Arquivo do Autor: Lu Dias Carvalho

POEMA PARA OS ENFERMEIROS

Autoria de LuDiasBH

PIPI

Quem ousa dizer que não mais existem anjos,
se eles grassam por todos os cantos da Terra,
com suas mãos de luz e coração compassivo,
levando lenitivo, alívio e amor aos locais mais
diversos, onde a tristeza e a dor imperam?

Quem pode falar que não mais existem anjos,
se eles deixam para trás seus entes queridos,
para socorrer os membros de outras famílias,
e mesmo fatigados, explorados e esquecidos,
aliviam-nos no padecimento e na agonia?

Quem ousa dizer que não mais existem anjos,
se eles, com seus trajes suaves, acalmam os
doentes, acudindo-lhes o corpo com remédio,
o espírito com palavras de incentivo, mesmo
quando no próprio coração a dor impera?

Quem ousa dizer que não mais existem anjos,
se esses estão em todos os lugares da Terra,
curvados sobre o leito dos enfermos ? muitos
já renegados pela família ? minimizando-lhes  
a dor e o pranto que no rosto sofrido rola?

Quem pode falar que não mais existem anjos,
se esses socorrem todos os doentes, mesmo
correndo o risco de infectarem-se e portarem
doenças pra suas preciosas famílias, quando
os familiais desses há muito já se afastaram?

Quem pode falar que não mais existem anjos,
quando os sustenta um mísero salário e logo
são esquecidos pelo bem que fazem, lesados
por um sistema capitalista feroz e, inda assim,
estão em seus postos, faça chuva ou sol?

São tantos anjos de luz, indulgente legião do
bem. Anjos compassivos de diferentes idades,
circulando por todos os quadrantes da esfera,
sempre que o dever sagrado de salvaguardar
vidas os chama em qualquer lugar da Terra.

Alguns são bem novinhos, ainda no iniciar de
sua jornada. Outros muito experimentados na
caminhada. Todos pelejando em apoio à vida.
Anjos negros, brancos, amarelos, morenos e
ruivos, todos luzindo belos fachos de luz.

Tais anjos espalham-se por todos os lugares:
hospitais, postos de saúde, salas de cirurgias,
apartamentos, serviços de urgência, zonas de
guerra, enfermarias, casas de beneficências e
como cuidadores nas casas de famílias…

Anjos cruzam céu, terra e ar em prol da vida.
Anjos ornados das mais reluzentes auréolas.
Anjos de asas recolhidas no próprio coração.
Benditos sejam, filhos de luz, enfermeiros da
Terra, mensageiros amados do Mestre Jesus!

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MINHA ESPOSA É BIPOLAR

Autoria de Carlos Ricardo

Até o início do ano passado eu mal sabia o que era o Transtorno Afetivo Bipolar (TAB), muito menos que se trata de uma doença mental terrível com graves consequências tanto para a pessoa doente quanto para aqueles que a amam.

Sou casado há 23 anos e tenho três lindas filhas.  Minha esposa tem Transtorno Bipolar. Descobrimos a doença dela no início de 2019 de uma maneira muito complicada para toda a família. Descobri que minha esposa me traía com várias pessoas online e com alguns encontros furtivos com diferentes homens, pessoas sem sentido algum que em condições normais ela não consideraria interessantes quer fisicamente ou intelectualmente, inclusive flertando com alguns conhecidos.

Meu mundo caiu, fiquei desnorteado e sem entender porque minha mulher havia feito aquilo comigo. Descobri também que, embora esse comportamento ocorresse nos últimos meses antes de eu descobrir, desde 2015 episódios isolados ocorriam, com intervalos de meses, depois recaindo no mesmo tipo de comportamento. Como nada fazia sentido, nem pra ela mesma, fomos a dois psiquiatras que a diagnosticaram com o Transtorno Bipolar. Nos últimos anos, portanto, ela teve surtos maníacos que a faziam me trair.

Desde então fomos a vários e excelentes profissionais para entender a doença, além de lermos bastante sobre o assunto. Explicaram-me que tudo aquilo que ela havia feito não era fruto de sua simples vontade, não se tratava de falha de caráter ou “safadeza”, mas, sim, de um sintoma terrível de uma doença mental grave. Compreendi como o Transtorno Bipolar faz a pessoa oscilar entre a depressão, normalidade e mania. Compreendi que os sintomas principais do estado maníaco são abuso de álcool e drogas, humor elevado, fala e pensamento acelerados, comportamento impulsivo, agressividade, hipersexualidade e traição dos parceiros.

