Carracci – O COMEDOR DE FEIJÃO

Siga-nos nas Redes Socias:
FACEBOOK
Instagram

Autoria de Lu Dias Carvalho

O pintor italiano Annibale Carracci (1560-1609), nascido em Bologna, era oriundo de uma família de artesãos. Seus ancestrais eram alfaiates. Seu irmão Agostino (1557-1602) formou-se como gravador e pintor. Annibale começou trabalhando na alfaiataria, mas depois seguiu os passos do irmão mais velho, com quem trabalhou na oficina do primo Ludovico Carracci em Bolonha, o que leva a crer que esse tenha sido seu professor. Os três fundaram uma escola artística chamada Academia degli Incamminati (Academia do Caminho), sendo Ludovico o dirigente da escola, conhecido por sua rejeição ao estilo maneirista. Annibale era o mais criativo do grupo. Os três artistas trabalharam juntos na decoração do Palazzo Fava em sua cidade natal. Em muitas das primeiras obras de Bolonha, é difícil distinguir as contribuições individuais de cada um deles, pois carregam apenas a assinatura “Carracci”, o que pode sugerir que os três participaram.

A composição intitulada O Comedor de Feijão é uma obra de Annibale Carracci. Nela o artista mostra a sua abertura em relação às tendências realistas da pintura de gênero do Norte europeu. Muitas de suas obras retratam a vida de pessoas simples. Esse foi também um período em que artistas e compradores passaram a mostrar interesse por composições sobre a vida cotidiana da gente simples, nascendo, assim, a chamada “cena de gênero” que já vinha aparecendo nas tapeçarias do século XV.

Para criar a composição acima, Carracci considerou uma estrutura de composição bem comum, optando por pinceladas cruas e simples, fazendo uso de tons de terra. Ele apresenta um homem simples – um camponês ou trabalhador rural – sentado à mesa, fazendo a sua refeição. Usa uma colher de madeira para comer seus feijões. A mesa está coberta com uma toalha branca. Sobre ela, num alinhamento simples, estão: a tigela com feijões, cebolas, pão, um prato com torta de vegetais, um copo pela metade e um vaso listrado de cerâmica. Tudo ali é singelo.

O homem usa roupas modestas e traz sobre a cabeça um chapéu de palha. Possui maneiras rudes e parece comer avidamente. Olha furtivamente para o observador e traz a boca aberta. O pintor não foge à dura realidade do retratado tanto em sua técnica pictórica quanto na abordagem artística. As cores sem brilho em tons de terra são depositadas na tela em pinceladas grossas e irregulares.  Annibale Carracci,  deliberadamente, não acrescentou a ela qualquer artifício ou habilidade. Assim, tudo nela é modesto, é simples, até mesmo o modo como foi criada.

Ficha técnica
Ano: c.1580-1590
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 57 cm x 68 cm
Localização: Galeria de Colonna, Roma, Itália

Fontes de pesquisa
Obras-primas da arte ocidental/ Taschen
1000 obras-primas da pintura europeia/ Konemann

Views: 41

PATA DE GALINHA NÃO MATA PINTO

Siga-nos nas Redes Socias:
FACEBOOK
Instagram

Autoria de Lu Dias Carvalho

galinpin

Minha mãe nunca foi chegada a bater nos filhos. No muito, a gente levava uns cocorotes, ou ficava de castigo, mas por pouco tempo, já que nossos rogos conseguiam demovê-la de seu intento castigador com a maior facilidade. Nós nos comprometíamos a nunca mais repetir tal diabrura, promessa que ela mesma sabia ser fictícia, mas, mesmo assim, fingia acreditar. Meu pai, ao contrário, vindo de uma família matriarcal, castigava por ele e por ela, motivo de zangas entre eles. Ele se baseava na filosofia de que “Quem come do meu pirão está sujeito ao meu corrião.”, mas, nem por isso deixou de ser um bom pai, empenhando seus parcos recursos e muito suor na educação de seus filhos. Tudo era uma questão de ponto de vista na forma de educar.

