Arquivos da categoria: Depoimentos/Saúde Mental

Depoimentos de portadores de Transtornos Mentais.

TRABALHANDO OS PENSAMENTOS NEGATIVOS

Autoria de Rene Pinheiro

Tenho me sentido melhor em relação ao meu quadro geral relativo ao combate ao transtorno mental que me afeta: a ansiedade. Muitos dos efeitos colaterais que tive no início do tratamento encontram-se agora bastante reduzidos. Ainda sinto um efeito adverso, brando, na língua que provoca o bocejo (não se trata de sono, mas somente do ato de bocejar). Esses bocejos reduziram bastante também. A libido está voltando aos poucos. A ansiedade ainda se apresenta, geralmente à noite, mas em ondas mais fracas.

O que tem me ajudado, além de outras ações e atitudes, é questionar ou refletir sobre os meus pensamentos. Por exemplo: quando vem a sensação física da ansiedade – que inclui certa tensão muscular nos ombros, coração acelerado, pressão no peito e às vezes na cabeça – em geral, na sequência, vem um pensamento estranho junto. Muitas vezes trata-se de um pensamento negativo, que acaba se conectando, por assim dizer, com a sensação física, e dessa união resulta o aumento da sensação desagradável da ansiedade.

Comecei a perceber que é de suma importância examinar o pensamento que vem junto: “O que estou pensando é verdade? É útil para mim? Existe alguma coisa que eu possa fazer sobre o que estou pensando agora?” Percebi que, muitas vezes, os pensamentos ou eram sobre situações irreais ou inúteis, ainda que tivessem alguma dose de verdade. Em razão disso eu tomei uma decisão. Uma vez que não é possível bloquear tal pensamento (ele já está lá, vem sem avisar), é melhor deixar que venha e saber que não é preciso tecer um “diálogo” com ele. Ele vem… e se vai. O pensamento é temporário. É como um sino que toca de repente no silêncio. O som que surge tem um início, uma duração e um fim. O silêncio permanece em paz. O silêncio é cada um de nós. Dessa forma, a sensação física incômoda não tem como se “alimentar”, por assim dizer, do pensamento negativo, e então ela não cresce e acaba desaparecendo. Resumindo, eu não ofereço resistência. E sem resistência não há luta.

Tenho experimentado uma melhora significativa toda vez que faço este trabalho com os pensamentos indesejáveis que a mim chegam. Não “corto” o pensamento inoportuno de forma brusca. Apenas testemunho o seu aparecimento e renuncio à sua continuidade, conscientemente. Às vezes, faço isso por meio da mudança de foco no que estou fazendo no momento. Outras vezes, mudo de atividade, se for preciso. Na maioria das vezes,  eu aplico a respiração consciente (volto a atenção para a respiração mais lenta, expandindo a barriga para inspirar, contraindo para expirar, mantendo a atenção no ar que entra e no ar que sai, passando pelo meu corpo).

As ações e técnicas são portas de entrada para o “aqui e agora”, o único lugar e tempo real, de fato. Podem ser outras ações também, contanto que me tragam para o momento presente. Estou sempre aceitando a presença temporária da ansiedade, como ela se apresenta, mas sabendo que eu não sou a ansiedade. Ela vem e vai. Eu fico! Eu permaneço! Os sintomas vão ficando mais brandos e se vão bem mais rapidamente, sempre que eu consigo impedir, gentilmente, a conexão deles com os pensamentos negativos, inverídicos ou apenas inúteis. Com essa prática, o próprio ato ou efeito de pensar negativamente vai se tornando menos frequente, assim como a ligação entre a sensação desagradável e o pensamento disfuncional.

Compartilho essas experiências porque elas realmente funcionam comigo e na esperança de que, de alguma forma e em algum nível, elas possam ajudar ou apontar caminhos para outros companheiros que sofrem da mesma situação.

Muita paz a todos!

VÍTIMA DE UM VAMPIRO POSSESSIVO

Autoria de Celina Hohmann

Tive o desprazer de ter cruzado com um possessivo doentio, cujo maior prazer é a tortura. O indivíduo possessivo é tão perspicaz quanto um vampiro e nisso está seu trunfo.

Nunca nos imaginamos enfrentando um possuidor mórbido, indivíduo que se julga o dono absoluto de tudo e de todos, inclusive dos pensamentos de outra pessoa. É cruel, impertinente, magoa pelo prazer e, ao final, faz-se de vítima. Para chegar aonde se sente confortável não poupa esforços em destruir a imagem do outro. Ele é quem domina, o dono absoluto da verdade. Infiltra-se como água na areia e vai destruindo pedaço por pedaço de quem tomou como vítima. E diz amar!

Sabemos que a esse tipo de gente falta o amor próprio, o reconhecimento de que precisa mudar, pois caso contrário terá como fim o desprezo, uma consequência por tudo o que criou, após chegar e fazer o estrago. Tais pessoas chegam com uma carinha de gente boa e preocupadas com o bem-estar do outro, mas, na verdade, estão afiando as garras para rasgar vidas, o que fazem muito bem. Quem se encontra sob o seu domínio perde o controle de tudo, principalmente de suas próprias ações. É um jogo perigoso.

O maior perigo do possessivo está no fato de ele chegar sorrateiramente, dando-nos bons motivos para vê-lo como alguém especial. É especial, sim! Tão maldosamente especial que o mundo de quem está sob seu domínio fica à deriva. O complicado é que a vítima, na ânsia de não criar atritos, anula-se, culpa-se e odeia-se… Aí é que reside o fortalecimento do possessivo! Consegue seu alvo. Destrói e não se culpa, mas ao contrário, joga a culpa no outro e ainda faz a clara observação de que é “por amor”. Amor que mata! Amor que não faz bem! Amor que machuca! Não, isso não é amor, mas terrorismo!  Viver sob tal domínio é angustiante, é como pisar em ovos, ter medo do que fala e, quase sempre, deixar de ser o que se é!

Possessivos são doentes, jogadores sem escrúpulos. Para que se afirmem, fazem de quem está próximo (e sempre há uma vítima preferida) um doente como eles são. Sua capacidade está na anulação do outro com o objetivo de aumentar o próprio poder, até que, numa escorregadela, o oprimido percebe,  ainda que com certa relutância, que o problema não está em suas ações, palavras ou gestos, mas na maquiavélica capacidade de ser manipulado pelo outro ? um doente que culpa os demais por sua incapacidade. Perigosos, eles podem, num surto ou acesso de raiva, ferirem fisicamente, depois de terem sugado o psiquismo até a última gota. São as pragas da humanidade que, junto a muitas outras, fazem a vida de muitos se transformar num inferno diário.

Hoje, após um tempo que pareceu uma eternidade, percebi que eu era a vítima, mas as sequelas ficaram visíveis: ainda o medo, ainda culpas que jamais seriam culpas, ainda o tatear no escuro. O livrar-se de um possessor não é tarefa das mais simples. Há que se ter muito amor próprio, pois o possessivo escolhe suas vítimas, normalmente já fragilizadas (e pessoas fragilizadas são alvos fáceis), mas, até que reencontrem seu equilíbrio, passarão por maus bocados. Se não tiveram alguém que sutilmente as orientem, poderão, sem dúvida alguma, anular-se por completo e, num perigoso jogo, caírem na caverna desses vampiros para sempre.

PALAVRAS PARA LAURA

Autoria de Celina Telma Hohmann

Laura!

Do latim laurus, significando “Vitorioso”, “Triunfal”. Já trouxe no nome a força e, hoje, em plena fase de abrir todas as portas e janelas, às voltas com os tormentos do existir. Você tem a facilidade da escrita, que é o que há de mais difícil, posto que nem todos são detentores deste poder que é grande. Se escreve tão bem e faz pesquisas com um quase assustador meio de decifrar-se, tem o discernimento para descobrir que faz consigo o que muitos – e aí me incluo – usam da autossabotagem para não prosseguir, como uma preguiça que dói e nos prende ao nada.

Laura, você dispõe dos recursos que a muitos não é acessível. Sobra em si uma sabedoria formal, até além daquela que sua idade permite, adquirida, ao que demonstra, pela sua facilidade em aprender, mesmo quando cita que o ensino foi algo a que nem deu muito valor. Primeira das suas negativas é essa. Você soube extrair do ensino o melhor que ele lhe ofereceu, mesmo não dispondo das sonhadas “ferramentas fornecidas pela Prefeitura”. Não nos tornamos melhores ou piores se faltam ou sobram possibilidades. Não as tendo, podemos encontrá-las em nós mesmos, não esperando ou culpando fracassos (que não é o seu caso) pela falta de oportunidades. Oportunidades são exatamente o quê? Já fui jovem. Já tive vinte anos e, como você, também me senti perdida, sabe por quê? Porque eu estava acima da média, como muitos estão, mas dentro da mesmice que nos chateia…

Meu primeiro trabalho foi aos treze anos e nunca mais parei, até que, parando, veio o vazio real. Obviamente vocês, jovens de hoje, têm menos chances de um trabalho formal, considerando que nosso país não oferece muito aos jovens que estão à busca de trabalho, mas isso não os põem na condição de inúteis, vazios…Vocês não são isso, exceto se desejarem! O olhar para o passado é bom, mas olhar só para justificar o caos do presente é destruir a semente que já está germinando. Abra-se para o novo, minha linda! Arregace as mangas, descubra-se capaz (e o faça com fidelidade absoluta)! Colha, depois, o que plantou, pois, se plantar amarguras, terá uma colheita sofrida.

Entendo como você se sente, Laura, ao não saber qual direção tomar. Cada um de nós, aqui neste cantinho, veio com lágrimas, por vezes reprimidas, mas com tanta necessidade de sair do casulo, que o passo, por vezes tão doloroso, resultou não no remédio imediato, mas na compreensão, que é o que buscamos. Colocamos nossas histórias em trechos, por vezes desrespeitando a concordância, a regência, o correto uso da escrita, mas na busca desesperada por um ombro amigo que parecia distante.

A vida é uma sinfonia, Laura, na qual se encontram partes que poderão nos deliciar com as mais suaves notas e outras que nos farão sofrer. Um dedilhar descuidado, um ouvido não atento ou um coração em compasso desajustado não resultará em harmonia, embora ela seja tão procurada e na maior parte das vezes tão menosprezada. Existe, mas não a ouvimos e se ouvimos, não conseguimos decifrar o novo som… Nossa capacidade em afastar o que nos faz bem é grande. Carregamos o poder de destruir nossos sonhos.

Laura, não existe vida sem sonhos! Vegetar não faz parte do nosso processo, não, em seu estado mais natural! Sei que deveria lhe dar o colo que precisa, olhar em seus olhos, segurando suas mãos e dizer: menina, siga! Não estão no mundo as respostas que busca. O mundo se basta a si mesmo. Ele é e pronto! Fazer dele bom ou mau depende de cada um de nós. E aqui, é importante esclarecer que não podemos culpar os outros, ou esperar dos outros, ou pelos outros que nossos caminhos se abram. Quando nossas primeiras células, de forma maravilhosa foram se duplicando, multiplicando, fazendo-nos um humano, já estava escrito o que seríamos: uma pessoa!

Você é GENTE, Laura, portanto, seu compromisso consigo mesma é descobrir seu melhor lado e com ele explorar todo o potencial que tem – e tem muito – e fazer o gol (obviamente chutando a bola) e correr para o abraço. A vida precisa que você dê a ela o valor que ela lhe deu, criando-a perfeita em todas as suas faculdades físicas e intelectuais. Através dela, você recebeu a bênção de ser alguém especial. Quando houver conflitos de sentimentos, considere-se normal, mas jamais, em hipótese alguma se dê o direito de julgar-se mais sofrida ou inferior a quem quer que seja. Se no calor que sufoca buscamos a sombra e no frio exagerado o mais quentinho dos abrigos, então, na sofreguidão da alma e nas buscas por respostas, façamos o mesmo! Sempre haverá, num cantinho, por vezes ainda não explorado! Não se sinta só!

Um abraço quente, uma compreensão meio durona, mas um carinho à doce fase da juventude!

Nota: a ilustração é uma obra de Pablo Picasso, Mulher Adormecida com Persianas.

EU NÃO TENHO SONHOS!

Autoria de Laura Alencar

Eu tenho 20 anos, não estudo, não trabalho e não tenho sonhos, nem objetivos. Os planos mudam tão rápido de lugar. Minha luta,  vulgarmente, escorre pelos meus dedos. Vejo-me tão líquida e obscura no chão, uma poça de desespero e insatisfação. Parece que estou em desvantagem, presumo que seja por causa da minha condição socioeconômica, que impossibilitou a oportunidade de eu estudar em uma escola bem equipada para poder aflorar meus talentos, assim como não havia tanta cobrança por parte de minha avó, quem me criou, devido à ausência dela para com os meus estudos.

Estudar ou não, não era uma obrigação, era algo que dependia de mim e, como eu era muito criança, eu não fazia as atividades nem me esforçava, nem o corpo docente público podia dar suporte a tantos alunos devido à falta de ferramentas fornecidas pela prefeitura.

Minha sina é tão imprecisa. Tenho tanto medo de ficar acomodada, levando uma vida insignificante. Quero me movimentar, entretanto me desvio e perco o foco na caminhada. Já tive tantos planos. Em questão de segundos, dias, semanas já fui tanta coisa, mas não consigo prosseguir com meus deveres, pois, logo me sinto letárgica.

