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Depoimentos de portadores de Transtornos Mentais.

TRANSTORNO DO PÂNICO E PAUSAS NO TRATAMENTO

Autoria de Alexandre Nunes

Eu tive a minha primeira crise de pânico aos 24 anos, mas durante a adolescência tinha um pouco de fobia social, que apesar de não me impedir levar uma vida normal, atrapalhava.  À época da primeira crise de TP (Transtorno de Pânico) fiz tratamento com fluoxetina e bromazepam e fiquei bem. Um pouco depois tive algumas crises esporádicas e experimentei três sessões de hipnoterapia com um psicólogo, e pasmem, fiquei sem nenhum mísero sintoma por três anos! Porém, após três anos, um primo próximo teve crise de TP e eu o auxiliei, imaginando que aquilo não me afetaria. À mesma época meu pai adoeceu gravemente e veio a falecer. Uma semana depois voltei a ter intensas crises de pânico.

Consultei um psiquiatra e passei a usar oxalato de escitalopram. Foi excelente! Tive algumas reações iniciais, mas logo tudo voltou ao normal. Porém após poucos meses, devido à melhora completa que julguei completa, parei o tratamento. E após um mês a ansiedade voltou. Retornei pela segunda vez ao médico e, como esperado, tudo ficou bem. Então cometi o segundo erro de parar outra vez. Passei dois meses bem e recaída na ansiedade aconteceu também em razão de uma fase atípica de somatório de problemas.

Atualmente estou retornando ao oxalato de escitalopram pela terceira vez e decidido a fazer tratamento em longo prazo. Neste começo, porém, parece que os sintomas iniciais estão mais fortes e persistentes, oscilando muito. Alguns dias são bem ruins e outros excelentes. Na segunda semana tive tremores em um dia, seguido de outro pleno de tranquilidade. Ainda sinto alguns momentos de ansiedade, dor de cabeça, sensação de febre, aceleração e sono intercalado, porém isso vem diminuindo. Penso que tudo seja motivado pelas paradas e retomadas.

O mais difícil no tratamento, creio eu, é aprendermos a diferenciar o que é reação natural do corpo e o que é causado pela doença. No caso do pânico, durante uma crise ou durante a ansiedade antecipatória, tendemos a ter o julgamento embaçado pela desregulação emocional. A emoção perturba a razão. Percebi isso com o tempo, pois nas primeiras crises era um Deus nos acuda, sensação de fundo do poço, mas depois de idas e vindas, as reações já não me assustam mais. Trato porque é um desequilíbrio químico que precisa ser reajustado, além de ser desagradável. Mas não deixo mais me colocar pra baixo, acredito que a razão passou a assumir o controle.

Sobre a hipnoterapia, adiciono mais alguns dados que poderiam justificar essa questão de ter origem em trauma. Realmente, no meu caso, creio que seja de origem traumática, pois tive uma mãe superprotetora e também com problemas psicológicos não tratados, que geravam muitas brigas dela com meu pai. Na sequência disso, ela faleceu quando eu ainda tinha 5 anos, de câncer. Então analisando, tive superproteção seguida de perda brusca.

Após isso, tive boa criação da parte de meu pai e de tias, cresci muito bem, fui um excelente aluno e tive sucesso profissional. Entretanto, como falei, tinha fobia social, não incapacitante, mas que incomodava. Quando fiz as sessões com o psicólogo hipnoterapeuta, ele revisitou estas questões de infância, conduzindo uma reavaliação das mesmas. Em nenhum momento me senti inconsciente, parecia mais algo como análise, só que com algumas técnicas adicionais de relaxamento.

Tenho vontade de consultar-me novamente com o psicólogo hipnoterapeuta, já que fiz as três sessões e saí do consultório sem acreditar que funcionaria, mas acabei fiquei três anos sem sintoma algum realmente. Contudo não esperava a recaída, ainda que tivesse havido pressão e influência externas. Para quem tiver interesse, o nome do psicólogo é Reinaldo Momo, atende em Porto Alegre. Busque informações no Google.

Nota: Desespero, obra de Edvard Munch.

