O DESTINO DOS ANIMAIS (Aula nº 94 E)

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Autoria de Lu Dias Carvalho

Existe coisa mais misteriosa para um artista do que a ideia de como a natureza se espelha nos olhos dos animais? Como será que um cavalo, uma águia, uma corça, um cachorro veem o mundo? (Franz Marc)

 O pintor expressionista alemão Franz Marc (1880–1916) estudou teologia e filosofia, ingressando no mundo da arte em 1900, dedicando-se à pintura de paisagens tradicionais. Tornou-se conhecido por usar animais como tema de seus trabalhos e pelo uso incomum que fazia das cores primárias brilhantes. Justificava a sua predileção pelos temas animais sempre dizendo que a beleza e a espiritualidade desses lhe pareciam superiores às presentes nos seres humanos. 

Franz Marc foi apaixonado pela obra de Van Gogh e pelo trabalho dos impressionistas. Fez amizade com o pintor August Macke, quando passou a simplificar seu estilo e a usar a cor de um modo não naturalista. Conferia significado às cores que usava. Fez parte do grupo simbolista Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul). Influenciado pelo Futurismo de Robert Dalaunay assumiu o estilo abstrato nos últimos anos de sua vida.

A composição intitulada O Destino dos Animais é uma obra do artista, na qual ele apresenta os cavalos verdes. Observem com atenção. Uma égua está chorando, ao ver sua cria correndo aterrorizada em direção a uma árvore de tons sanguíneos caída, o que para ele era o símbolo do domínio material e da ruína ocasionada pelo homem. A égua e sua cria são verdes e adentram no quadro da esquerda para a direita.

Um desacompanhado cervo azul, com a parte inferior amarelada, ocupa a parte central da composição. Segundo a simbologia do artista, ele representa a gentileza. O cervo curva a cabeça ao receber o golpe que o abate, representado por um fino raio de luz alaranjada que vem em diagonal, da direita para a esquerda e atravessa a composição. A árvore tombada também atravessa em diagonal a composição, em sentido contrário ao do raio. As cores usadas dizem respeito a determinados atributos psicológicos:

  • azul – masculinidade, austeridade e intelecto;
  • amarelo – feminilidade e alegria;
  • vermelho – materialidade e dominação.

Ficha técnica
Ano: 1913
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 1,96 m x 2,66 m
Localização: Kunstmuseum, Basileia, Suíça

Fonte de pesquisa
Tudo sobre arte/ Editora Sextante

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SÓ FALAVA ABOBRINHAS

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Autoria de Lu Dias Carvalho abobrinha

Não é fácil passar uma noite acompanhando alguém que só fala abobrinhas. Ninguém merece tamanho desatino, ainda mais quando se sai de casa com o intuito de divertir-se. E foi justamente uma senhora, com uma dessas mentes de ameba, que se sentou ao meu lado, durante o jantar de noivado de um casal de amigos.

Éramos cerca de duas dúzias de pessoas, algumas das quais – parentes do noivo – eu jamais vira. Os lugares na mesa  traziam o nome das pessoas no intuito de fazer com que houvesse interação entre conhecidos e desconhecidos. E o meu estava lá, entre a dita senhora e seu esposo, um senhor de óculos, taciturno, totalmente desligado do mundo à sua volta, mas com um apetite voraz e cujos olhos não desgrudavam do prato.  À direita estava sua caricaturesca senhora, uma matraca viva. Ao contrário de seu varão, a varoa não mostrava nenhum interesse pelas iguarias servidas, pois se encontrava sob os ditames do regime. Estava ali apenas para matraquear, sem nenhum interesse pela sua ouvinte – no caso eu, esta criaturinha pura e indefesa que ora escreve (sem risos). A pessoa da ilustração sou eu gritando: – Pare!

Eurides Flores Pombal começou desfiando a sua árvore genealógica, sendo que em cada galho habitava uma “ilustríssima” personagem, responsável por ter feito isso e mais aquilo pelo país. A seguir pôs-se a descrever seus giros pelo mundo, só lhe faltando conhecer o Monte Olimpo. Parolou minutos a fio sobre suas cirurgias, feitas nos centros mais renomados do país. Tagarelou sobre seus amigos endinheirados, figuras do mais alto escalão da república tupiniquim.  E eu ali, mudinha da silva, com um sorrisinho amarelo, tentando levar a tortura numa boa. E pior, não conseguia comer nada, embora estivesse faminta, pois a matrona era daquele tipo que, se o interlocutor não estivesse olhando – olhos nos olhos –, ela fincava o seu dedo no braço dele. Meu marido e eu deixamos o grupo às três horas da madrugada.

