Michelangelo – O JUÍZO FINAL

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Autoria de LuDiasBH

juizo

                                                    (Clique na imagem para ampliá-la.)

Michelangelo não viverá muito tempo se não mudar de vida; trabalha muito, come pouco e mal, e também não dorme; faz alguns meses que sofre com dores de cabeça e vertigens. Tem dois males: um na cabeça e outro no coração. Para cada um deles existe um remédio; só preciso é conhecer a causa e dizê-la. (Amigo de Michelangelo)

Arte da pintura, diretamente inspirada por Deus […] mostra-nos a miséria dos malditos e a alegria dos benditos […] nele se podem ver maravilhosamente retratadas todas as emoções que a natureza humana pode experimentar […] as figuras de Micelangelo revelam pensamentos e emoções que somente ele soube exprimir. (Giorgio Vasari sobre o Juízo Final)

O papa Clemente VII confiou a Michelangelo o projeto de pintar a Queda dos Anjos Rebeldes sobre a parede do altar da Capela Sistina, mas só depois da morte desse é que o artista iniciou os trabalhos, já no pontificado de Paulo III, sendo o afresco combinado substituído por o Juízo Final. O artista tinha na época quase 60 anos de idade e continuava preferindo a escultura à pintura.

Diante da grandiosidade do projeto, o mestre pediu a ajuda de seu amigo Sebastiano del Piombo — um consagrado artista da época — que ficou responsável por acompanhar a preparação da superfície para a pintura a óleo. Mas os dois acabaram brigando, conforme relata Giorgio Vasari, pondo fim a uma amizade de cerca de 20 anos, pelo fato de Michelangelo ter dito que “queria pintar só o afresco e que a pintura a óleo era arte de mulheres ricas e de preguiçosos como Sebastiano del Piombo”.

O Juízo Final — afresco que ocupa a parede do altar da Capela Sistina —  é composto por cenas religiosas e mitológicas. Ali tudo gira em redor da figura de Cristo, de pé, como se estivesse se levantando, com o joelho direito ainda dobrado. Sua mão direita ergue-se num gesto de condenação, enquanto a esquerda chama os eleitos. O gestual de seu braço reforça a sensação de movimento giratório em toda a obra. As quatro cenas estão dispostas em quatro trechos horizontais:

  • os dois superiores pertencem à ordem celestial (onde se concentra um número maior de figuras);
  • os dois inferiores pertencem ao mundo terreno e ao Inferno (inspirados em trechos de “A Divina Comédia” de Dante Alighieri).

Existem neste afresco de Michelangelo cerca de quatrocentas figuras — entre santos, patriarcas, apóstolos, mártires, virgens, anjos, homens, etc. — que se apresentam em diferentes tamanhos, de acordo com a importância de cada personagem, sendo as figuras maiores as que representam a ordem celestial. O grupo central, onde se encontra Cristo, tem uma escala maior ainda. As figuras estão assim dispostas:

  • Na parte superior da parede — Cristo, a Virgem e dois grupos de santos e de mártires.
  • Ao centro — os anjos com trombetas e dois grupos simétricos de eleitos subindo ao céu, enquanto os condenados são lançados ao Inferno.
  • Nas duas lunetas (no alto da composição) — os anjos com os símbolos da paixão.

Na base do afresco encontram-se:

  • à esquerda — a ressurreição da carne;
  • ao centro — a boca do Inferno;
  • à direita — Coronte atravessando os condenados em sua barca em direção a Minos e outros demônios.

Na parte superior, Jesus Cristo — figura central da composição — surgindo de um nimbo de luz dourada, está sentado, acompanhado pela Virgem e rodeado pelos doze apóstolos, João Batista, anjos, eleitos e santos. Os últimos são identificáveis pelos atributos que carregam. São Pedro devolve as chaves a Cristo; São Paulo com seu semblante grave e barba branca; São Sebastião com as flechas na mão; Santa Catarina com a roda de facas; Santo André com a cruz em forma de X; São Lourenço com a grelha de seu martírio; São Bartolomeu com um escalpelo na mão direita e uma pele humana na mão esquerda, onde está modelada a face de Michelangelo que se autorretrata como um despojo humano.