SÍNDROME DO PÂNICO E OPINIÃO ALHEIA

 Autoria de Celina Telma Hohmann

Vivemos a era da aflição anímica em que nossa alma afligida, entre ser o que desejamos e descobrir que nem sempre é possível, põe-nos em conflitos que, aos poucos, afundam-nos sem que demos conta disso. Hoje é até natural assumir que estamos passando pela devassa dos transtornos mentais, mas sabemos que alguns os confundirão com falta de fé, chilique e falta de empenho. Não devemos nos preocupar com os outros e a opinião que têm sobre um mal que ainda não conhecem. São sortudos por não tê-lo, mas não imunes a ele.

Não é fácil descobrir que se está passando pela fase do pânico. Viver muito tempo dentro dessa síndrome é pior ainda. Só quem passou ou passa por ela conhece seus segredos que na verdade nem se mostram, mas vão sendo decifrados diariamente. Ela é a surpresa diária, a companheira que não é bem vista, tampouco deve ser aceita como parte da própria vida. Não é fácil livrar-se dela num estalar de dedos, mas, com o tempo, esse terror inicial vai se dizimando, virando fumaça e aí, num dia, ele some. Nunca se sabe se é para sempre, mas ele acaba. Basta que se cuide e tome consciência plena de que é preciso, muito mais que antes, aceitar que todos os seres humanos são passíveis de males inimagináveis.

Sempre uso, talvez como consolo (mas que tomo como verdade absoluta) que os sensíveis, cheios de sensibilidade genuína, são os mais vulneráveis aos transtornos mentais, problemas esses que tolhem, derrubam e assustam. Penso que se fossem indiferentes ao que os rodeiam nada disso os atingiria. Muitos indivíduos passam pela vida praticamente sem conflito algum.  Sábios, santos ou alienados? Não sei! Quem não se importa com o mundo não se defronta com os medos e a sensação de impotência diante dele. Mas nós, detentores de problemas mentais, importamo-nos com a vida! E humanos em condição, fragilizados por conta de maldades que não aceitamos, vemo-nos presas de um turbilhão de sentimentos que não entendemos e que, ao final, leva-nos a conhecer o caminho complicado das confusões mentais, do pânico, do medo absurdo daquilo que antes não nos causava temor algum.

Hoje, com a alta incidência de necessidades que não havia antes, exigências que não faziam parte do dia a dia das pessoas, a exagerada exigência de perfeição e o querer fazer tudo da melhor forma e o mais rápido possível, é impossível seguir saudavelmente nessa linha, o que acaba gerando a paralisia. Normal? Não! Ruim, muito ruim! Fazemos parte de um novo clube. Há buscas, perguntas, por vezes bem confusas e nem sempre respostas imediatas, que existem, mas descobri-las é um caminho que demoramos a descobrir. Mas existe um consolo: há um novo olhar sobre o que nos aflige, a Ciência caminha a passos largos. Tudo ficará no passado, sim, bastando dar ao tempo o tempo que ele pede.

Nós, portadores de transtornos mentais, precisamos vivenciar nossas inseguranças com tolerância, sem que as sinta como amigas, mas descobrindo que não estão aí por puro acaso. Cuidemos de nós. Apenas nos encontramos temporariamente em crise. Não estaremos submetidos a ela eternamente! Não, mesmo! Medicamentos são necessários. Nosso cérebro também é uma maquininha complexa que, por vezes, nos assusta. E como nossa alma, também precisa do bálsamo. Os remédios ajudam. Inicialmente nos deixam meio tontos, amedrontados, mas ao final tudo se acerta.

Conheço os florais e não os tomei por sempre brincar que, no meu caso, eu teria que ter plantações a perder de vista de plantas e flores com aromas e gostos variados. Algumas pessoas conseguem um bom resultado, mas é preciso considerar que a formulação é individual, devendo o médico dizer qual o melhor caminho. Onde quase sempre pecamos é no que diz respeito à medicação que precisa ser bem orientada. Ela leva um tempo mais ou menos longo, dependendo de cada caso. Os transtornos mentais não nos deixarão pelo simples fato de acharmos que estamos prontos para abandonar a medicação, sem passar pelo parecer médico. Isso é ilusório e pode trazer consequências doídas. Nosso cérebro é quimicamente programado e os antidepressivos, quimicamente desenvolvidos em laboratórios, têm por objetivo repor o que perdemos.

Nota: a ilustração é uma obra de Edvard Munch

A TORTURANTE SÍNDROME DO PÂNICO

Autoria de Elaine Santos

É uma pena não ter encontrado este cantinho antes!