Tive um pesadelo horroroso após poucos minutos de sono. Comecei a ver abobrinhas saindo aos montões da bocarra da dita madame. Elas caíam pela mesa, derrubando tudo: taças de cristal, travessas de porcelana e tudo que se encontrasse pela frente, num caos infernal.  Tapei os olhos com a barra da toalha de linho branco,  derrubando o resto de coisas que ainda jaziam de pé. As pessoas levantaram-se de seus assentos e começaram a gritar comigo, todas falando ao mesmo tempo. Acordei gritando:

– Abobrinha, não! Abobrinha, não! Abobrinha, não!

E por falar em abobrinhas, a expressão “só fala abobrinhas”, muito conhecida em nossos dias, originou-se quando a nossa moeda ainda era o cruzeiro e a nota de mil cruzeiros ganhou o apelido de abobrinha, pois a cédula tinha a cor do fruto da aboboreira. Com a inflação galopante, ela foi perdendo progressivamente o seu valor de compra. Hoje, “falar abobrinhas” significa uma conversa sem sentido, sem crédito, papo furado, ou seja, totalmente sem significância.

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DUAS MULHERES NA RUA (Aula nº 94 D)

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Autoria de Lu Dias Carvalho

O pintor alemão Ernst Ludwig Kirchner (1880–1938) estudou arquitetura em Dresden e fez um curso de arte em Munique. Foi responsável por formar o grupo expressionista alemão Die Bücke com mais três colegas de faculdade, também amantes da pintura. Passou um tempo nos lagos Moritzburg para pintar nus em ambientes naturais. Em Berlim criou uma série de pinturas tidas como ponto de destaque do Expressionismo. À medida que envelhecia, seu estilo ia se tornando cada vez mais abstrato.

A composição intitulada Duas Mulheres na Rua é uma obra expressionista do pintor que executou uma série de pinturas, nas quais mostra cenas das ruas berlinenses, com a tensão característica da vida nas metrópoles.

Duas mulheres bem vestidas, com peles e chapéus de penas, de acordo com o estilo da época, são as figurais centrais da obra. Elas possuem tamanhos distintos. Trazem rostos de forma triangular, simplificados, lembrando máscaras (o artista era fã do primitivismo). As figuras apresentam certa distância do observador. O desenho anguloso e o sombreamento cruzado e forte repassam movimento à pintura.

As figuras ocupam praticamente toda a tela, dentro de uma perspectiva muito reduzida, sem que haja qualquer referência ao horizonte. Só é possível ao olhar do observador viajar através dos profundos decotes em V das duas mulheres ou de suas cabeças excessivamente ornamentadas.

O arco cor-de-rosa à direita tem por objetivo equilibrar a composição e remete aos suntuosos edifícios de Berlim. O pintor deixa sua marca de arquiteto ao criar as roupas das duas mulheres de uma forma escultural, remetendo à arquitetura. O artista em sua composição fez uso de cores ácidas e luminosas que ganham ênfase com seu desenho expressivo e com as pinceladas que ele deixa à vista. Sua paleta, muito comum à época, reduz-se aos tons de verde, amarelo, rosa e preto.

Ficha técnica
Ano: 1914
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 120,5 cm x 91 cm
Localização: Kunstsammlung Nordrhein-Westfalen, Düsseldorf, Alemanha

Fonte de pesquisa
Tudo sobre arte/ Editora Sextante

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LÁGRIMAS DE CROCODILO

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Autoria de Lu Dias Carvalho

jaccho

Haja falsidade, hipocrisia ou fingimento nos tempos de hoje. Os crocodilos não mais habitam somente os rios, lagos e lagoas, ao contrário, estão espalhados por aí, na maioria das vezes em volta de nós mesmo, nos mais diferentes lugares e situações, mesmo quando não existe água por perto. Os mais perigosos são os bípedes, porque nunca compreendemos de fato os sentimentos que deles emanam, prestando-se a quaisquer atos para atingir seus objetivos, ainda que escusos, sem jamais dizerem a que vieram.  Agem ao contrário dos rastejantes que já mostram o que querem, sem usar de nenhum artifício, ainda que as lágrimas escorram pela cara.

