliviar dores musculares, através de banhos de imersão. Naqueles tempos, além da gabiroba, a “Veia-do-barro-branco” caçava e vendia tatus (mamíferos pertencente à ordem Cingulata e à família Dasypodidae), que trazia presos em outro balaio. Coisa que hoje em dia não pode ocorrer de forma alguma.

Outra fruta do período natalino é a romã, uma infrutescência da romãzeira (Punica granatum), que é originária da Grécia, mas bem aclimatada no Brasil. A fruta é coletada para integrar os arranjos decorativos de Natal. No dia de Reis ela é aberta e saboreada. É rica em proteína, cálcio e vitaminas do complexo B. É usada para sucos e medicinalmente ajuda a reduzir a pressão arterial e para a prevenção de alguns problemas cardiovasculares. Da parte amarela que envolve a polpa pode-se fazer um chá para inflamações da garganta, que é usado na forma de gargarejo.

Com a romã se faz uma das simpatias de Reis: retirar de uma romã nove sementes, pedindo aos três Reis Magos, Baltasar, Belchior e Gaspar que lhe traga saúde, amor, paz e dinheiro. Depois, pegar três das nove sementes e guardar dentro da sua carteira, para nunca lhe faltar dinheiro. Das restantes, engolir três sementinha e jogar para trás as últimas três que sobraram, fazendo seus pedidos.

A gabiroba e a romã são frutas que dão sabor especial ao período natalino e não podem faltar no final do ano.