VOLTANDO À VACA FRIA…

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Autoria de Lu Dias Carvalho

vaca

Dona Faustina Borges, carne com unha com a minha avó, era uma mulher e tanto, alicerçada pelos mais altos valores da fé cristã. Ia à igreja dia sim e outro também. Ajoelhava-se no seu genuflexório feito de peroba, enfeitado com uma almofadinha de seda vermelha e rodeada de crochê, e ali descansava os joelhos já gastos pelo reumatismo. Era daquele tipo de devota que levava o sermão aprendido na igreja para dentro de sua vivência. Por uma palavrinha dita fora do lugar, ela catequizava o desatento por horas a fio, com sua vozinha baixa e arrastada.

De uma feita, surgiu na cidadezinha de Miratonga o boato de que o senhor Horácio Borges, esposo da personagem tão glorificada acima, estava encafifado com certa sirigaita da roça. Ninguém sabe se aquilo era verdade ou invenção, ou como fora cair nos ouvidos de dona Faustina, sempre tão preocupada com a vida religiosa. O fato é que ela transformou o assunto num sermão diário, onde quer que se encontrasse, e quem quer que fosse o pobre ouvinte.

A nossa fervorosa personagem não tinha outro tema para versar, a não ser falar sobre o “santo sacramento do matrimônio” e sobre as punições que aguardavam no inferno o adúltero.  Se o senhor Horácio Borges estivesse por perto, tudo tomava um ar de indiretas, deixando o visitante corado de vergonha, sem saber onde enfiar a cara, uma vez que o suposto infiel era um homem sério, autoridade na cidade e membro de disso e daquilo outro.

Quem tentasse desviar o rumo da conversa enviesada de dona Faustina, cujo sujeito da observação era o seu cônjuge, dava com os burros n’água. Minha avó era uma dessas. Ela interrompia o falatório da amiga, quando se encontra perto do Sr. Horácio Borges, direcionando-o para outros assuntos, de modo a descansar o ouvido do sermão indireto da mulher, para não cair numa saia justa. Dona Faustina ouvia tudo atentamente, sem demonstrar a menor impaciência. Mas assim que minha avó se calava, ou por falta de assunto ou para respirar, a supostamente traída senhora recomeçava:

– Voltando à vaca fria, existe homem que desrespeita um sacramento divino, não sabendo que as portas do inferno estão abertas para ele…

Como pode observar o meu querido leitor, a antiquíssima expressão “voltar à vaca fria” é usada quando, por um motivo ou outro, alguém saiu do assunto principal da conversa e quer retomá-lo. Os franceses usam a palavra “moutons” (carneiros) que na tradução para o português virou “vaca”. O uso da palavra “vaca” pode estar ligado ao fato de que em Portugal era costume servir, antes das refeições, um prato frio feito com carne de gado. Há também uma versão de que um advogado de defesa, para defender seu cliente, fazia longas digressões, viajando pela mitologia greco-romana, quando o juiz, já cansado de tanta embromação, cortava o palavrório:

– Tudo isto é muito bonito, mas voltemos à vaca fria.

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OS DITOS POPULARES E OS ANIMAIS

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Autoria de Lu Dias Carvalho

Nos últimos anos tem sido cada vez mais forte a crítica no que diz a certos provérbios e ditos populares que batem de frente com os direitos dos animais, assim como canções infantis como “Atirei o pau no gato”. São menções negativas aos bichos que devem ser banidas do nosso dia a dia. A crueldade para com os nossos irmãos de planeta ganha, cada vez mais, um maior número de críticos e defensores em todo o mundo. Entre esses se encontram pessoas das mais variadas profissões, diferentes idades, níveis sociais e nacionalidades. Escolas em todo o mundo vêm recebendo abaixo-assinados de crianças e jovens – sempre mais sensíveis ao sofrimento dos bichos – direcionados às autoridades responsáveis, criticando o padecimento causado aos animais e pedindo a mudança nos termos ofensivos a eles que, muitas vezes, estimulam a crueldade. Pedem para que outros provérbios, que possuem o mesmo sentido e que não incitam a crueldade para com os bichos, sejam usados.

Como exemplo de provérbios populares negativos podem ser citados: Matar dois coelhos de uma cajadada só. Pegar um touro pelos cornos. Quem não tem cão, caça com gato. Mais vale um pássaro na mão do que dois voando. Matar dois pássaros com uma pedrada só. A cavalo dado não se olha os dentes. Macaco que pula muito quer chumbo. Burro velho só morre em pasto de gente besta. Urubu quando está caipora, o de baixo caga no de cima. Em festa de nhambu, jacu não pia. Gato escaldado tem medo de água fria. Boi atolado, pau nele. Chutar cachorro morto. Depois da onça morta, até cachorro mija nela. Quem se mistura aos porcos, farelos come… E por aí vai.