Minha história começa como a de tantos outros. Há três meses estava eu lavando a minha louça, para começar a preparar o almoço e senti um formigamento subir pelas minhas pernas. A partir daí minha vida mudou. Depois do formigamento meu coração acelerou e não conseguia respirar. O medo tomou conta de mim. Pensei que estivesse tendo um ataque cardíaco e pedi socorro ao meu marido. Ele correu comigo para o médico.

Depois de quase um mês com uma dor nas costas que não passava de um início de pneumonia, passei uma semana tratando e fiquei bem, mas no final da semana em que me encontrava medicada, tudo voltou. Fui piorando muito. Sentia tonturas e a sensação de que eu ia morrer. Um medo terrível tomava conta de mim, toda vez que meu coração disparava. Já não conseguia nem limpar a casa devido ao cansaço. Passei uma noite em claro tendo taquicardia de tempo em tempo, mesmo depois de medicada. Foi terrível! O que me deixava angustiada é que nenhum exame dava em nada.

Após muitas idas ao hospital, um médico me disse que eu estava com crises de ansiedade e que deveria procurar um psiquiatra. De início chorei muito, pois não conseguia aceitar, mas para o meu bem fui a busca de tratamento. Como tudo demora neste país, passei 20 dias tomando floral pra controlar as crises. Ficava pensando que não havia nada para conseguir me manter calma. Passei mal todos os dias desses dois meses e meio, até ter o diagnóstico fechado de Síndrome do Pânico (SP).

Iniciei meu tratamento na semana passada. Passei pela psicóloga e pela psiquiatra que me passou um antidepressivo. O medo era tanto que só comecei a tomar no sábado, 5 mg, na segunda semana começo a tomar 10 mg. Nos dois primeiros dias só tive enjoo e as crises que me acompanham, mas estavam mais fracas. Hoje nem consegui sair da cama. Sinto um vazio na cabeça e um mal-estar terrível, quase nem consegui almoçar de tão enjoada. Espero que amanhã o dia seja melhor.

O problema desta doença é que por ser desconhecida, as pessoas pensam que é frescura. Já ouvi tanta coisa, que sou “louca”, que tenho que “pensar positivo”, que tenho que me “apegar a Deus”… Isso tudo só deixa a gente pior. Já tranquei três matérias na faculdade, pois já tinha estourado em falta de tanto passar mal. Minha vida parou, meu marido e filhos não sabem como lidar com isso. Minha pequena de três anos é quem está mais sofrendo, pois não tenho conseguido cuidar dela direito. Ela gruda em mim o dia todo, parece que percebe que não estou bem. Fico angustiada com isso, pois eu só queria voltar a ser eu mesma. Parece que saí de mim, estou tão cansada que não tenho ânimo pra nada, mas mesmo assim me forço a fazer as coisas para não ficar pior. Não sinto tristeza, a não ser pela situação, mas esse medo me consome e não vejo a hora em que possa ir embora.

Só quero voltar a viver. Ler aqui que outras pessoas passam pelo mesmo que eu, já me conforta, porque me sentia sozinha demais. Sobre os florais queria perguntar, se faz mal usá-los, enquanto se toma a medicação.

Nota: composição ilustrativa do pintor Edvard Munch

LUTANDO CONTRA OS TRANSTORNOS MENTAIS

Autoria de Ivo Ramalho

Eu me chamo Ivo e tenho 30 anos. Fui diagnosticado com Síndrome do Pânico (SP) e Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) há dois anos. Tudo começou num sábado pela manhã, quando acordei com uma tremedeira e dormência no corpo, sentindo calafrios, palpitação no coração e dor no meio do peito. Levantei-me desesperado. Senti como se meu mundo estivesse desabando. Pedi aos meus pais para me levarem, com urgência, ao hospital. A primeira coisa que veio à minha cabeça é que estava tendo um infarto, e tive muito medo de que algo acontecesse. Passei por alguns exames e fiquei em observação por algumas horas, sendo que nada foi constatado. Os médicos me disseram que não tinha nenhum problema.