Na maior parte dos casos, como no da minha esposa, os estados maníacos duram semanas ou até meses e depois se alternam com estados depressivos e longos períodos de normalidade. Mas existem também casos de ciclagem rápida e estados mistos em que mania, depressão e normalidade se sucedem de um dia pro outro. A forma como os sintomas aparecem também variam de pessoa a pessoa. Em alguns bipolares a hipersexualidade, por exemplo, manifesta-se na prática sexual descontrolada com qualquer parceiro e no consumo abusivo de pornografia. Na minha esposa a hipersexualidade manifestava-se pelo flerte, a vaidade excessiva, o ego inflado, a vontade de ser desejada e não pelo ato sexual em si.

É importante entender que apenas com conversas, orações e promessas as crises maníacas bipolares não serão controladas, porque as coisas que o bipolar faz em crise fogem da vontade e do controle dele próprio, sendo causadas por desequilíbrios químicos cerebrais. A doença mental só pode ser controlada com medicação correta e, enquanto isso não acontecer, novas crises virão.

De tudo o que li e das conversas que tive com os profissionais, estou plenamente consciente de que só é possível manter a relação com uma pessoa bipolar, caso ela faça um pacto com seu parceiro de seguir corretamente o tratamento para o resto da vida, tomando a medicação e consultando-se com certa regularidade. Foi o que fiz com minha esposa. Caso contrário simplesmente não há como prosseguir no relacionamento. É importante também que o parceiro de um bipolar cuide de sua saúde mental e busque terapia sempre que necessário, porque não é fácil lidar com as consequências do que essa doença mental faz com a família e com as pessoas próximas. Eu busquei esse tratamento e foi muito importante pra mim.

Atualmente minha esposa está bem medicada e plenamente consciente de sua doença. Estamos muito bem, embora eu ainda tenha de lidar com os traumas decorrentes da história toda. Decidi apostar na continuidade do nosso relacionamento, porque sempre tivemos uma relação excelente e construímos uma vida juntos. Sei que sou exceção. Quando se trata de um dos cônjuges ter uma doença mental, normalmente as mulheres apoiam seus parceiros e tentam manter o relacionamento de pé, enquanto os homens abandonam suas parceiras doentes diante da primeira dificuldade. Eu decidi continuar, porque ela se comprometeu com o tratamento, porque a conheço como ninguém e sei que ela merece todo o meu respeito.

Nota: a ilustração é uma obra de Pablo Picasso, intitulada Garota no Espelho

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Botticelli – PALAS ATENA E O CENTAURO

Autoria de LuDiasBH

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A composição denominada Palas Atena e o Centauro é uma obra do pintor italiano Sandro Botticelli. Nela estão representados a deusa e um centauro (ser pertencente à mitologia grega, com cabeça, braços e dorso de um homem, mas com o restante do corpo de um cavalo).

A deusa Palas Atena é também conhecida apenas como Atena. Na mitologia grega é responsável por inúmeros atributos: civilização, sabedoria, estratégia, guerra, justiça, habilidade, companheira dos heróis, etc. Na mitologia romana ela recebe o nome de Minerva.

No seu quadro Botticelli representa a deusa Palas Atena detendo um centauro. Chama a atenção a roupa da deusa, bordada com ramos de oliveira, assim como a expressão de tristeza do centauro.

Curiosidade
Os centauros têm sido retratados numa série de livros de inúmeros escritores, com as mais diferentes representações, ora como seres bons ora como maus.

Ficha técnica
Ano: c. 1482
Técnica: têmpera sobre tela
Dimensões: 207 x 148 cm
Localização: Galleria degli Uffizi, Florença, Itália

Fonte de pesquisa
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann
Mitologia/ Thomas Bulfinch

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Pontormo – VÊNUS E CUPIDO

Autoria de Lu Dias Carvalho

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O pintor italiano Jacopo Carucci (1494 – 1556) nasceu na cidade de Pontormo, na Toscana, apelido que viria a dotar em sua arte. Teve como mestre Leonardo da Vinci e Piero di Cosimo, vindo depois a entrar para o ateliê de Andrea del Sarto, tendo desenvolvido um estilo maneirista distinto. Em 1522 foi morar no monastério da Ordem dos Cartuxos, onde pintou uma série de afrescos, cujo tema era a Paixão e a Ressurreição de Jesus Cristo. Foi professor de seu filho adotivo Agnolo Bronzino e também colaborador de Michelangelo. Suas últimas obras receberam a influência das gravuras de Albrecht Dürer, por quem nutria grande admiração e seguiu o modelo de Michelangelo. Assim como Rosso Florentino, Pontormo tornou-se o expoente máximo do Maneirismo, com seus trabalhos dramáticos e expressivos.