Segundo o escritor Reinaldo Pimenta, em seu livro “A Casa da Mãe Joana”, existem três explicações sobre a origem da expressão “lágrimas de crocodilo”:

O historiador Plínio, o Velho, dizia que os crocodilos presentes nas margens do rio Nilo choravam para atrair a atenção das pessoas que por ali passavam, para depois devorá-las. Aqueles répteis, acreditava Plínio, eram excelentes fingidores e, consequentemente manipuladores, sempre na tocaia, de olho nos humanos desacautelados.

Já uma lenda medieval conta que os crocodilos choravam após degustar uma pessoa. Que estranho! Tal comportamento se daria em razão do arrependimento, prazer ou porque a refeição fora insatisfatória? Nada mais do que um mito!

A Ciência, contudo, comprova que ao mastigar, o animal pressiona o céu da boca e comprime suas glândulas lacrimais que fazem com que lágrimas rolem por sua cara de poucos amigos. Ainda bem que a Ciência impede os prudentes de saírem contando lorotas por aí.  É a responsável por desbancar as asneiras criadas a bel prazer dos humanos para validar suas tolas crenças. Estão desbancados, portanto, o historiador Plínio assim como a lenda medieval. Como não tirar o chapéu para a Ciência? Agora os répteis crocodilianos podem chorar à vontade sem que ninguém os perturbe.

Como está comprovado que o crocodilo não é capaz de sentir emoção, não estando nem aí para os queixumes de sua presa, é certo que jamais derramaria uma gota de suas lágrimas por ela. Mas o crocodilo bípede, no entanto, sente emoções e sabe muito bem o que está fazendo. Fique de olho nele, pois, embora possa chorar, suas lágrimas nem sempre demonstram solidariedade ou sofrimento, não passando do mais puro e refinado fingimento. Neste caso, dê-lhe o endereço de uma escola de dramaturgia e tenha um “amigo” que chora lágrimas de crocodilo, mas que é também um tremendo artista. Mas fique de olho aberto em suas encenações.

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INTERIOR DE INDIGENTES (Aula nº 94 C)

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Autoria de Lu Dias Carvalho

Na arte brasileira, Segall é o artista que dela se ocupou com mais profundidade. (Olívio Tavares de Araújo)

Nunca foi maior e mais sincero o artista do que quando retratou os desamparados e os perseguidos, numa palavra os desvalidos da sorte, tangidos como gado à mercê das circunstâncias. Nessas enormes composições não há revolta ou desespero […]. Em tais momentos, sua pintura alça-se por sobre o plano meramente estético, para atingir a esfera da moral. (José Roberto Teixeira Leite)

O pintor Lasar Segall (1891-1957) era o sexto dos oito filhos do casal Abel Segall e Ester Segall, tendo nascido em Vilna, na Lituânia, quando o país ainda se encontrava sob o jugo do império russo. No decorrer da Primeira Guerra Mundial, Vilna foi invadida pelos alemães que ali permaneceram três anos e, após esse período, os russos retomaram à cidade. Segundo o próprio pintor, houve lutas entre lituanos, poloneses e russos pelo domínio de Vilna que ora ficava nas mãos de uns, ora nas mãos de outros, até ser incorporada à Polônia definitivamente. Por isso, ele sempre se sentiu como um apátrida. Sua família era judia e, como as demais, vivia à margem da sociedade, no gueto. Ele foi ali instruído pelo pai escriba do Torá (livro sagrado do judaísmo), com quem viveu até os 15 anos de idade.

A composição intitulada Interior de Indigentes é uma obra do artista que era muito sensível às questões sociais, dono de uma vocação humanitária e religiosa. Encontra-se no acervo do MASP desde 1950. O quadro em questão pertence ao seu período expressionista em que ele exterioriza os estados íntimos de sofrimento, usando uma dramática simplificação das linhas e das tonalidades principais da composição.

O casal encontra-se numa casa muito humilde, cujo chão é assoalhado. Em primeiro plano está a mulher, encarando o observador, como se lhe mostrasse sua miséria, trazendo o filho nos braços. Em segundo plano encontra-se o homem sentado diante de uma pequena mesa, com o braço esquerdo descansando sobre ela, perdido em seus pensamentos, sem saber o que fazer da vida.

A mulher é magra e seus olhos díspares repassam um grande sofrimento. Seus seios caídos são perceptíveis através do vestido de mangas compridas. Sua boca fechada traz a sensação de que não tem mais voz para alardear a sua pobreza,  o seu eterno sofrimento. Ela apenas mostra o filho raquítico, talvez morto, enquanto faz um gesto com a mão direita. O homem traz o rosto sério, mergulhado na sua própria insignificância e impotência, aniquilado diante da miséria. Seu olhar de desesperança está voltado para a direita. Sua postura é de conformismo, como se não houvesse mais nada a fazer, senão aceitar e aceitar até que seu fim chegasse.

A sensação repassada ao observador é a de que ele também faz parte deste drama, caso traga consigo um rasgo de sensibilidade e seja capaz de ser tocado pelo sofrimento dos desvalidos, impotentes diante da crueza de um mundo estratificado.

Ficha técnica
Ano: 1920
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 83,5 x 68,5 cm
Localização: Museu de Arte, São Paulo, Brasil

Fontes de pesquisa
Enciclopédia dos Museus/ Mirador

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Church – AS CATARATAS DO NIAGARA

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Autoria de Lu Dias Carvalho

O pintor estadunidense Frederic Edwin Church (1826-1900) foi aluno de Cole Catskill, sendo apontado como seu sucessor na escola americana de pintura paisagística. Suas paisagens possuem um grande formato e são detalhadas no tratamento da natureza, mostrando seu profundo conhecimento das ciências naturais. As muitas pinturas criadas em vários países que visitou mostram seu grande interesse pela botânica, geologia e fenômenos meteorológicos, mostrados de uma forma romântica, normalmente apresentando o amanhecer ou o findar do dia. Ele acreditava que não era preciso ir a Londres ou a Paris em busca de inspiração, bastava apenas pintar a natureza no estado em que fora criada antes do aparecimento do homem.

A composição intitulada As Cataratas do Niagara é uma obra-prima do artista. Em sua composição ele retrata as mundialmente conhecidas cataratas encontradas no território dos EUA. Ao examinar o quadro, o observador vê-se tomado pelo sentimento de poder sem limites exalado pela natureza, repassado principalmente pela vastidão da imagem paisagística. O artista conseguiu alcançar tal objetivo, ao usar um formato pictórico pouco comum em que a largura é quase o dobro da altura, e também pelo modo ousado com que mostrar a cachoeira em formato de ferradura, o que possibilita ao observador ver a imensa massa de água cair fragorosa à sua frente.

Ao fundo – de ponta a ponta do quadro – uma pequena faixa de terra, postada horizontalmente, reforça as vastas extensões da queda de água que se expõe diante do observador, contribuindo para aumentar a sensação de proximidade com a natureza. O ar de enigma presente na obra repassa a impressão de mistério, elevando o tema para o campo do simbólico.

Frederic Edwin Church, apesar de ter criado uma obra exuberante no que diz respeito ao tema, usa uma paleta de tons pálidos e delicados. Observe que o céu de tonalidade violácea funde-se com o arco-íris e com a névoa oriunda dos salpicos da água, espelhando-se nas trevas da água conturbada do primeiro plano.

A obra em estudo foi exposta pela primeira vez em 1857 em Nova York, angariando um grande sucesso para o autor, contribuindo para ampliar a fama da ainda jovem arte estadunidense na Europa que a partir daí ganhou uma notável atenção. O quadro foi exibido em Londres no mesmo ano, sendo que o jornal “The Times” elogiou o trabalho paisagístico do artista. Na França a pintura recebeu, 10 anos depois, uma medalha na Feira Mundial de Paris de 1867.

Ficha técnica
Ano: 1857
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 108 cm x 229,9 cm
Localização: The Corcoran Gallery of Art, Washington, EUA

Fonte de pesquisa
Obras-primas da pintura ocidental/ Taschen

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