A VIDA NO BREJO E O LUAR DO SERTÃO

Siga-nos nas Redes Socias:
FACEBOOK
Instagram

Autoria do Prof. Rodolpho Caniato

As luzes da jovem e vaidosa Copacabana, na cidade do Rio de Janeiro, tinham sido substituídas, para mim, pela escuridão e também pelo luar do sertão, coisas que eu nunca imaginara até entrão. O céu da cidade, cuja presença eu nem notara, agora se apresentava num esplendor que me deixaria deslumbrado e cativo para o resto da minha vida. Era preciso aprender a andar na escuridão, pelos caminhos rústicos trafegados apenas a pé, por carroças ou algum cavaleiro. O luar desconhecido da cidade, agora, no meio rural, além da poesia, tornava os caminhos bem visíveis, mudava muito a vida da gente. Das noites no sertão ficaram em mim impressões e lembranças que nunca se apagariam.

Além do luar e do céu estrelado havia a familiaridade com todo um mundo de ruídos da noite: os latidos distantes dos cães que guardavam seus terreiros, as corujas e os curiangos piando seus solos e, como grande coral, o coaxar da saparia pelos brejos. Se todo o mato tem uma grande variedade de ruídos noturnos, os brejos têm algo de especial. Aí vivem, numa imensa variedade e proximidade, sapos, sapinhos, sapões, rãs e pererecas, além de aves, cobras e uma multidão de insetos aéreos e terrestres. No verão, essa variedade se enriquece com pirilampos que riscam com sua suave luz a escuridão da noite.  É interessante que essa espantosa variedade de seres vivos “dá expediente” principalmente à noite. Toda essa imensa diversidade de vida “funciona” plenamente na mais completa escuridão.

Algumas dessas “descobertas” eu pude fazer muito cedo, ainda criança. Com um precário lampião a querosene ou com a mais “avançada tecnologia” da época: um lampião a carbureto. Com ele, eu fazia “expedições” para pescar em pequenos riachos ou para caçar rãs, logo depois das chuvas. A simples presença de uma pequena luz, não só mostra como alvoroça toda a vida do brejo, mas também a que existe ao seu redor. A forte impressão sobre a grande variedade de bichos e a presença perturbadora da luz sobre a vida do brejo ganhariam, no futuro, para mim, um significado muito maior.

Nota: Extraído do livro “Corrupira”, ainda inédito, do autor.
Imagem: Meninos Brincando, obra de Portinari

2 comentários em “A VIDA NO BREJO E O LUAR DO SERTÃO

  1. Celina Telma Hohmann

    Professor Caniato

    Se hoje eu tivesse como optar, sem sombra de dúvida estaria de lampião à mão à cata dos sapos, sapinhos, sapões… Sou absurdamente apaixonada por esse fascínio que há no que não vivo: a vida no campo, distante dos barulhos tolos da cidade e seus alaridos, ofegante em estar sempre indo, indo e ao final, não ir a lugar algum.

    Fizeram-nos citadinos, sem que nos dessem a oportunidade da escolha. Ao menos, comigo é assim. Trocaria, sem um pingo de pena, um belo viver à cata das variadas espécies que convivem majestosamente em meio à natureza sem a sofreguidão do cansar-se por nada, pela insípida vida rodeada de luzes, cores, corridas ou correrias e me daria ao luxo do apreciar o luar, o colorido e bem distribuído tom dourado das estrelas num céu meio cinza. E cá estou, no aconchegante quarto iluminado e aquecido, pensando nas belezas que o escuro esconde. Trocaria os sons de buzinas pelos latidos dos cães e teria como a graça o ser livre para o que eu desejasse ser! E lá vou eu de imaginar os caminhos que precisam ser cuidadosamente vasculhados para então, num repente de surpresa, descobrir uma rã animada fazendo-se de presa para as minhas buscas. Não tenho as rãs, mas as busco na vida do brejo e no belo luar do sertão!

    Mais uma vez, amei seu texto! Como não amar?

    Responder
  2. LuDiasBH Autor do post

    Prof. Caniato

    Um garoto da cidade, naquela época em que não havia praticamente uma alusão à vida no meio rural, como vemos hoje através de filmes, novelas e internet, desconhecia praticamente tudo. Não é de estranhar o seu encantamento diante de um mundo que lhe era completamente novo, como se fosse um outro planeta. O luar e a vida no brejo trazia todo um encantamento, como ainda acontece nos dias de hoje, com os garotos citadinos, quando visitam o campo, ainda que esse já esteja iluminado pela luz artificial e não haja necessidade de um lampião a querosene.

    Seu texto é belo e extremamente poético, como sempre!

    Abraços,

    Lu

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *