Hasegawa Tôhaku – PINHEIROS
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Autoria de LuDiasBH

A ilustração intitulada Pinheiros é obra do pintor japonês Hasegawa Tôhaku (1539 – 1610). O artista foi aluno de Kanô Eitoku e sucessor estilístico de Sesshû Tôyô. Gostava de pintar, como os pintores chineses, macacos e pinheiros para a decoração de janelas, portas ou divisórias corrediças que permitiam a comunicação entre várias partes uma casa e que eram usadas como suportes ideias para pinturas decorativas. Foi responsável por produzir em seu país umas das originais adaptações da pintura a tinta nanquim. Os filhos também eram pintores.

A composição acima é uma das obras-primas do artista – especializado em paisagens e composições de plantas e animais – representando as famosas “florestas de Kyoto”. Em sua pintura ele apresenta um grupo de pinheiros em meio à neblina da madrugada. Esta obra – ilustrativa do estilo do pintor – serve como amostra da contribuição da pintura japonesa ao conceito de pintura em branco e preto. Com sutis nuanças de cinza, os artistas japoneses conseguiram atingir efeitos maravilhosos de pura luz.

Ficha técnica
Ano: fim do séc. XVI a início do séc. XVII
Autor: Hasegawa Tôhaku
Período Momoyama
Dimensões: 155x 345,1 cm
Localização: Museu Nacional de Tóquio, Japão

Fontes de pesquisa
Enciclopédia dos Museus/ Mirador
O Japão/ Louis Frédéric

O MAL FEITO AOS ANIMAIS RETORNA AOS HOMENS
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Autoria de Marguerite Yourcenar


Vivemos num grande ecossistema que é o planeta Terra, onde os reinos animais e vegetais convivem numa fantástica simbiose. O homem é o único ser no planeta que é capaz de alterar toda a diversidade, destruindo seu habitat como se não fizesse parte desta teia da vida. (Hernando Martins)

Uma teoria diferente viria pôr-se a serviço daqueles para quem o animal não merece qualquer auxílio e encontra-se destituído da dignidade que, em princípio, pelo menos, e no papel, concedemos a todos os homens. Na França e nos países influenciados pela cultura francesa, o animal-má­quina de Descartes tornou-se artigo de fé tanto mais fácil de ser aceito quanto favorecia a exploração e a indiferença. Também aqui podemos perguntar se a asserção de Descartes não terá sido aceita em seu nível mais baixo.

O animal-máquina, de acordo, mas em pé de igualdade com o próprio homem que não passa também de máquina, destinada a produzir e a ordenar ações, pulsões e reações que constituem as sensações de calor e frio, fome e satisfação digestiva, os impulsos sexuais, bem como a dor, o cansaço, o terror, que os animais experimentam da mesma forma como nós. O animal é máquina; homem também, e foi sem dúvida o temor de blasfemar contra a alma imortal que impediu Descartes de ir abertamente longe nessa hipótese, quando teria estabelecido as bases de uma fisiologia e de uma zoologia autênticas. Leonardo da Vinci, se Des­cartes tivesse podido conhecer seus Cadernos, ter-lhe-ia segredado que, em última análise, o próprio Deus é o “primeiro motor”.

Evoquei um tanto longamente o drama do animal e suas causas primeiras. No estado atual da questão, numa época em que nossos abusos se agravam nesse ponto como em tantos outros, podemo-nos perguntar se uma Declaração dos Direitos do Animal iria ser útil. Acolho-a de bom grado, mas já ouço algu­mas boas almas que murmuram: “Há quase duzentos anos foi proclamada a Declaração dos Direitos do Homem, e o que resul­tou daí?

Nenhuma época tem sido mais concentracionária, mais levada às destruições maciças de vidas humanas, mais pronta a degradar, até nas próprias vítimas, a noção de humanidade. Seria o caso de se promulgar em favor do animal um outro documento desse tipo, que será – já que o homem em si mes­mo não terá mudado – tão inútil quanto a Declaração dos Direitos do Homem?” Creio que sim. Creio que sempre con­vém promulgar ou reafirmar as Leis verdadeiras que não dei­xarão por isso de ser menos infringidas, mas que provocarão por vezes no transgressor o sentimento de haver agido mal. “Não matarás.” Toda a história, de que tanto nos orgulhamos, é uma perpétua infração dessa lei.

“Não farás os animais sofrerem, ou tudo farás para que sofram o menos possível. Eles têm seus direitos e sua digni­dade como tu mesmo”, é sem dúvida uma admoestação bas­tante modesta; no estado atual dos espíritos, ela é, ai de nós, quase subversiva. Sejamos subversivos. Revoltemo-nos contra a ignorância, a indiferença, a crueldade que aliás se voltam tão frequentemente contra o homem depois de terem-nas exercido grandemente sobre os animais. Lembremo-nos, pois é necessário estarmos sempre nos chamando a atenção, que haveria menos crianças mártires se tivesse havido menos animais torturados; menos vagões lacrados levando para a morte as vítimas de uma ditadura qualquer, se não tivéssemos nos acostumado com os furgões em que os animais agonizam sem alimentação e sem água a caminho dos matadouros; menos caça humana teria sido abatida a tiros se o gosto e o hábito de matar não fosse o apanágio dos caçadores. E, na humilde medida do possível, mudemos (quer dizer, melhoremos se possível) a vida.