Vivo a fazer pesquisas sobre meus possíveis transtornos psicológicos e em busca de um diagnóstico para, por sua vez, ter um tratamento mais preciso e ser uma adulta decidida, constante e responsável. Não sei de nenhum histórico de transtorno mental em minha família, a não ser depressão. Não fui diagnosticada com nada. Uma vez meu antigo psiquiatra disse que eu tinha vestígios de SP. E foi só isso. Já meu atual psiquiatra, que não o vejo há 3 meses, pois ele tinha sofrido um acidente e, quando voltou às atividades, a fila de espera para a consulta estava enorme, uma vez que faço tratamento pelo SUS, e a demanda de pacientes no Caps AD (álcool e drogas)  é realmente significante – e cá entre nós, preocupante.

Ao invés de esperar pelo atendimento psiquiátrico, opto por um pedido manuscrito por minha psicóloga, baseado nos remédios prescritos pelo meu psiquiatra no nosso último encontro, pra ser “autenticada” pelo médico do posto de saúde local, para assim eu pegar meus remédios no CAF (Centro de Abastecimento Farmacêutico). Mesmo que eu tome  amitriptilina,  fernegam e carbamazepina – para dormir e controlar meu humor inconstante – eles parecem não funcionar, porque tenho crises em que não consigo controlar meus pensamentos e meus impulsos autodestrutivos como fortes ideações suicidas, mutilações e pensamentos distorcidos sobre tudo, todos e sobre mim.

Atualmente ando me sentindo muito bem e confiante. Todavia, subitamente, sinto como se a atmosfera das coisas mudassem ao meu redor, é quase palpável, porque sinto medo e nervosismo caindo sobre meu cálido e eufórico corpo e mente. É como se eu estivesse num sonho, ou como se eu não tivesse controle total sobre meus sentimentos, ou como se eu tivesse altamente chapada de maconha – não fumo mais.  Eu fazia psicoterapia, mas deixei de ir a, aproximadamente, 2 meses, pois parecia que as consultas e minha vida estavam empacadas, embora minha psicóloga tenha me ajudado bastante desde então. Penso em procurar outra psicóloga e/ou psiquiatra, mas é difícil e demorado conseguir uma consulta que não seja paga.

Eu já tinha visto alguns artigos deste blog, porém não sabia que havia colaboradores. Sendo assim, venho pedir ajuda: Existe alguém que já se sentiu assim como eu, mas que hoje vive uma vida satisfatória, com boa carreira, bons amigos, faz viagens, etc. Se tem alguém assim, por favor, me ajude a enxergar oportunidades, além da morte que me assombra com o seu sopro de desesperança nesse mausoléu existencial.

Nota: pintura chamada “Angústia”, de Cristina Alquicira Palácios

DEPRESSÃO, ANSIEDADE E FÉ

Autoria de Celina Telma Hohmann

A depressão e a ansiedade sempre existiram. Delas se origina uma sequência desavergonhada de outros transtornos que nos tolhem e massacram. Fazem-nos sentir a vida, quando nos encontramos nesse turbilhão, como sendo um grande tormento. A religião, quando nos culpabiliza, ao atravessarmos essa supliciante batalha, em nada nos ajuda.  Ao contrário, aumenta o nosso suplício. E nos cobramos ainda mais, piorando um quadro que já está absurdamente fora do normal. Deus não nos desampara, mas sejamos sinceras, crer num Ser Superior é facilitador para respondermos aquilo que nunca saberemos com exatidão. Não estou, em absoluto, questionando a existência de Deus, pois isso poria fim a uma única certeza que tenho e sinto. Deus existe! Olhemos ao redor e não há como não sentir que Essa Presença é a Maior e mais passível de ser real. Demos-lhe um nome. Sentimos Deus em todos os instantes, mesmo nos mais complicados. Ainda, assim, nós precisamos buscar os meios de ajuda que temos ao nosso redor.

O extremismo dos que julgam que só estamos passando por crises existenciais, porque nos afastamos de Deus, com toda certeza, trata-se da mais pura ignorância. Essas pessoas têm a sorte de não terem um gene que floresceu, não num repente, mas em anos de idas e idas… Fora que nós, os que cobram a perfeição, senão dos outros, mas de nós próprios, somos os que mais caminham para desenvolver síndromes que afetam nossa mente. Inicialmente, elas aparecem apenas como um vento forte prenunciando tempestade. Depois vem aquele olhar para o tudo e não ver nada mais adiante.  Estacionamo-nos na espera de que seja só um momento ruim. Na verdade é! Mas é um momento tão malandro que toma muitos de nossos dias e noites, deixando-nos péssimos.

