O LEVANTAMENTO DO CÉU

Recontada por Lu Dias Carvalho

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Bem antigamente, numa data em que não é possível contar os séculos, de tão distante que se encontra, o Céu e a Terra eram bem próximos um do outro, de modo que era quase possível tocar nas nuvens, durante o dia e nas estrelas, à noite. Por essa razão, as aves viviam aprisionadas entre os dois, sem a amplitude do horizonte para voarem livremente de um lado para outro e de cima para baixo. E foi por isso que resolveram fazer uma assembleia com todas as espécies aladas, para deliberarem sobre o levantamento do Céu.

Todos os animais aéreos responderam à convocação. E todos foram unânimes em aceitar a tarefa de afastar o Céu da Terra. Ou melhor, somente o morcego recusou fazer parte do trabalho.

As aves fizeram um esforço hercúleo para levarem avante tal missão. Dividiram-se por espécies, de modo que cada uma levantaria uma parte determinada do Céu, numa ação conjunta, assim que o urubu-rei desse o sinal. E assim foi feito. Vitoriosa foi a incumbência. Mas o morcego, como castigo, foi obrigado a dormir de cabeça para baixo, dependurado pelos pés, fato que acontece até os dias de hoje.

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Filme – A FESTA DE BABETTE

Autoria de Lu Dias Carvalho

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O homem é frágil e tolo. A todos já nos foi dito que a graça divina encontra-se por todo o universo. Mas em nossa tolice e miopia humanas, imaginamos ser a graça finita. Por esse motivo, trememos antes de fazer nossas escolhas na vida, e após tê-las feito trememos de medo de ter escolhido errado. Mas eis que chega o momento em que nossos olhos estão abertos, e vemos, e percebemos que a graça é infinita. A graça não exige nada de nós, senão que a aguardemos com confiança e a reconheçamos com gratidão. A graça, irmãos, não impõe condições e não escolhe nenhum de nós em particular; a graça toma a todos em seu seio e proclama anistia geral. Aquilo que escolhemos nos é dado, e aquilo que recusamos nos é igualmente, e ao mesmo tempo, concedido. Sim, que o que rejeitamos seja copiosamente vertido sobre nós. Pois que a misericórdia e a verdade encontraram uma a outra e a retidão e a bem-aventurança beijaram uma a outra. (Discurso do general Loewenhielm )

O filme dinamarquês A Festa de Babette (1987), obra do cineasta e roteirista Gabriel Axel, é um dos mais premiados filmes estrangeiros, tendo ganhado o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o Bafta e a Palma de Ouro.

A história acontece na Noruega, na cidadezinha de Berlevaag, banhada pelo mar e encimada por montanhas. Ali moram as duas irmãs, Martine e Philippa, cujos nomes homenageiam Martinho Lutero e seu amigo Philipp Melanchthon. Eram filhas de um pastor responsável por criar uma seita, que pregava a renúncia aos prazeres, sob a alegação de que o mundo só oferecia ilusões, sendo que a verdadeira vida encontrava-se na Nova Jerusalém, à qual teriam acesso todos que praticassem uma vida modesta e sem deleite.

Quando o filme tem início, o pastor já se encontrava morto, deixando as duas filhas à frente do grupo, cujos membros tornavam-se cada vez mais escassos. Já não havia mais a harmonia de antes, tendo elas que lidar com brigas e descontentamentos. Ainda assim, o pequeno grupo reunia-se para estudar a palavra do antigo mestre.

Martine e Philippa tinha uma criada francesa, apesar de viverem com parcos rendimentos, gastos em obras de caridade. Babette batera à porta das duas irmãs, 12 anos antes, numa noite de intenso temporal. O povo do lugar logo compreendeu que o coração generoso das duas irmãs, que atendiam a todos que a procuravam, era o responsável pela presença da mulher na casa. Porém, a história era muito mais complexa. Retrocedendo no tempo, o filme passa então a narrar a história das duas irmãs e Babette.

Embora muito belas e desejáveis na juventude, Martine e Philippa viviam voltadas apenas para a seita do pai, que via nelas a mão direita e a esquerda, não tendo elas acesso a nenhum tipo de divertimento. Além disso, ele não permitia que alguém pudesse privá-lo de uma das filhas. Mesmo assim, dois cavalheiros chegaram a Berlevaag, em tempos diferentes, e ambicionaram a mão das garotas.

O primeiro deles foi um oficial, Lorens Loewenhielm, envolvido em dívidas, e enviado pelo pai para conviver com a tia no campo, por certo tempo, a fim de refletir sobre sua vida desregrada. Ao ver Martine, a mais nova delas, ele caiu de amores pela moça. Passou então a frequentar a casa do pastor, ouvindo suas pregações, com o intuito de vê-la. Ao findar de sua permanência no lugar, e certo de não obter o amor da moça, agarrou sua mão, dizendo-lhe que nunca mais voltaria a vê-la. Com o passar dos anos, ele se casou com uma dama importante da corte francesa.