Nota: texto extraído do livro “O Tempo, Esse Grande Escultor”/ Edit. Nova Fronteira

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Antonio Susini – TOURO FARNESE
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Autoria de LuDiasBH

A escultura em bronze intitulada Touro Farnese é uma obra criada pelo artista italiano Antonio Susini (? – f. 1680) que foi aluno do famoso escultor Giambologna. Após a morte de seu mestre, ele continuou fundindo peças a partir dos moldes originais deixados por ele, mas também deu continuidade à sua discreta obra.

A peça acima foi feita a partir de uma cópia em pequeno formato do famoso “Touro Farnese”, que por sua vez é também uma cópia romana, mas já muito modificada em relação ao original, datado de fins do século II, tendo sido atribuído aos artistas Apolônio e Taurisco de Rodes.

O artista retrata o suplício de Dirce que na mitologia grega era uma ninfa, esposa de Lico e sacerdotisa do deus Dionísio. Seu marido era um usurpador do reino de Tebas. Com eles morava a bela Antíope, filha do rei de Tebas, expulsa de casa por ter ficado grávida de Zeus e dado à luz gêmeos. Dirce passou a maltratar Antíope, sobrinha de seu esposo, tratando-a como escrava. Antíope conseguiu fugir e seus dois filhos (Anfíon e Zetos), para vingar a mãe, destronou Lico e ataram Dirce aos chifres de um touro que a arrastou até à morte.

A escultura é composta pelo touro e pelos irmãos Anfíon e Zetos que amarram uma corda em seus chifres. Dirce encontra-se, à esquerda, com as mãos para cima. O copista romano acrescentou as figuras de Antíope, em pé à direita, e a de um pastor, à esquerda, sentado na pedra próximo a um cão. O pastor personifica o Monte Citeron.

Ficha técnica
Arte romana
Ano: 1613
Localização: Galleria Borghese, Roma, Itália

Fonte de Pesquisa
Galleria Borghese/ Os Tesouros do Cardeal

A PERVERSA MATÉRIA PRIMA ANIMAL
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Autoria de Marguerite Yourcenar

A horrível matéria­ prima animal é um produto novo, como a floresta aniquilada que fornece a pasta necessária aos nossos jornais diários e hebdomadários, repletos de anúncios e de falsas notícias; como os oceanos em que os peixes são sacrificados aos petroleiros.

Durante milênios, o homem tem considerado o animal como propriedade sua, só que subsistia um estreito contato entre ambos. O cavaleiro amava, embora dela abusando, a sua mon­taria; o caçador de antigamente conhecia as condições de vida de sua caça, e “amava” à sua maneira os animais que se sen­tia glorioso em abater. Uma espécie de familiaridade se entre­meava com o horror: a vaca enviada ao matadouro depois de totalmente exaurida de seu leite, o porquinho que era sangra­do no Natal (a mulher do camponês da Idade Média sentava-se tradicionalmente sobre as patas do animal para impedi-lo de espernear), eram a princípio “os pobres animais” para os quais se ia cortar capim ou se preparava uma ração de restos.

Para muitas mulheres do campo, a vaca contra a qual se apoiavam para ordenhar era uma espécie de amiga muda. Os coelhos nas gaiolas não estavam mais que a dois passos do guarda-comida onde iriam acabar, “picadinhos como carne de pastel”, mas enquanto isso não ocorria, eram animais que gostávamos de ver remexendo as narinas róseas quando através das grades lhes estendíamos uma folha de alface.

Modificamos tudo isto: as crianças das cidades jamais vi­ram uma vaca ou uma ovelha; e não podemos amar estes seres dos quais nunca tivemos ocasião de nos aproximar ou a que jamais acariciamos. O cavalo, para um parisiense, não passa desse animal mitológico, dopado e arrastado além de suas for­ças, que nos faz ganhar algum dinheiro quando acertamos no páreo de um “grande prêmio”.

Exposta em fatias cuidadosa­mente envoltas em papel celofane num supermercado, ou con­servada em latas, a carne deixa de ser sentida como tendo sido a de um animal vivo. Ousamos mesmo dizer que nossos açou­gues, onde pendem de ganchos quartos de animais que mal se acabaram de abater, de aspecto tão atroz para quem não está acostumado a isto a ponto de certos amigos meus, estrangeiros, mudarem de calçada, em Paris, quando os percebem de longe, talvez até sejam um bem, na medida em que testemunham a violência que o homem inflige aos animais.

 Da mesma forma, os casacos de pele apresentados com cuidados especiais nas vitrines das grandes peleterias parecem estar a mil léguas da foca trucidada na banquisa, a golpes de matraca, ou da nútria que apanhada na armadilha rói a pata tentando recuperar a liberdade.