A composição denominada Vênus e Cupido é uma obra do artista.

Vênus — deusa da beleza e do amor —está acompanhada de seu filho Cupido — deus do amor — nascido de sua relação com Marte, o deus da guerra. Ambos representam na pintura o amor e a poesia, como mostra a alegoria presente à direita de ambos.

O pequeno Cupido está abraçado ao pescoço de sua mãe, fazendo menção de beijá-la. Ambos seguram uma seta, enquanto o arco está dependurado próximo a duas máscaras — masculina e feminina — tendo acima a aljava cheia de setas, instrumentos do deus do amor. Também é possível ver meio corpo de um homem dentro da caixa.

O artista fez esta pintura a partir de um esboço criado por Michelangelo, daí a monumentalidade das figuras.

Ficha técnica
Ano:1532-1534
Técnica: óleo sobre madeira
Dimensões: 128 x 197 cm
Localização: Galleria dell’Accademia, Florença, Itália

Fontes de pesquisa
1000 obras-primas da pintura europeia/ Könemann
Mitologia/ Thomas Bulfinch
Mitologia/ LM

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COVID-19 E O JEITO DE SER MINEIRO

Autoria de Dr. Carlos Starling*

Onde estamos na epidemia? Esta é a pergunta que amigos, familiares e jornalistas me fazem todos os dias. Num misto de exaustão pelo isolamento social e esperança pela volta da “normalidade”, todos sem exceção, se sentem gratos pelos resultados até aqui alcançados. Nossos indicadores mostram estabilidade em níveis que ainda não pressionam os limites dos serviços públicos e privados. O número de mortes está abaixo do inicialmente projetado pelos cenários mais otimistas. Entretanto, vivemos um frágil equilíbrio entre a racionalidade e o desespero.

O sucesso das medidas em curso coloca em xeque as próprias medidas. Se temos tudo controlado, por que não liberamos geral e voltamos para nossas vidas como se nada tivesse acontecido? Como se tivéssemos vivido um grande equívoco, mas valeram as férias forçadas. Não é bem assim!

A epidemia de COVID-19 terá ondas recorrentes em nosso país. Não somos a França, Itália ou Alemanha. Somos quase um continente. A epidemia por aqui, como dissemos em colunas anteriores, ocorrerá em distintas fases com ondas de idas e vindas em classes sociais e regiões. Se não tivermos uma vacina eficaz, segundo estudos de pesquisadores da Universidade de Harvard, a epidemia persistirá em surtos até 2024.

Se hoje temos sucesso, não podemos contar vitória antes da hora. O vírus circula em níveis contidos pela disciplina e pelo jeito mineiro de ser. Nós, mineiros, temos em nosso gene mineral a sabedoria de quem sabe esperar. Escutar mais e falar menos. Como dizia Benedito Valadares “estou rouco de tanto ouvir”. Assim somos, prudentes e amantes da nossa essência que preserva o que há de mais valioso: nossas vidas e as de quem amamos. Minas é saborosamente mágica, como catalogou Frei Betto, em suas inúmeras definições do que é ser mineiro.

Na epidemia de 1918 não foi diferente. A nossa disciplina e prudência impediu que a doença por aqui tivesse os catastróficos números do Rio e São Paulo. O cumprimento das medidas de isolamento social foram a chave naquela época e no presente. Porém, a pressão para que haja uma liberação a qualquer custo das medidas que preservaram a vida de milhares aumenta dia após dia. Por vezes, querem saber quando será o pico! Mas, quem disse que teremos que ter um pico além do Itacolomi?!

Percebo que há uma angústia por chegarmos ao pico da epidemia, como se, assim, a normalidade estivesse logo ali na esquina. Lembra-me a dor de tirar um esparadrapo, pois quanto mais rápido o puxamos menor o tempo do sofrimento. O pico de uma epidemia é também o momento de muita dor para milhares de famílias.