Após a primeira ida ao hospital, aconteceram outras mais. A cada retorno eu me sentia pior, achando que era o meu fim. Em uma dessas idas, tive muitas dores na garganta e meu estômago queimava muito. Encaminharam-me a um gastroenterologista, pois poderia ser daí que vinham minhas dores e tais sensações no peito. Iniciei o tratamento após receber os exames que apontavam uma esofagite erosiva. Fui acompanhado por uma nutricionista, que mudou radicalmente minha alimentação. Obtive melhoras com as dores, porém, fui tendo mais crises de pânico, o que me deixava cada vez pior. Passava mal na faculdade, no trabalho, no supermercado, e em qualquer lugar. Não dormia, sentia muito medo, chorava sem motivo aparente e não conseguia enfrentar minha rotina. E novamente cheguei a pensar que estava tendo problemas de coração. Fui a um cardiologista que me pediu alguns exames. Nada foi constatado. Minha saúde estava em dia. Ele me tranquilizou e orientou-me a buscar ajuda psiquiátrica. Nessa altura eu estava sem chão, já não ia trabalhar, a vida na faculdade estava difícil e saía de casa cada vez menos. Não conseguia me relacionar com ninguém, pois tinha uma angústia tão forte dentro de mim, que afastava as pessoas.

Fui ao psiquiatra, um ótimo médico por sinal. Digo isso porque tinha preconceitos a respeito dessa especialização. Ele me disse que eu enfrentava uma depressão em razão da pressão na faculdade, no trabalho, com a família e as muitas incertezas sobre meu futuro. Junto com a depressão, ele disse que eu sofria de SP e TAG e que precisava de tratamento com psicoterapeuta e fazer uso de antidepressivo. Senti-me amedrontado de início e pedi para ele me dar um tempo, a fim de que eu pudesse tomar uma decisão a respeito do tratamento com o remédio. Continuei passando mal por mais de um mês e, no retorno, acabei aceitando o antidepressivo recomendado. Tive medo de tomar o medicamento antes por pura falta de informação. Comecei a ler na internet sobre os efeitos que trazia, e que não eram nada agradáveis, mas o que não estava nada agradável era a situação em que me encontrava.

Iniciei o tratamento com a dosagem recomenda. Após algumas horas, eu pensei que iria morrer. Tudo havia voltado: dores pelo corpo, aperto no peito, palpitações, uma agitação fora do comum, muito frio e tontura. Senti muito medo e, não mais aguentando tais sintomas, fui ao hospital por uma possível segurança. O médico de plantão disse-me que era possível existir uma reação normal ao medicamento, e que deveria entrar em contato com meu psiquiatra. Através do contato feito, meu psiquiatra recomendou-me tomar a metade da dosagem durante uma semana, e depois a dose inteira. Confesso que fiquei com muito medo de ter todos os sintomas novamente, só voltando a tomar o remédio uma semana depois, após me sentir mais seguro e estar com a minha família por perto.

Os sintomas continuaram mesmo com a dosagem pela metade. Quando tomei a dose inteira, eu me sentia ainda com dores de cabeça e muito vazio por dentro. Somente após um mês com o remédio e com a ajuda de terapias semanais, comecei a melhorar e deixar a depressão e a Síndrome do Pânico para trás. O medicamento foi muito importante, assim como as terapias e os exercícios físicos. Passei a enfrentar meus medos e a criar uma rotina mais saudável. Também me senti uma pessoa melhor, diferente de antes, mais perceptivo com meu corpo e com as pessoas a minha volta, e a achar mais graça na vida. Uma coisa importante e que fez muita diferença foi a minha espiritualidade, ou seja, a fé em Deus.

No ano passado fui dispensando do trabalho em que estava. Tinha tirado licença pelo INSS para seguir com o tratamento e, ao retornar, havia sido mandado embora. Estava com 10 meses de tratamento e uso de antidepressivo, porém, com a perda do emprego também acabei perdendo meu convênio, ficando mais difícil manter as consultas e os remédios. No final do ano passado fui diminuindo a dosagem até não tomar mais o antidepressivo. Sei que não deveria ter feito essa retirada, sozinho, porém, já não conseguia pagar mais as consultas e me sentia muito bem. Fazia acompanhamento psicológico pelo menos uma vez por mês e seguia com minha vida normalmente.