Dentre as seis irmãs de minha mãe, uma delas tinha a mão pesada para castigar seus filhos. A qualquer palavra (mal)dita, a mão comia de concha na boca do sentenciado, seguida do refrão: “Eu te quebro os dentes, se repetir isso de novo!”. Na sua casa havia um grande arsenal de tortura infantil: ramos de fedegoso (café negro ou folha do pajé), chinelos e um chicotinho de couro, todo metido a besta e servil, pois se encontrava sempre à mão, quando dele ela precisava. Batia de leve, mas doía!

Minha mãe, muito carinhosa com os sobrinhos, tinha o maior cuidado em não deixar que a minha tia brava soubesse das peraltices de seus filhos. Lia-lhes um sermão, é verdade, mas tudo ficava ali, escondidinho, debaixo de sete chaves, entre arrependimentos e promessas que voltariam a ser descumpridas – disso ela não tinha dúvidas. E ai daquele que virasse um delator!

De uma feita, minha prima Zazá que andava com uma gripe danada e meio febril foi para minha casa, sob a promessa de permanecer em repouso absoluto e não mexer com friagem. Cansadas da rotina, ela e eu furamos o cerco de minha mãe e fomos para o rio que passava no nosso quintal, para tomarmos banho. Que delícia! Aquilo era o paraíso na Terra! E quem se lembrava de gripe? Mas os cabelos molhados traíram-nos.

Minha mãe contornou a situação prometendo-me um castigo ainda a ser pensado, enquanto enxugava a cabeleira dourada e encaracolada da minha prima. Mas tudo teria terminado dentro dos conformes, se uma lavadeira boca de trombone não tivesse batido com a língua nos dentes e delatado nossa tão santa diversão à minha amada tia. Imediatamente chegou um estafeta – meu primo mais novo – intimando a vítima. Minha mãe, pressentindo o perigo,  bateu logo depois à porta da casa da minha tia, onde o coro já comia de concha. Minha prima estava sob uma saraivada de lambadas de fedegoso nas pernas e no bumbum. E pior, não lhe era permitido dar um grito. Minha mãe enfrentou a tia raivosa com valentia:

– Mulher, não faça isso com a criança, não vê que ela está doentinha?

– Doentinha coisa nenhuma! Se estava boa para ser desobediente, também está boa para apanhar – respondeu minha tia com o fedegoso na mão.

– Se você não parar de bater na menina, não volto mais aqui! – disse minha mãe.

– Irmã, você não sabe que pata de galinha não mata pinto? – tripudiou minha tia.

O que sei é que minha mãe ficou uns quinze dias sem ir à casa da minha adorada tia castigadora. Eu nunca mais me esqueci de que pata de galinha não mata pinto. Pode não matar, amada tia, mas que machuca, isto eu sei!

Views: 31

DORA MAAR COM GATO (Aula nº 97 E)

Siga-nos nas Redes Socias:
FACEBOOK
Instagram

Autoria de Lu Dias Carvalho

O genial artista espanhol Pablo Ruiz Picasso, além de ser conhecido como revolucionário, visionário e vanguardista, foi também famoso pelo número de mulheres que teve em sua vida. Entre elas estava Dora Maar. Picasso travou conhecimento com a fotógrafa e intelectual de esquerda, de origem croata, que se transformou em sua nova amante, passando a ser sua modelo preferida e uma de suas mais significativas musas. Além de inteligente, ela era famosa por sua beleza, sobretudo pelos cabelos escuros. Ele viveu 10 anos com Dora Maar.

O artista retratou Dora Maar em inúmeras pinturas, sendo Dora Maar com Gato, obra cubista, uma das mais conhecidas. Ela se encontra assentada numa cadeira de madeira, com três quartos do corpo à vista, de frente para o observador. Seus braços descansam nos braços da cadeira. No seu espaldar, à direita da retratada, está um gatinho negro, de pé e com o rabo levantado, que também fixa o observador.