A plataforma internacional PETA (People For Ethical Treatment of Animals) que luta pelos direitos animais e combate quaisquer práticas abusivas de exploração e maus tratos, defende que as palavras possuem um grande peso no cotidiano de todos nós e que, à medida que a nossa compreensão evolui, a nossa linguagem precisa evoluir com ela. Baseando-se neste princípio, os ativistas dos direitos animais em todo o mundo estão trabalhando para eliminar as alusões nos provérbios e ditos populares que incentivem os maus tratos aos animais. Segundo os defensores de tais mudanças, um em cada quatro provérbios referentes a animais, por exemplo, contém a palavra “burro”. E esse é o animal mais trabalhador e que vem ajudando a humanidade desde os seus primórdios. Infelizmente é o mais desmoralizado em meio aos homens.

Senhor de suas próprias escolhas e com poder de decisão sobre as demais espécies, o homem deveria agir segundo princípios éticos e morais no que concerne ao trato com os bichos, sejam eles domésticos ou selvagens, ou quando a eles se referir. A sua dívida é impagável em razão dos inúmeros benefícios que os animais vêm prestando a ele desde o surgimento da humanidade. Sem os bichos seria inviável a existência humana na Terra.

Convido todos os leitores deste espaço para que, juntos, nós nos unamos aos objetivos dessa plataforma, pelo menos evitando provérbios que incitem a crueldade contra os animais. Eduquem suas crianças a este respeito. Trata-se de um pequeno passo para cada um de nós, mas de uma grande “pegada” para todos os animais da nossa Terra. Repassem este texto para outras pessoas.

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Zurbarán – NATUREZA-MORTA COM LARANJAS…

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Autoria de Lu Dias Carvalho

Limões, laranjas, taça e uma rosa mostram um campo visual tão purificado e tão perfeitamente composto que os objetos familiares parecem à beira da transfiguração ou (a palavra inevitável) transubstanciação. Permanecendo em alguma interseção iminente com o divino, e com a eternidade, eles exatamente quebram com o normalmente humano.(Norman Bryson)

O pintor barroco espanhol Francisco de Zurbarán (1598-1664) foi aluno de Pedro Diaz de Villanueva em Sevilha. Ele fez inúmeras obras para o Convento de Sevilha. Sua fama levou-o a receber o título de pintor honorário dessa cidade. Trabalhou para a corte de Madri, no governo de Filipe IV. É tido como um dos mais importantes pintores espanhóis do século XVII, ao lado de Velázquez, Ribera e Murillo. Ele se tornou conhecido sobretudo por suas obras religiosas que descrevem monges e mártires, e também pelas suas maravilhosas naturezas-mortas. A maioria de suas pinturas era destinada às ordens religiosas espanholas.

A composição denominada Natureza-morta com Laranjas, Limões e uma Rosa é uma obra-prima do gênero, criada pelo artista – única com data e assinatura –, pintada num estilo austero, seguindo o estilo do tenebrismo*. Trata-se de uma obra composta por quatro limões arranjados numa bandeja de prata, várias laranjas num cesto de palha – ainda com folhas e flores – e um prato de prata com uma xícara com água, enfeitado com uma rosa. Os objetos estão em fila sobre uma mesa de madeira, formando um equilíbrio espacial e geométrico, numa organização piramidal, destacando-se sobre um fundo escuro, seguindo a técnica do tenebrismo*, dentro da tradição das naturezas-mortas espanholas.

Muitos dos trabalhos de Zurbarán – artista responsável por inúmeras obras religiosas – carregavam temas cristãos, sendo que os objetos na pintura são muitas vezes interpretados como dotados de um significado simbólico, como alusão à Santíssima Trindade ou à Virgem Maria. Sobre esta pintura Morten Lauridsen escreveu:

“[…] os objetos desta obra são ofertas simbólicas para a Virgem Maria. Seu amor, pureza e castidade são significados pela rosa e pelo cálice de água. Os limões são uma fruta da Páscoa que junto com as laranjas com flores indica vida renovada A mesa é um altar simbólico.”.

* O termo “tenebrismo” vem do italiano “tenebroso” (sombrio, misterioso, dramático). Trata-se de um estilo de pintura usando claro-escuro profundamente forte, com densos contrastes de luz e escuridão. Tem por objetivo adicionar drama a uma imagem, usando um efeito de holofote.  Esta técnica era muito usada na pintura barroca. Não confundir com o “chiaroscuro” que é um termo com maior amplitude, abrangendo também o uso de contrastes de luz menos intensos com a finalidade de aumentar a tridimensionalidade.