Acima de Jesus Cristo e de seu grupo estão anjos carregando os atributos de sua Paixão: a cruz, a coroa de espinhos, os cravos e a coluna da flagelação. Cristo é o centro temático e simbólico da cena representada e também o centro compositivo da obra.  Ao contrário da maneira como é comumente retratado, aqui ele é visto sem barba, traz os cabelos curtos e tem o corpo atlético, quase nu, como um deus greco-romano envolto apenas por um manto que lhe cobre as costas e as partes pudendas. É uma figura musculosa e de forte gestual.

Cristo é o grande juiz cujo trono é feito de nuvens. Sua cabeça e mão direita — assim como o olhar — estão voltados para o grupo de santos que se encontra à sua esquerda. Nos pés e mãos ainda estão as marcas de sua flagelação. Há também um pequeno corte logo abaixo de seu peito direito. A mão direita levantada acima da cabeça exprime autoridade e determinação, sinal de que chegou a hora de julgar os justos e os pecadores, de modo que os primeiros ascendam aos céus e os segundos precipitem-se no inferno. Não se trata mais do Cristo misericordioso, mas de um juiz com toda a sua “terribilidade”.

Logo abaixo do Cristo juiz encontram-se os sete anjos do Apocalipse fazendo soar suas trombetas, anunciando a hora do Juízo Final para toda a humanidade. Um deles segura o Livro da Vida e o outro o Livro da Morte. À direita deles, os bons vão deixando seus túmulos, puxados por outros anjos, para ascenderem aos céus e à esquerda encontram-se os maus, empurrados por anjos e puxados pelos demônios para o inferno. O primeiro deles, com a mão no rosto em atitude de horror, é puxado por demônios até a barca que o levará para o inferno.

A Virgem Maria — bem menor do que a figura do Filho e em forma serpenteada — encontra-se assentada à sua direita em atitude de súplica, implorando-lhe clemência para com a humanidade, enquanto olha entristecida para o mundo terreno abaixo. Mas ele não escuta as súplicas da Mãe. À esquerda, na parte inferior da composição, as almas dos justos deixam seus túmulos para subirem aos céus, enquanto à direita, Coronte — figura mitológica — carrega em sua barca os condenados, tendo Mino, ser infernal, cujo corpo está envolto por serpentes, à frente.

O barqueiro dos mortos abandona os condenados na porta do submundo. É ajudado por demônios a expulsar as miseráveis almas de seu barco. Na cena estão presentes monstros, cadáveres, esqueletos e fogo que recriam com horror o castigo das almas condenadas que formam o grupo de figuras mais dramáticas do Juízo Final. E, como escreveu Dante: “Coronte em forma demoníaca, apanha todos/ Acenando, bate seu remos em todos os que tardam.”. Michelangelo era um leitor do escritor.

As cenas da ressurreição situam-se na parte inferior da composição à esquerda. Nela um grupo de anjos com suas cornetas acorda os mortos que saem de seus túmulos em movimentos lerdos e entorpecidos. Os esqueletos estão sendo encobertos pela carne.  Ao fundo figuras de corpos robustos movimentam-se, deixando um vazio no centro, onde se destaca um grupo de anjos com suas trombetas, anunciando que é chegada a hora do Juízo Final.

A pintura em questão ocupa toda a imensa parede do altar da Capela Sistina, com um espaço aberto e ilimitado que traz a sensação de um vazio abismal, onde flutuam os corpos dos inssurretos. Todas as figuras flutuam no espaço sem gravidade, tendo por fundo um maravilhoso céu de lápis-lazúli, excetuando as cenas da ressurreição da carne e a do inferno. Enquanto algumas pessoas ascendem ao céu, outras, aterrorizadas, lutam para não serem empurradas para o inferno. Dentre as últimas, a cabeça da alma condenada que brilha como um fantasma da morte na escuridão é uma das imagens mais fortes da composição.