A bela mulher que se maquia não sabe que seus cosméticos foram testados em coelhos ou cobaias que morreram sacrificados ou cegos. A inconsciência, e consequentemente a boa consciência, do comprador ou da com­pradora é total, como é total, por ignorância do que se fala e por falta de imaginação, a inocência dos que se dão ao traba­lho de justificar os gulags* de toda espécie, ou daqueles que preconizam o emprego da arma atômica. Uma civilização que cada vez mais se distancia do real tende a fazer cada vez mais vítimas, inclusive a si própria.

*campos de trabalhos forçados.

Nota: texto extraído do livro “O Tempo, Esse Grande Escultor”/ Edit. Nova Fronteira

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Sakai Hôitsu – VENTO DE OUTONO
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Autoria de LuDiasBH

Esta delicada composição intitulada Vento de Outono é uma obra-prima da pintura decorativa japonesa. Presume-se que Sakai Hôitsu (1761 – 1828), o responsável pela criação, buscou nas divindades do vento e da chuva a inspiração para decorar um de seus biombos (divisória móvel, feita geralmente com folhas de madeira, presas por dobradiças, cuja finalidade é dividir um aposento em duas partes, ou para isolar um espaço, ou proteger da luz ou do vento).

O artista, em vez de personificar o vento, optou por apontar seus efeitos na natureza, mostrando as folhas e as flores outonais dobradas sob sua força. É possível notar que algumas folhas já amareladas foram arrancadas do galho, esvoaçando pelo ar. O fundo da composição é metálico prateado, sendo o resto da pintura em cores e detalhes naturalistas. Esta pintura foi feita sobre papel num par de biombos com duas folhas.

Sakai Hôitsu, discípulo de Sotatsu e Korin, ainda se encontrava ativo no início do século XIX. Nasceu no Edo, numa família de samurais. Experimentou variados estilos e veio a tornar-se um religioso budista. Fundou uma escola de pintura chamada Ukaan. Por ser um grande observador da natureza, tornou-se especialista na pintura de flores e plantas, assim como seu mestre Ogata Kôrin.

Ficha técnica
Ano: início do séc. XIX
Autor: Sakai Hôitsu
Período Edo
Dimensões: 166 x 183 cm
Localização: Museu Nacional de Tóquio, Japão

Fonte de pesquisa
Enciclopédia dos Museus/ Mirador
O Japão/ Louis Frédéric

A BÍBLIA E O DESAMOR PELOS ANIMAIS
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Autoria de Marguerite Yourcenar

Parece que uma das causas mais importantes do sofrimen­to animal, pelo menos no Ocidente, deve-se à injunção bíblica que Jeová transmite a Adão no paraíso, onde, depois de mos­trar-lhe o mundo de animais, o faz nomeá-los e declara-o mes­tre e senhor de todos eles.

Esta cena mítica sempre foi inter­pretada pelo cristão e pelo judeu ortodoxo como uma permissão para usar à vontade essas milhares de espécies que expri­mem, por suas formas diversas das nossas, a infinita variedade da vida, e por sua organização interna, por seu poder de agir, gozar ou sofrer, a evidente unidade da vida. Contudo, teria sido bastante fácil interpretar o velho mito de outra forma: Adão, ain­da isento de pecado, poderia perfeitamente sentir-se promovido à categoria de protetor, de árbitro, de moderador de toda a criação, utilizando os dons superiores que lhe foram dados por acréscimo, ou de modo diverso dos que foram outorgados aos animais, para perfazer e manter o belo equilíbrio do mundo, do qual Deus o fizera não o tirano, mas o intendente.

O cristianismo viria insistir nas lendas sublimes que unem o animal ao homem: o boi e o asno a aquecerem com seu hálito o menino Jesus; o leão enterrando piedosamente os corpos dos anacoretas, ou servindo de animal de carga e de cão de guar­da a São Jerônimo; os corvos alimentando os Padres do de­serto, e o cão de São Roque a seu dono doente; o lobo, as aves e os peixes de São Francisco; os animais da floresta bus­cando proteção junto a São Brás; a prece para os animais de São Basílio da Desareia ou o cervo trazendo a cruz que converteu Santo Huberto (uma das mais cruéis ironias do folclore religioso é ter esse santo se tornado o padroeiro dos caçadores). Ou ainda os santos da Irlanda e das Hébridas, que cuidavam de garças feridas recolhidas na praia, protegendo os cervos acuados,  ou confraternizando-se com um cavalo branco ao chegar à morte.

Havia no cristianismo todos os elementos de um folclore animal quase tão rico quanto o do budismo, mas o seco dogmatismo e a prioridade dada ao egoísmo huma­no o levaram de vencida. Parece que a esse respeito um movimento supostamente racionalista e laico, o humanismo, no sen­tido recente e abusivo da palavra, segundo o qual se pretende atribuir interesse apenas às realizações humanas, é o herdeiro direto desse cristianismo empobrecido, ao qual foram retirados o conhecimento e o amor pelo resto dos seres.

Nota: texto extraído do livro “O Tempo, Esse Grande Escultor”/ Edit. Nova Fronteira

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