Ficha técnica
Ano: c. 1633
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 60 x 107 cm
Localização: Museu de Arte Norton Simon, Califórnia, EUA

Fontes de pesquisa
Pintura na Espanha/ Cosac e Naify Edições
1000 obras-primas da pintura espanhola/ Könemann
https://en.m.wikipedia.org/wiki/Still_Life_with_Lemons,_Oranges_and_a_Rose

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TRÊS ESTUDOS DE LUCIEN FREUD (Aula nº 111 B)

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Autoria de Lu Dias Carvalho

É uma verdadeira obra-prima e uma das mais excepcionais pinturas leiloadas nesta geração. Um ícone incontestável do século XX, que marca o relacionamento de Bacon e Freud, em homenagem ao parentesco criativo e emocional entre os dois artistas. (Francis Outred de Christie)

A obra conhecida como Três Estudos de Lucian Freud encontra-se entre as 50 pinturas mais famosas do mundo. Trata-se da mais importante composição do pintor britânico figurativo Francis Bacon, cujo trabalho é tido como corajoso, austero e algumas vezes grotesco. Sua fama deveu-se sobretudo ao preço exorbitante pela qual foi vendida em 2013 (142,4 milhões de dólares), batendo o recorde de obras de arte leiloadas até então.

Três Estudos de Lucian Freud é um tríptico composto por telas do mesmo tamanho e emolduradas individualmente que retrata o pintor Lucian Freud (neto de Sigmund Freud), grande amigo de Bacon, tendo um artista exercido grande influência sobre o outro. Os três painéis foram trabalhados ao mesmo tempo, mas foram vendidos separadamente em meados de 1970, após o tríptico ser exposto no Grand Palais/Paris (1971-1972), para tristeza do artista, que dizia que esses ficavam “sem sentido, a menos que um estivesse unido aos outros dois painéis.”. Mas em 1999 o trabalho voltou à sua forma original.

Na composição o artista distorce as formas nos três painéis, usando um estilo abstrato. Lucian Freud é pintado em posições ligeiramente diferenciadas, sentado numa cadeira de madeira, com fundo entrelaçado de palhinha, dentro de uma gaiola. O fundo das três composições é alaranjado e o chão manchado de marrom, cor que prevalece com mais intensidade no primeiro painel e que vai evanescendo até quase desaparecer no terceiro. Atrás de cada cadeira vê-se uma cabeceira de cama. Francis Bacon revela uma gama de emoções em seu tríptico, como angústia, medo, violência, inquietude, etc.

Os colecionadores da China, Rússia e Oriente Médio têm elevado o valor das obras contemporâneas às alturas. Cada leilão bate o recorde de valor de obras anteriores. A pergunta que nos vem à cabeça é: Como há gente com tanto dinheiro? Essa demonstração de riqueza e vaidade chega a ser um desrespeito aos demais viventes do planeta Terra, pois uma obra de arte não pode valer tanto, por mais primorosa que seja. É o excesso de dinheiro em mãos de pouquíssimos.

Ficha técnica
Ano: 1969
Técnica: pintura a óleo
Dimensões:198 x 147,5 cm
Localização: Coleção particular

Fontes de pesquisa
https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/estudos-de-freud-de-francis-bacon
https://en.wikipedia.org/wiki/Three_Studies_of_Lucian_Freud

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VOCÊ JÁ SERVIU DE BOI DE PIRANHA?

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Autoria de Lu Dias Carvalho

boi

A minha amiga Josefina não se encontrava hoje num dos seus bons dias. Estava tomada pela dor ocasionada pela ingratidão, sentindo-se usada por seus familiares. Ofereci-lhe meus ouvidos e atenção para que lavasse a alma. Assim, desabafou ela:

– Eu me peguei pensando nas vezes sem conta em que me usaram, ou nas vezes em que permiti que me usassem, como um verdadeiro “boi de piranha”. Eu não sou devorada viva como acontece com o pobre animal, mas esfacelada paulatinamente. Minha dor é tão grande que tenho a sensação de que vou me desintegrar em meio ao caos que assola minha alma. Mas irei superar este momento e aqueles, ou seja, as piranhas que tentaram me devorar, não estarão bem por muito tempo, pois tudo na vida tem o seu reverso.