O julgamento do afresco Juízo Final já acontecia antes mesmo de a obra ter sido terminada. Era a época terrível da Contra Reforma. A presença de corpos nus deu munição para que a intolerância religiosa acusasse o artista de imoralidade, alegando que os nus eram antidogmáticos. George Vasari comenta que o mestre de cerimônias do papa, Biagio da Cesena, manifestou-se dizendo que aquilo “era uma coisa muito desonesta em lugar tão honrado, ter feito tantos nus que desonestamente mostram suas vergonhas e que não era obra para uma capela de papa, mas de termas e tabernas”. Para se vingar do santilão, Michelangelo retratou-o com a aparência do demônio Minos, com uma serpente enrodilhada no seu corpo e a morder-lhe os genitais. O poeta Pietro Aretino sugeriu que se fizesse uma fogueira com a obra.

O Juízo Final que mostra um turbilhão cósmico desencadeada pelo gesto do grande Juiz,  foi também muito elogiado. Mas a falsidade dos supostos vestalinos acabou ganhando terreno, de modo que, algum tempo depois, “as vergonhas” dos nus do afresco foram cobertas por Daniele Volterra — um dos assistentes do artista, a mando do papa Paulo IV.  Ao longo dos anos os nus de Michelangelo continuaram a receber vestimentas. Mas, para a pujança da arte, em 1980, quando as pinturas do Juízo Final foram restauradas, todas as vestimentas acrescidas foram retiradas, deixando o afresco como fora originalmente pintado.

Esta pintura que demorou cinco anos para ser completada em razão de suas imensas proporções  e que dispensou qualquer elemento arquitetônico para moldar as cenas, confrontando apenas figuras e espaço, cobre toda a parede logo atrás do altar  e mostra o fim da raça humana, com a redenção de uns e a condenação de outros à escuridão eterna. Ou seja, os bem-aventurados estão à esquerda, a subir, e os condenados, à direita, a mergulharem no inferno. Todos em movimento circular, girando em torno da grandiosa figura do Cristo regressado.

Ficha técnica:
Ano: 1533 – 1541
Afresco
Dimensões: 13,70 x 12, 20 m  (cerca de 167 metros quadrados)
Localização: Capela Sistina, Palácios do Vaticano, Roma, Itália

Fontes de pesquisa:
Gênios da Arte/ Girassol
Grandes Mestres da Pintura/ Coleção Folha
Grandes Mestres/ Abril Cultural
Renascimento/ Taschen
Tudo sobre Arte/ Sextante
1000 Obras da Pintura Europeia/ Könemann
Os Pintores mais Influentes/ Girassol
Arte em Detalhes/ Publifolha
Góticos e Renascentistas/ Abril Cultural
Enciclopédia dos Museus

4 comentários em “Michelangelo – O JUÍZO FINAL

  1. Antônio Messias Costa

    Lu,

    É impressionante esta pintura, uma das mais belas obras de todos os tempos. Milchelângelo consegue, com poderosa força criativa, retratar todas as emoções humanas: medos, pavores, fatalidades, pecados, glórias e destinação humana. A alta densidade da figura humana e o fundo azul criam uma força imponderável na obra.

    Responder
    1. LuDiasBH Autor do post

      Antônio

      Michelangelo foi um artista genial que, juntamente com Leonardo da Vinci e a Rafael Sanzio, descortinou o panorama do Renascimento na Itália e que se espalhou por outros países da Europa. As obras deixadas por ele impressionam pela beleza, audácia e perfeccionismo.

      Abraços,

      Lu

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    1. LuDiasBH Autor do post

      Mário

      É verdade!
      Impressiona-me o modo como Michelangelo dispôs tantas personagens neste quadro.

      Abraços,

      Lu

      Responder

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