O ano de 2017 estava indo muito bem. Dediquei-me aos estudos e recebi muito apoio da minha família. Porém, em agosto, passei por um episódio de SP. Tive alguns tremores, palpitação e tontura. Custei um pouco a dormir e acordei cansado. Dois dias depois veio nova crise, só que muito mais forte. Na noite seguinte encarava outra crise aguda de ansiedade e pânico. Comecei a enfrentar dores pelo pescoço, costas, pernas e muita dor de cabeça. As crises tinham voltado piores e as dores insistiam em permanecer o dia todo. Era insuportável! Eu me sentia um lixo e não conseguia sair da cama, pois tudo voltou, afetando meu dia a dia, meus estudos e meu convívio com as pessoas. Cheguei a pensar que era o fim, e a qualquer coisa diferente que acontecia o medo de morrer tornava-se real. Retomei o tratamento psiquiátrico. E nesta retomada, acabei descobrindo este espaço maravilhoso. Venho acompanhando este blog há algumas semanas. Descobri-o quando reiniciei meu tratamento. Este espaço só tem me ajudado, pois ao ler e ver as dúvidas que cada um traz e as aflições pelas quais passa, faz-me sentir menos sozinho com meus medos. Passei a compreender que não sou uma pessoa estranha. Existem milhares como eu.

O tratamento está no começo, ainda sinto dores de cabeça, no estômago e um aperto no peito. Tenho dificuldades para dormir, achando que não me levantarei no dia seguinte, ou, que serei acordado com uma crise. Isso tem afetado meu dia a dia, pois não são todos que entendem. É difícil para eu me levantar, mas tento encarar. O mais difícil são as noites, pois, se estou na rua fico preocupado, se estou em casa também fico, e morro de dores pelo corpo. Há dias em que estou bem e noutros muito ruim, com medo de que meu coração pare, que eu caía e ninguém me ajude. Ainda evito sair sozinho, e somente saio com quem conheço há mais tempo. Sei que muito também depende de mim, e, com a ajuda necessária, todos nós sairemos desta, mas, no começo do tratamento, esta doença castiga muito e nos derruba.

Deixo o meu relato para outras pessoas que se encontram em situação parecida. Nós iremos vencer! Tenho muito medo ainda, porém estou tentando viver um dia de cada vez. Sinto que com mais tempo de remédio eu conseguirei enfrentar meus problemas e desafios, superando tudo e sentindo bem comigo mesmo. Sigo tentando…

Nota: O Grito, obra de Edvard Munch

 

TRANSTORNOS MENTAIS E EXTREMISMO RELIGIOSO

Autoria de Ster Nascimento*

      

Ah, se eu tivesse encontrado este cantinho há mais tempo!

Sofri boa parte da minha vida com a ansiedade. Há 6 anos travo uma luta intensa com a síndrome do pânico (SP). Venho de uma família religiosa que sempre atribuiu meus problemas à “falta de Deus” e às  “coisas espirituais”. Mal sabiam eles, que foi essa criação exageradamente religiosa que engatilhou a maioria das minhas crises. Medo do “mal”, de não estar “protegida por Deus”, de “perder a minha alma”, de “coisas sobrenaturais”. Lembro-me de que, por quase um ano, quando me encontrava na pior fase do pânico, quando via uma igreja, cruzava a rua, com medo de passar por perto. Até hoje, quando estou dentro de um templo religioso, sinto minhas mãos suarem e a pressão cair, e fico alarmada o tempo inteiro. E quando alguém lê ou fala algo referente ao sobrenatural, pronto! O gatilho é acionado, e a crise começa imediatamente.

É inacreditável como nos tornamos prisioneiros de nossa mente em razão de nossos tabus. Mais triste ainda é o fato de a maioria das pessoas não entender nada sobre o assunto. E, por desconhecerem-no ou por preconceito, acabam nos fazendo sentir piores do que nos encontramos. Isso me levou a demorar muito para começar o tratamento psiquiátrico. Eu sentia  medo de não ser compreendida. Medo de ser algo puramente espiritual, medo de estar desagradando tanto a Deus, a ponto de o mal estar sempre me rondando. Mas graças a esse mesmo Deus, que me fez compreender que Ele age através das pessoas, dos médicos e também dos medicamentos, encontrei alguém com o mesmo quadro que eu. Alguém que também foi criado com uma religiosidade conservadora e extremista, e que trazia sequelas como a minha, ou seja, o medo extremo do “mal” e as tão persistentes e desesperadoras crises de pânico! Essa pessoa esclareceu-me sobre o tratamento psiquiátrico, e como isso mudou sua vida.