Certíssima em entregar a contrapartida dos reveses ao tempo, minha amiga saiu da conversa bem mais leve, e eu fiquei curiosa para saber a origem da expressão boi de piranha, à qual ela se referiu com tanta mágoa. Vamos lá:

Quando os boiadeiros vão atravessar com suas boiadas os rios da Bacia Amazônica e do Pantanal, quase sempre infestados por piranhas (peixes carnívoros), pegam o boi mais velho e cansado ou o mais doente da manada e o sacrificam, colocando o pobre infeliz num lugar acima ou abaixo de onde se dará a travessia. De modo que, enquanto as piranhas devoram a pobre vítima, os boiadeiros aproveitam para atravessar o rebanho bovino, sem perigo algum.  Que pena do animal! Esta expressão popular é genuinamente brasileira.

Transposta para a linguagem popular, segundo o nosso Aurélio, trata-se da pessoa que, em um grupo, é submetida ou se submete a um sacrifício ou experiência para favorecer os companheiros. Não é fácil servir de “boi de piranha” contra a vontade.

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MOÇA COM CÃO BRANCO (Aula nº 111 A)

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Autoria de Lu Dias Carvalho

O artista Lucian Freud (1922–2011) era filho de um arquiteto e neto do psicanalista Sigmund Freud. Nasceu em Berlim/Alemanha, mas se mudou para o Reino Unido com a sua família, ainda criança, fugindo do Nazismo. Tornou-se cidadão britânico e, ao lado de Francis Bacon, é tido como o principal pintor figurativo inglês do século XX. A partir dos meados dos anos de 1960 optou pela pintura de nus e, para criar a sensação de flacidez da pele, passou a usar pincéis mais ásperos e largos. Pintou principalmente pessoas com as quais tinha contato (membros de sua enorme família, amantes ou amigos íntimos) e que posavam durante muito tempo para ele. Não dava importância à expressão facial, alegando ser essencial que a “expressão venha à tona através do corpo”. Ainda assim, os seus retratos pareciam transmitir um sofrimento espiritual.

A composição intitulada Moça com um Cão Branco faz parte das primeiras pinturas de Lucian Freud, quando ele apresentava composições nítidas e lineares. É tido como uma das obras mais notáveis do artista e de difícil descrição. Muito da atmosfera fria, densa e desnorteante de suas primeiras obras tem a ver com o Surrealismo. Trata-se do último dos retratos criados pelo artista, no qual toma como modelo sua primeira mulher Kitty Garman, filha do reconhecido escultor Jacob Epstein. O mais surpreendente é que a união de Lucian e Kitty findou logo depois de ele ter terminado esta obra extremamente ordenada. O artista pintou muitos retratos de Kitty durante seu breve casamento que terminou em divórcio em 1952 por causa de suas infidelidades crônicas.

A modelo apresenta-se com uma expressão de cansaço, com cavidades profundas sob os olhos, usando um roupão verde, com o seio direito de fora, sentada sobre o que parece ser um sofá ou um colchão desprovido de forro, num cenário severo (uma representação do ateliê do artista), o que leva à presunção de que se refere a uma cena íntima. Ela traz olhos grandes levemente assimétricos, correspondendo à expressão popular de que “os olhos são o espelho da alma”. Eles parecem fixos no observador, mas ao mesmo tempo mostram-se perdidos, expressando receio e aflição — carregados de uma grande tensão psicológica.

Kitty encontrava-se grávida de sua segunda filha, quando estava sendo retratada para esta obra. O seio direito à vista — amparado pelo braço esquerdo, cuja mão segura o outro escondido sob o roupão — pode simbolizar a amamentação. É possível que o artista tenha se inspirado na obra de Jean Fouquet (Fouquet – O DÍPTICO DE MELUN). O jeito como o artista coloca a cabeça do cão (o uso de animais nas composições Lucian Freud é bastante difundido, e muitas vezes ele apresenta um animal de estimação e seu dono) em estado de alerta, com os olhos fixos no observador, pode estar remetendo à impossibilidade sexual, quaisquer que sejam as conotações sexuais que o seio possa ter quando relacionado à cama.

O artista era reconhecido sobretudo por sua capacidade ao representar a textura da pele. A representação do pé aqui na obra é também excepcional. Para Lucian o pé mereceu tanta atenção quanto as mãos ou o rosto de Kitty.

Ficha técnica
Ano: 1950-1951
Técnica: óleo sobre tela
Dimensões: 76 cm x 101,5 cm
Localização: Tate Britain, Londres, Reino Unido

Fontes de pesquisa
Tudo sobre arte/ Editora Sextante
Lucian Freud/ Taschen
Arte/ Publifolha

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