Quando a tempestade chega, nós nos desesperamos de todas as formas: a paralisia, a aparente preguiça, a sonolência excessiva, depois a insônia que nos impede de dormir, e aquela tristeza que só quem a sente sabe a dimensão que tem. O sorriso, se existir, será um rasgo, um faz de conta. O olhar fica meio perdido, como se buscasse uma solução que não vem assim tão rapidamente, e lá se vão nossos dias. Perdidos, com certeza, mas que depois, recuperamos, pois, afinal, na vida tudo passa. E o transtorno mental com suas recidivas, num dia também se vai e aí, olhamos de volta para a beleza de um pôr do sol, a maravilha que é o desabrochar de uma flor, a deliciosa sensação de que Deus esteve sempre conosco. Compreendemos que não nos encontramos sob a sujeição de uma obra maligna, como pensam os estúpidos ignorantes.

O medicamento é necessário e o profissional que o prescreve, idem. Aqueles, que nunca sentiram o sofrimento trazido pelos transtornos mentais, poderão até nos julgar quando estamos no meio de uma crise, mas precisam saber que nos fazem sentir piores do que já nos encontramos, o que é uma grande falta de amor ao próximo. Esquecem-se de que somos apenas seres humanos que atravessam períodos de extremo desconforto. E precisamos muito de amor, ou, pelo menos, respeito. Precisamos nos fortalecer na fé de que se estamos no caminho da dor e que ela passará. O Criador sabe que somos capazes de suportar e sair disso melhor do que entramos.

Não desistamos, nunca! Todos nós somos vencedores!

Nota: O Grito, obra de Edvard Munch

SÍNDROME DO PÂNICO – EXPLICANDO AO FILHO

Autoria de Anna Paula Mattos

Minha história é como a de muitos aqui, cheia de profundo sofrimento.

Estava eu de férias, na praia com minha família, no início do ano. Estava tudo lindo, mas ao sair do mar tive um ataque de pânico. Visão turva, falta de ar e a sensação de morte, porém isto não foi o pior, pois após o ataque veio aquilo que minha médica chama de “ressaca pós-crise de pânico”.

Eu senti um vazio imenso, um medo tremendo, lágrimas que não paravam de vir e uma vontade de não viver mais, uma coisa horrível. Corri para o psiquiatra que me receitou fluoxetina, mas ao aumentar a dose não me explicou como devia tomar e eu, leiga no assunto, fiz uma super dosagem. Passei esse dia todo na cama, a voz não saia direito, meu corpo tremia e meu pai que é meu melhor amigo, permanecia ao meu lado, ouvindo da própria filha dizer que ela queria morrer.

Troquei de psiquiatra e também de medicação. Comecei a terapia e hoje posso dizer que minha vida já começa a caminhar para frente. Tenho um filho lindo de 10 anos e fui muito sincera com ele. Expliquei-lhe que eu tenho uma “doença” que não pode ser vista a olho nu, mas somente sentida. Disse-lhe que às vezes ele me veria chorar, mas que nesses dias eu precisaria de muitos abraços e carinho, pois esse seria “nosso remédio”. E assim foi feito. Ele entendeu perfeitamente. Percebeu que sua mamãe não chorava por causa dele e que ele, como parte de sua linda família, iria ajudá-la. Já se passaram 10 meses da crise mais forte da minha vida, mas posso dizer que não desejo esta dor a ninguém.

Todos nós, portadores de transtornos mentais, precisamos saber que a vida continua, temos que ter forças ao passar pelos momentos mais difíceis (sei que parece impossível), mas essa força nos ajuda a seguir em frente. E isso nos torna seres humanos melhores e mais sensíveis aos outros seres. Quando conheço alguém, que não tem vergonha de dizer que está passando por um problema psíquico, eu me solidarizo com ele, como se esta pessoa fosse da minha família. Sinto um orgulho enorme dela, pois sei que está lutando pela sua vida e está se fortalecendo e se transformando em alguém muito mais humano.

Ao final, tudo dará certo. Não devemos contar os dias para a cura (todos fazemos isso), mas viver um dia após o outro. Certamente uns dias serão bons e outros ruins, até mesmo de dar medo, mas todos passam. Tenhamos fé em Deus, na nossa família e principalmente em nós mesmos, pois todos nós somos capazes de vencer a batalha e encontramos  a paz.

Por aqui, comigo, a vida continua seguindo. Consegui um emprego novo onde me encontro muito feliz, vivendo um dia de cada vez, às vezes com pequenas angústias, mas isso é a vida. Sei que o que precisar encontro aqui no blog, conversando com os amigos e amigas de luta. Somos uma família POP e estamos sempre dispostos a ouvir e compartilhar os nossos desacertos e vitórias.

Nota: a ilustração é uma obra do pintor Edvard Munch.