Um ano mais tarde, chegou a vez de um grande cantor francês de óperas, Achille Papin, apaixonar-se pela bela voz de Philippa, após ouvi-la cantar na igreja. Com a permissão do pastor, ela chegou a estudar canto com ele, que só pensava em torná-la uma grande dama da ópera, viajando pelo mundo. Mas, quando a beijou, ela, sem dizer nada ao pai, pediu que esse comunicasse ao cantor que não iria mais às aulas. Achille Papin retornou a Paris, sozinho.

Passados quinze anos, numa noite de intenso temporal, uma mulher quase desfalecida, bateu à porta das duas irmãs, com uma carta de Achille Papin, pedindo-lhes que a acolhessem, pois era uma fugitiva francesa, cuja família havia sido fuzilada na guerra civil, e  com a sua ajuda e a do sobrinho, que trabalhava como cozinheiro num navio, ela conseguira escapar. As duas irmãs disseram à fugitiva que não poderiam pagar-lhe por seus serviços. Babette afirmou-lhes que trabalharia de graça, e, se elas não a quisessem, ela não trabalharia para mais ninguém. E assim ficou ali por 12 anos, sem ter conseguido aprender a língua daquela gente e, tampouco, abraçar a sua seita, permanecendo católica. Era uma governanta exemplar, ajudando as irmãs em tudo. Segundo ela, a única coisa que a ligava a seu país de origem era um bilhete de loteria, que um amigo renovava a cada ano. Acontece, então, a segunda parte da história.

Martine e Philippa resolveram comemorar o dia em que o pai faria cem anos, como se ele ainda se encontrasse entre elas e seus adeptos, ainda que a discórdia grassasse entre esses. Fariam uma modesta ceia com uma xícara de café. Nesse ínterim, Babette recebeu a notícia de que seu bilhete fora premiado com a quantia de dez mil francos. E, para surpresa das duas irmãs, pediu-lhes para preparar um jantar francês, desconhecido para ambas, em homenagem ao pai delas. Embora relutantes, acabaram aceitando a oferta da governanta. A partir daí desenrola toda a preparação do jantar, com Martine e Philippa apavoradas, pois não imaginavam que fosse daquele porte, onde entraria até vinho. O que pensariam os devotos?

Numa reunião com Philippa, os adeptos prometeram uns aos outros que iriam ao jantar, mas não fariam comentário algum sobre a comida ou bebida, preservando as recomendações do mestre. E assim, com a presença de 12 pessoas, foi realizado o jantar. O resto fica para que o leitor descubra, ao assistir a esse comovente filme.

Nota: Esse filme, narrado em grande parte, tem o roteiro baseado no conto da escritora dinamarquesa Karen Blixen, a mesma autora de A Fazenda Africana, em que foi baseado o filme Entre dois Amores.

Ficha técnica
Ano:1987
Gênero: drama
Direção: Gabriel Axel
Roteiro: Gabriel Axel
Elenco: Bibi Andersson, Ebbe Rode, Gudmar Wivesson, Jarl Kulle, Jean-Philippe Lafont, Stéphane Audran
Produção: Bo Christensen, Just Betzer
Fotografia: Henning Kristiansen
Trilha Sonora: Per Norgaard
Duração: 102 minutos

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Almeida Júnior – AMOLAÇÃO INTERROMPIDA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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A composição Amolação Interrompida, do pintor brasileiro Almeida Júnior, é outra de suas  obras ligadas ao homem do campo, o seu tão prestigiado caboclo.

O quadro retrata uma paisagem rural, com apenas uma figura humana, o caipira, que se mostra trabalhando. Suas roupas humildes e sujas de barro retratam a sua dura faina: camisa branca, com mangas dobras nos antebraços, calças riscadas, enroladas próximas aos joelhos, e um lenço amarelo, com pequenas estampas cobrindo parte de seus cabelos negros. À direita, pendurado no cinto da calça, encontra-se uma enorme faca, dentro de uma bainha de couro.

O homem encontra-se num riacho, com uma pedra no meio, amolando o seu machado, fortemente agarrado pelo cabo de madeira, enquanto abana com a mão direita, cumprimentando alguém que vê, e, que interrompe o seu trabalho. Apesar de seu físico robusto e aparentemente jovem, seu corpo mostra as marcas da dura labuta e do sol. O rosto e o pescoço estão vincados por muitas rugas, enquanto veias salientes, próprias de quem pega no pesado, espalham-se pelos braços e pernas. A mão que cumprimenta é grossa, áspera e mostra os dedos com as unhas sujas.

Ao lado esquerdo do caipira estão seu chapéu de palha, no chão, e uma cabaça, dentro d’água, na beirada do riacho. Às suas costas está uma tábua, onde possivelmente a família lava roupa e vasilhames. Ao recurvar o corpo, o homem deixa à mostra o caminho que leva até a uma humilde casinha de barro, estando visíveis uma porta e duas janelas, uma de cada lado, dentro de um cercado de pau a pique. Próxima à casa, vê-se uma bandeira de santo, içada num mastro de madeira, o que mostra a religiosidade do caipira. Ao fundo, descortina-se uma mata.

Em muitas pinturas de Almeida Júnior, ele aventa a presença de uma segunda personagem, mas que não aparece no quadro. Em Leitura, ele mostra uma capa numa cadeira vazia, em Saudade, apresenta uma mulher com uma fotografia na mão, mirando-a, e em Amolação Interrompida, ele mostra o personagem gesticulando para alguém, como se se tratasse de uma fotografia.

Ficha técnica
Ano: 1894
Dimensões: 200 x 140 cm
Técnica: óleo sobre tela
Localização: Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil

Fonte de pesquisa
Almeida Júnior/ Coleção Folha

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A LENDA DA PALMEIRA

Recontada por Lu Dias Carvalho

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Os antepassados dos índios também lhes contaram muitas histórias sobre coisas que existem no mundo. E uma delas é a Lenda da Palmeira, muito similar à história do dilúvio bíblico.

Havia na Terra um homem de nome Payé, de grande ciência e de coração muito generoso para com os outros homens, plantas e bichos, a ponto de Tupá (Deus) falar sempre com ele. E foi através desse ser superior que ficou sabendo que iria haver uma grande inundação, quando as águas desceriam dos céus como fortes enxurradas, durante dias e noites, encharcando campos, florestas, montes e cidades. Coisa alguma haveria na Terra que não fosse coberta por elas, excetuando uma palmeira. E Tupá mostrou a Payé onde ficava tal palmeira, ordenando-lhe que nela subisse, juntamente com sua família, e ali permanecesse, comendo os frutos da árvore, até que as águas abaixassem.

E assim aconteceu. Choveu durante vários dias e noites. As águas pareciam querer tocar os céus. Quando já cobriam o monte onde se encontrava o sábio, sua família e a palmeira marcada,  nela subiram, obedecendo a determinação divina. E, após o caimento das águas, o sol voltou a brilhar. E Payé desceu da palmeira com toda a sua família, que se multiplicou, e trouxe para a Terra outras gentes.

Nota: imagem copiada de galeria.colorir.com

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PENITÊNCIA PERIGOSA

Autoria de Suedro Potiele

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Certa vez um circense,
Palhaço muito engraçado,
Foi à igreja para avisar
Ao sacerdote Romualdo
Que um circo ali pertinho
Estava prestes a ser armado
E que, por ser inofensivo,
O padre não tinha motivo
Pra ficar preocupado.

Pra não perder a chance
De falar com o vigário,
O palhaço que do circo
Também era proprietário,
Quando viu que o clérigo
Atendia nesse horário
Seus fiéis em confissão
Ajoelhou-se ali no chão
Diante do confessionário.

Após ouvir desse palhaço
Que uma das brincadeiras
Que ele mais executava
Era plantar bananeira,
O padre bem curioso
Quis saber de que maneira
Esse tipo de palhaçada
Era, no circo, realizada
Ante uma plateia inteira.

Por ser muito brincalhão
O palhaço imediatamente,
Embora ele estivesse
Num sagrado ambiente,
Pra explicar o que no circo
Ele fazia frequentemente,
Por incrível que pareça
Ficou de ponta cabeça
Aos olhares dos presentes.

Neste instante ao depararem
Com a tal cena descabida
Duas velhinhas, na igreja,
Caminharam pra saída
Enquanto uma dizia
Sobremodo espavorida:
– Vamos embora, Generosa.
A penitência tá perigosa
E nós viemos desprevenidas.

Nota: desenho do autor.

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Almeida Júnior – LEITURA

Autoria de Lu Dias Carvalho

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Na obra Leitura, o artista brasileiro Almeida Júnior mais uma vez volta-se para o tema da leitura. Assim como Moça com Livro, há apenas uma figura humana no quadro. Pelas características apresentadas, a leitora parece ser de família rica e morar numa fazenda. A presença do livro, dobrado em sua mão esquerda, demonstra se tratar de uma garota culta.

A moça, com sua bela vestimenta, sentada confortavelmente numa cadeira de espaldar alto, lê tranquilamente na varanda de sua casa, tendo à esquerda, um riacho e uma estrada que conduz a uma igreja e várias casas espelhadas pela paisagem, possivelmente um vilarejo. Mais ao fundo, erguem-se montanhas azuis.

À frente da moça encontra-se uma cadeira contendo uma capa e mais dois objetos sobre ela, levando a crer que outra pessoa lhe fazia companhia antes. Pelo longo cabelo, que desce até o chão, presume-se que a retratada seja Rita Ybarra, com quem Almeida Júnior teve uma ligação amorosa, gerando seu filho Mario Ybarra.

O quadro Leitura foi premiado com uma Medalha de Ouro, ao ser apresentado em 1893, na Exposição Internacional Colombiana de Chicago, na parte dedicada aos artistas brasileiros.

Vejam também, aqui no blog, o saboroso texto do escritor Alfredo Domingos sobre este quadro: Almeida Júnior – LEITURA

Ficha técnica
Ano: 1892
Dimensões: 95 x 141 cm
Técnica: óleo sobre tela
Localização: Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, Brasil

Fonte de pesquisa
Almeida Júnior/ Coleção Folha

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