As unhas afiadas de Dora Maar lembram as do gato. Estudiosos de Picasso dizem que ele, certa vez, comparou o fascínio e o temperamento de sua amante semelhantes ao de um gato afegão, portanto, o animal aqui representado carrega em si muitos significados. Na história da arte, a presença de gatos alude aos artifícios da mulher e à agressão sexual. As unhas de Dora Maar reforçam esta significação.

Chama a atenção em especial o chapéu surrealista com que Dora Maar foi retratada. Sua vestimenta possui uma bela padronização. Seria o chapéu uma coroa e a cadeira um trono, feitos pelo pintor para homenagear sua musa? Segundo a crítica, Dora Maar com Gato é uma obra extraordinária de Picasso, tanto pela seleção das cores, pela atenção aos detalhes, pela execução e o simbolismo utilizado.

Ficha técnica
Ano: 1941
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 128,3 x 95,3 cm
Localização: Coleção particular

Fontes de pesquisa
http://totallyhistory.com/dora-maar-au-chat/
http://paintinghistory.blogspot.com.br/2008/12/dora-maar-au-chat.html

Views: 3

FICAR A VER NAVIOS

Siga-nos nas Redes Socias:
FACEBOOK
Instagram

Autoria de Alfredo Domingos

china1

Um sábado de chuva, após o retumbante cozido de Mariinha, estávamos, meu amigo e eu, a caminho dos braços de Morfeu, procurando cama pra encostar, quando foi trazida a ideia de enveredarmos pelas trilhas dos ditados, das expressões e dos provérbios. O tempo passaria sem lerdeza. Topamos. Cada um de nós dizia o seu e dava a explicação. Ficou animado. Colhi nos meus botões a pérola: “ficar a ver navios”. Tive que de pronto oferecer interpretação. Pensei um pouco e revelei até duas:

A expressão vem de Portugal. O rei, Dom Sebastião, morreu na batalha de Alcácer-Quibir em 1578, e seu corpo nunca foi encontrado. A morte causou uma grande crise sucessória. O trono ficou vago. Em consequência houve a anexação de Portugal à Espanha, de 1580 a 1640. O orgulho e a dignidade dos lusitanos clamavam por resgate. O povo português sonhava com a volta do monarca. Assim, com frequência, havia visitas ao Alto de Santa Catarina, em Lisboa, para observar o mar, à espera do retorno do rei. Como ele não voltou, o povo, em vão, “ficava a ver navios”.

Outra explicação, a qual cabe dar crédito, é que as mulheres ficavam aguardando a volta dos maridos, que tinham zarpado com as embarcações, nas grandes navegações portuguesas. Depois de muito tempo, as coitadas colocavam-se a espiar os navios que chegavam ao porto, para reverem seus amores, o que ocorria quase sempre sem sucesso. Então surgiu a expressão: “ficar a ver navios”. Ou seja, esperar por algo que não se realizava.

Atualmente, a expressão é usada no sentido de ser ludibriado, enganado. É tomada para realçar a decepção e a ausência de pessoas e de sentimentos. Para o emprego que não veio, uma nota de reprovação, o dinheiro negado, a empresa que faliu, e tantas outras coisas, exclama-se tristemente na representação da perda, seja ela qual for, “fiquei a ver navios”.

Diga-se de passagem, há mais expressões com o mesmo significado. Recordei-me de duas espetaculares. Querem dizer que, em síntese, nada aconteceu. Os sujeitos, por conseguinte, ficaram a “ver navios”. São um pouco esquecidas, puxadas para a comicidade, mas cheias de representatividade. São elas: “patavina” e “neres de pitibiriba”. Para entendimento de como são empregadas, o povo utiliza mais ou menos destes jeitos: sem que para ele acontecesse patavina do que estava combinado; e ela contentou-se em receber neres de pitibiriba em troca dos favores realizados.


F
ontes de consulta: Dicas de Português- Sérgio Nogueira e www.significados.com.br

Views: 0

VIOLINO E CÂNTARO (Aula nº 97 D)

Siga-nos nas Redes Socias:
FACEBOOK
Instagram

Autoria de Lu Dias Carvalho

Compreendeis a língua chinesa? Ainda assim é falada por meio bilhão de homens. (Pablo Picasso)

A composição Violino e Cântaro é uma obra do pintor normando Georges Braque na sua busca por uma nova linguagem pictórica, embora até mesmo os especialistas em arte vissem com desconfiança o novo caminho tomado por ele e Picasso. Enquanto o segundo prosseguia com sarcasmo em relação a seus críticos, o primeiro seguia tranquilo, fazendo ouvidos de mercador.

Na obra acima, Georges Braque mostra o violino e o cântaro, as duas peças chaves da composição, como se essas estivessem sendo vistas através de um espelho estilhaçado. Mesmo multifacetados, os dois objetos podem ser reconhecidos. Os pontos mais escuros são responsáveis pelo volume. A maior preocupação do artista é com as linhas da composição, ficando a cor reduzida aos tons terrosos e aos cinzas. O método empregado é o chamado Cubismo Analítico.

Ficha técnica
Ano: 1910
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 117 x 81,5 cm
Localização: Museu de Arte, Basileia,  Suíça

Fonte de pesquisa
Gênios da Pintura/ Abril Cultura

Views: 32

NÃO PISE NO CALCANHAR DE AQUILES

Siga-nos nas Redes Socias:
FACEBOOK
Instagram

Autoria de LuDiasBHaquiles

Segundo a Ilíada, obra atribuída a Homero, poeta épico da Grécia Antiga, Tétis, a mãe de Aquiles, queria que o filho se tornasse imortal – coisa de mãe coruja. Para que isso acontecesse, ela teria que se dirigir ao todo poderoso rio Estige, cujas águas tinham o poder de trazer imortalidade aos pobres mortais.

Dona Tétis dirigiu-se ao rio Estige com a sua pequena cria e ali mergulhou todo o corpinho da criança – de cabeça para baixo – segurando-o pelo calcanhar, enquanto o pirralho botava a boca no mundo, imagino eu, pois a maioria dos bebês não é chegada a receber água nos olhos e ouvidos. Esqueceu-se, porém, a zelosa mãe de também molhar o calcanhar do pequenino.

Aquiles ficou com o corpo todo invulnerável, excetuando o calcanhar, parte essa que seria a sua perdição no futuro. Contudo, penso que todo o pezinho do bebê ficou vulnerável. Teria sido impossível segurá-lo pelo calcanhar, não molhá-lo, mas molhar o pé, não é mesmo?  Pelo visto, tratava-se apenas de um dos calcanhares, ficando o outro dentro da água. Que posição estranha para mergulhar a criança!

Já homem feito (ou seria semideus?), ao participar da Guerra de Troia, Aquiles levou uma flechada envenenada exatamente naquele local desprotegido, vindo a falecer. Portanto, meu caro leitor, se você tem algum lugarzinho em seu corpo, através do qual pode ser atacado e ferido com facilidade, trate de revesti-lo com chapas de aço.

Se o seu lugar vulnerável for o coração, procure adotar uma nova postura na maneira como vê a vida, não se deixando abater por coisas que não valem a pena, a vida é muito curta para isso. Caso perceba o calcanhar de Aquiles em outra pessoa, evite feri-lo, porque nem todos os feridos vão a óbito. Alguns pegam a própria flecha e revertem-na para o ofensor, trazendo-lhe muitos aborrecimentos.

Ilustração:The Wrath of Achilles – François-Léon Benouville

Views: 0