Somos gente que não nasceu destinada à tristeza e ao sofrimento. Nossa obrigação é buscar a felicidade e a alegria. Desta forma, nosso desafio é não termos pico algum. Lutaremos para que a curva se mantenha a mais achatada possível. Assim, estaremos cada vez mais próximos de um tratamento efetivo, de uma vacina e da circulação de vírus menos agressivo. Isso porque a sábia natureza configurou os parasitas com a sabedoria de não destruir todos os seus hospedeiros. Se assim ocorresse, seria a morte do próprio parasita e sua extinção.

Na epidemia atual existem coronas vírus distintos em circulação. Os mais agressivos, felizmente, são a minoria. Com o tempo, circularão as cepas menos agressivas, que permanecerão por tempo indefinido. Não queremos picos e nem encher covas, apesar de as termos aberto por prudência mineira. Como diz o ditado, “o bom mineiro não laça boi com embira, não dá rasteira em pé de vento, não pisa no escuro, não anda no molhado, só acredita em fumaça quando vê fogo, não estica conversas com estranhos, só arrisca quando tem certeza, e não troca um pássaro na mão por dois voando”.

Assim, vamos seguindo vivos e com a esperança de que vai passar. Porque vai passar, mas enquanto isto, fiquemos em casa com a paciência e prudência que Deus nos deu.

*médico infectologista, coordenador do combate ao Covid-19 no estado mineiro e colunista do Jornal Estado de Minas.

Fonte da matéria: Jornal Estado de Minas
Ilustração: Interior de Pobres II, autoria de Laser Segall

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Magritte – A VIOLAÇÃO

Autoria de Lu Dias Carvalho

Neste quadro, o rosto de uma mulher é feito com os elementos essenciais de seu corpo. (René Magritte)

 Minha pintura é feita de imagens visíveis que não escondem nada; evocam mistério e, de fato, quando se vê uma de minhas fotos, nós nos perguntamos: “O que isso significa?” Não significa nada, porque o mistério não significa nada, é incognoscível.

O desenhista, ilustrador e pintor belga René François Ghislain Magritte (1898 – 1967) era filho de Léopold Magritte – alfaiate e comerciante têxtil – e Régina. Ingressou ainda muito novo na Académie Royale des Beaux-Arts/Bruxelas (1916 a 1918), ali permanecendo apenas dois anos, pois achava as aulas improdutivas e pouco inspiradoras. Começou a pintar aos 12 anos de idade. Suas primeiras pinturas – datadas de cerca de 1915 – eram de estilo impressionista. Já as que ele criou durante os anos de 1918 a 1924 receberam influência do Futurismo e do Cubismo figurativo de Metzinger. Era um homem agnóstico, taciturno e aparentemente tímido que cultivava opiniões políticas de esquerda. 

A composição intitulada A Violação é uma das obras do artista e também uma das mais famosas imagens do surrealismo. Uma obra com a mesma temática – O Estupro – já havia sido criada anteriormente (1935) pelo artista. Magritte subverte a função de algumas partes do corpo humano ao formar o rosto de uma mulher num torso feminino. Assim, os seios formam os olhos e seus bicos dão vida às pupilas; o nariz é constituído pelo umbigo; a boca é formada pela púbis. Os cabelos longos e dourados formam a moldura do rosto. O pintor repassa a ideia de que as mulheres, através do olhar, podem repassar ao observador a sua sexualidade.

A pintura que atrai pela sua comicidade é também introspectiva e repulsiva. A maioria dos críticos de arte interpreta-a como sendo o modo como a sociedade – mais precisamente os homens – vê a mulher, objetivando-a. Ela não possui os órgãos dos sentidos, portanto, não possui voz. Sua existência é representada unicamente pelo seu corpo, pelos desejos que desperta e que satisfazem o homem. Seria esta a mulher ideal para o macho humano?

Obs.: Alguns veem na obra uma referência ao corpo da mãe do artista que suicidou quando ele tinha 14 anos. Ela foi encontrada com o rosto coberto por sua camisola, mas apresentando o corpo nu. Presume-se que ele tenha assistido à cena.

Ficha técnica
Ano: 1948
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 17,2 x 14,4 cm
Localização: coleção privada

Fontes de pesquisa
Magritte/ Editora Taschen
https://www.renemagritte.org/rape.jsp
https://www.sartle.com/artwork/the-rape-rene-magritte-1934

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