Encontro-me no começo do meu tratamento! Ainda sofrendo o gostinho dos efeitos adversos. Sei que todos os antidepressivos trazem-nos. Às vezes tudo piora e os pensamentos ruins intensificam. A ansiedade parece ficar pior. Mas eu não ligo! Juro que não! Eu só não quero ter mais “medo”. Eu passo por qualquer coisa, para conseguir dobrar os meus joelhos e agradecer a Deus, sem o medo doentio que ainda me acomete. Quero poder entrar na casa dEle, sem desespero, imaginando que algo ruim possa me acontecer. Com o resto terei paciência. Eu só não aguento mais carregar este MEDO que me apavora e aprisiona.

*Dona do blog Desventuras de uma Cacheada

SER POP É FUNDAMENTAL!

 Autoria de Ana Maria Mallmann

Tenho 25 anos. Comecei a sofrer de TAG há quatro anos, depois do término de um relacionamento abusivo. No mesmo ano consegui melhorar sozinha, pois comecei a faculdade, fiz novas amizades e deixei as memórias daquele relacionamento traumático para trás. Porém, eu sou uma pessoa muito contida e sensível, e, com o passar do tempo, foram surgindo problemas familiares e emocionais. Fui absorvendo tudo até que, em novembro do ano passado, a ansiedade voltou como um tsunami na minha vida, trazendo junto consigo a síndrome do pânico (SP). Desde aquele mês até abril deste ano sofri quatro ataques de pânico. Um foi em casa, outro numa festa de casamento, e os outros dois no ônibus e no trem, a caminho da faculdade. Foi simplesmente horrível! Fiquei, durante duas semanas, trancada em casa, e extremamente preocupada, porque adorava estudar, passear com a família e os amigos. Eu, que viajava sozinha e nunca tinha problema com lugares cheios de gente, daquele momento em diante, só de ir à esquina da minha casa já entrava em pânico. Ao entrar num supermercado, na sala de aula cheia de colegas ou num restaurante, eu já queria sair correndo, desesperada.

Agilizei para buscar ajuda profissional. Meu neurologista/psicopatologista me diagnosticou com SP (Síndrome do Pânico) e Agorafobia (medo mórbido de encontrar-se em lugares públicos e grandes espaços descobertos, de onde é difícil ou embaraçoso sair) e, para o meu tratamento, ele receitou o Escilex, sendo cinco mg na primeira semana, aumentando para 10 mg a partir da segunda. Nas duas primeiras semanas eu acordava sentindo um aperto no peito e muito ansiosa. Tive dores de cabeça, diarreia, boca seca, muita sonolência, e não sentia prazer em nada e, por isso, passava o dia inteiro jogada no sofá ou na cama, sentindo-me angustiada e muito desanimada, achando que isso nunca iria passar. Se não fosse pelo fato de ter descoberto este cantinho, logo no início, eu teria desistido do meu tratamento!

Encontrei aqui neste espaço tantas pessoas passando exatamente pelo que eu estava sentindo, que eu lia os comentários como se fossem meus, e lia as respostas como se fossem para mim. Isso me deu muita força e me senti acolhida. Dói muito saber que há tantas pessoas sofrendo de TAG, SP, depressão, muitas delas se sentindo extremamente sozinhas, tomando atitudes drásticas para acabar com o sofrimento, mas, ao mesmo tempo, sinto muita esperança, ao ver que existem pessoas bondosas, empáticas e pacientes como a Lu, a quem sou muito grata por ter criado este cantinho, um alento para mim, que me sentia muito sozinha, pois as pessoas à minha volta não entendiam direito o que eu sentia, não dando muita importância ao meu problema. Além disso, ela me deu coragem para ultrapassar aquela fase tenebrosa do início do tratamento. Um conselho, palavras consoladoras de alguém que sente ou sentiu as mesmas coisas que a gente, tudo isso é fundamental para seguir adiante.

Hoje está fazendo exatamente um mês que comecei meu tratamento. As reações adversas desapareceram, não estou 100%, pois cada dia ainda é uma luta para sair de casa, mas, quando chego, sinto-me aliviada, animada e mais otimista por ter conseguido pegar um transporte público, ter voltado às aulas e, aos poucos, ir recuperando meus estudos e a minha vida social. Meu conselho para cada um daqueles que se sentem vítimas de transtornos mentais é que procure um médico que lhe passe segurança e que escute atentamente tudo aquilo que você tem para falar. Quando a vontade de desistir for grande, respire fundo e venha para este cantinho. Ser POP (paciente, otimista e persistente) é fundamental!

Um abraço com carinho para todos, em especial para você, querida Lu!